Capítulo Vinte e Dois: Perdão

O Código do Além O programador audacioso 3192 palavras 2026-02-09 14:06:34

— Afinal, o que está acontecendo? Você ainda não vai falar a verdade? — A voz de Damião ecoou, carregada de fúria.

O Diretor Quintino suspirou, cabisbaixo: — Agora que chegou a esse ponto, vou contar tudo. Na época, o professor responsável pela turma de Lúcia era o atual Diretor César.

— O quê? — Ficamos todos atônitos, trocando olhares.

Uma vez que Quintino começou a falar, parecia ter tirado um grande peso das costas. As palavras fluíram: — Naqueles tempos, o Diretor César ainda era o Professor César, e ele queria ser promovido. Competia com uma certa professora. Ela, num momento de desatino, acabou punindo Lúcia fisicamente…

Ele hesitou, incapaz de continuar. Damião prosseguiu: — Então o Diretor César viu ali sua chance. A professora cometera um erro grave, o que certamente atrapalharia sua carreira. Ele fingiu não ter visto nada, mas na verdade instigou o escândalo, fez o caso explodir… No fim, Lúcia se jogou da janela, exatamente como ele queria.

Quintino murmurou: — Isso é o que você está dizendo, não eu.

De repente, uma ideia me ocorreu: — Como se chamava a garota que empurrou Lúcia contra a porta da sala? Aquela que depois recebeu uma punição grave.

Quintino respondeu: — Maria da Lua. Lembro bem, o nome é marcante.

Só agora a verdade veio totalmente à tona. Conhecendo toda a sequência dos fatos, meu coração ficou pesado. Nossa missão era reparar a culpa de Maria da Lua, obter o perdão daquele que ela mais feriu — Lúcia.

Mas Lúcia já havia morrido há muitos anos. Sua mágoa permanecia presa naquele edifício, impregnando as paredes, impedindo qualquer demolição. Dava para imaginar a intensidade dessa energia. Conseguir o perdão de um espírito tão injustiçado não seria tarefa simples.

— Ainda vamos subir lá? — Damião perguntou baixinho ao senhor Cláudio.

Cláudio retirou a bússola e conferiu: — Vamos esperar até as nove da noite para realizar o ritual. É nesse horário que a energia negativa é mais forte, e poderemos evocar o espírito de Lúcia. Agora não é possível.

Quintino tremia tanto que mal se aguentava: — Senhores mestres, esta noite… será que posso não vir?

— Você pode não vir — respondeu Cláudio —, mas para resolver o caso serão necessárias duas pessoas. Essas duas têm que estar presentes.

— Quem… quem são? — Quintino indagou, a voz trêmula. — Não é o nosso diretor, né?

Cláudio explicou: — Uma é a professora que insultou Lúcia. A outra é a mãe dela.

Quintino engoliu em seco, aturdido: — Na verdade, não seria difícil, mas… — Damião franziu o cenho: — Pare de enrolar e diga logo.

Quintino coçou a cabeça, hesitante: — A tal professora já faleceu.

— Como assim? — Cláudio arregalou os olhos.

Quintino suspirou: — É coisa de outro mundo. Ela se suicidou em casa, queimando carvão. O marido estava viajando, e quando voltou, já tinha passado dias… O corpo estava em decomposição, a casa com cheiro de fumaça e morte. Não vale a pena entrar em detalhes, dá azar só de lembrar.

— E a mãe de Lúcia? — perguntei.

Quintino respondeu: — Ela está viva, mas não suporta ver nenhum de nós da escola. Essa mulher passou anos sozinha, não teve vida fácil… dizem que não bate bem da cabeça. Vai ser muito difícil convencê-la a vir.

— Difícil ou não, precisa vir — determinou Cláudio. — Agora é só meio-dia. Temos várias horas antes do ritual. Quintino, vá buscar uma foto da professora falecida, se possível, roupas também. Nós vamos falar com a mãe de Lúcia. Com minha lábia, devo conseguir convencê-la.

Quintino ainda hesitava, inventando desculpas.

Cláudio assentiu: — Então é assim: à noite eu venho evocar o espírito, mas não será para libertá-lo, e sim para fazer com que o espírito de Lúcia te persiga. Não se esqueça que você também é um dos culpados, e seu destino pode não ser melhor que o da professora que se suicidou.

Quintino arregalou os olhos, apressando-se: — Não, não, eu entendi. Cuidarei da questão da professora, e logo passo para vocês o endereço da mãe de Lúcia. Podem ir.

Saímos do prédio sombrio, e Quintino trancou o portão com cuidado. Nos levou ao escritório e pediu que alguém localizasse o endereço da mãe de Lúcia, anotando-o para nós.

Tentou, de forma pouco sincera, nos convidar para almoçar. Cláudio recusou: — Não precisa, prepare tudo, às nove da noite nos encontramos na escola.

Partimos, cada um carregando uma inquietação, especialmente eu, que sentia um peso esmagador no peito.

Cláudio nos conduziu a um restaurante perto da escola, sem pressa de ir ao destino. Perguntei se havia chance de sucesso no ritual daquela noite.

Ele balançou a cabeça lentamente: — Para ser franco, este caso é dificílimo. Cem vezes mais difícil que resolver o de César. César era humano, por pior que fosse ainda tinha momentos de remorso. Mas Lúcia morreu injustamente; sua mágoa acumulada em mais de uma década tornou-se um espírito vingativo. E nesses anos ela também prejudicou outros inocentes, acumulando ainda mais rancor e culpa. Não é algo que eu consiga libertar em uma noite. Dizer que é difícil é pouco: é praticamente impossível.

Fiquei tão surpreso que quase larguei os talheres: — Então… não há salvação para Maria da Lua? Eu… eu também estou perdido…

Cláudio respondeu: — Não precisa temer. Nosso objetivo não é libertar Lúcia, mas obter o perdão dela para Maria da Lua.

Damião estranhou: — Mas, Cláudio, se o espírito injustiçado perdoa quem lhe fez mal, ela mesma não se liberta?

Ele sorriu: — Lúcia carrega ódio por muitos: não só por Maria da Lua, mas por vários colegas e professores, principalmente a professora causadora de tudo… Não podemos resolver todas as mágoas, só precisamos que ela perdoe Maria da Lua. Isso talvez não seja tão difícil; Lúcia e Maria da Lua eram próximas, caso contrário não estariam brincando pelos corredores. Pode ser que Lúcia nunca tenha realmente a odiado.

— Tomara… — murmurei, mexendo no arroz sem apetite.

Cláudio pareceu querer dizer algo, mas conteve-se.

Terminamos a refeição e, de posse do endereço, seguimos até um conjunto habitacional antigo, prédios desgastados, com fios elétricos grossos e escuros pendurados pelas paredes. Subimos até o quinto andar e paramos diante da porta número dois. Damião se adiantou para bater.

Preocupado, perguntei: — Será que a mãe de Lúcia sofre mesmo de problemas mentais?

Cláudio franziu o cenho.

— Isso foi o que Quintino disse — me apressei em explicar.

Damião, irritado: — Aquele sujeito é só lábia, vive de conversa fiada. Não leve ao pé da letra.

Ele bateu à porta. Logo, ouvimos uma tosse e a voz de uma mulher idosa: — Quem é?

O nome dela era Dona Maria. Damião respondeu: — Dona Maria? Poderia abrir a porta, por favor?

A porta, com a tinta descascada, se abriu. Uma mulher de cabelos grisalhos apareceu. Não parecia tão velha, talvez uns cinquenta anos, mas o rosto era todo marcado por rugas, as costas arqueadas, e tossia ao falar: — Quem são vocês?

— Dona Maria, — disse Damião — viemos por causa da Lúcia.

Ao ouvir o nome da filha, ela desabou, escorregando pelo batente. Cláudio correu para ampará-la, empurrou a porta com o pé e nos fez sinal para entrar.

Ajudamos a senhora a se acomodar na sala, um espaço pequeno e simples, mas surpreendentemente limpo e arrumado. Ao contrário do que eu imaginara, mesmo após perder a filha e viver sozinha, ela mantinha tudo impecável, com janelas reluzentes. Isso mostrava que não era, de forma alguma, mentalmente instável, como dissera Quintino. Pelo contrário, era alguém com grande força interior, que não cedeu diante das adversidades.

Sobre a mesa da sala, vi a foto de Lúcia emoldurada, sem nenhuma poeira. Era uma foto antiga, já amarelada, mostrando uma adolescente linda num vestido vermelho, de joelhos flexionados, segurando a barra do vestido — parecia uma princesa saída de um filme da Disney.

Fiquei comovido. Uma jovem tão encantadora, ceifada pela crueldade de tantos… Ainda existe justiça no mundo?

Com o cuidado de Cláudio, Dona Maria retomou os sentidos e chorou, escondendo o rosto nas mãos.

Eu não sabia como abordar o assunto. Diante de uma mãe tão sofrida, a vergonha tomou conta de mim, sabendo que estava ali por um motivo egoísta.

Aquela família já carregava dor demais, e agora pedíamos um perdão que parecia impossível.

Damião disse então: — Dona Maria, fui colega de Lúcia na escola.

Ela levantou os olhos para ele.

Nem eu nem Cláudio esperávamos que Damião dissesse isso. Ele continuou: — Sempre admirei muito sua filha. Depois do que aconteceu… Melhor não relembrar. Mas, dias atrás, tive um sonho com Lúcia. Ela me disse que estava fria, sozinha, não queria ser um espírito perdido. No começo achei que era só coisa da minha cabeça, mas depois pensei: e se for verdade? Corri atrás de ajuda e, com muita dificuldade, consegui trazer o senhor Cláudio, que é consultor sênior da Associação de Estudos Esotéricos da cidade, um especialista em rituais. Quero pedir que ele faça um ritual para Lúcia. Não é, Cláudio?

Cláudio o encarou e, de repente, sorriu, assentindo: — Sim. No começo eu não queria aceitar, mas este jovem ficou três dias e três noites esperando na porta da minha casa. Só então decidi ajudá-lo.