Capítulo Sessenta e Nove - O Sonho dos Trinta Anos

O Código do Além O programador audacioso 3263 palavras 2026-02-09 14:10:22

— Wang Yuantong, de qual sistema de exploração você fazia parte originalmente? — perguntou Li Damin.

Wang Yuantong sorriu: — Capitão, isso me parece informação confidencial, não? De onde vim não importa, o importante é que agora somos uma equipe.

— Equipe? — Li Damin riu. — Esse termo é novo e bastante preciso. Normalmente, só chamamos de “grupo”.

— É mesmo? — riu Wang Yuantong no escuro, sem acrescentar mais nada.

Não era hora de discutir palavras. Li Damin voltou-se para Chen Jian e perguntou se ele conseguia se lembrar da origem da gaita.

O jovem Chen Jian estava assustado, com lágrimas nos olhos, tremendo como se tivesse febre, e respondia a tudo dizendo que não sabia. Li Damin pegou a gaita, guardou-a num bolso oculto e avisou aos outros que ele a manteria por enquanto.

Quando retomaram a caminhada, o clima do grupo tornou-se carregado e estranho. Cada um mergulhado em seus próprios pensamentos. Li Damin pensava em como superar o obstáculo, Wang Yuantong, na retaguarda, parecia maquinar algo, com os olhos inquietos.

Depois de percorrerem uma longa distância, avistaram uma curva à frente, como se tivessem alcançado uma linha divisória. Ao entrar, a escuridão tornou-se ainda mais densa. A região onde estávamos já era sombria, mas ali dentro era como se a treva tivesse se adensado.

Li Damin estava prestes a avançar quando eu o alertei: — Damin, olhe para Chen Jian.

Li Damin voltou-se e iluminou o caminho com a lanterna. Chen Jian permanecia imóvel, com o rosto pálido como neve, tremendo tanto que mal conseguia se sustentar em pé.

Wang Yuantong foi apoiá-lo: — O que houve com você?

Chen Jian demorou um pouco, levantou a cabeça para Li Damin e murmurou: — Ca-capitão, estou com medo...

— Medo de quê? — Li Damin franziu o cenho.

Gaguejando, Chen Jian respondeu: — Consigo sentir que lá dentro é assustador, quanto mais avançamos, mais medo eu sinto. Há... há algo lá...

— Somos uma equipe — disse Li Damin, olhando para Wang Yuantong —, nos ajudamos mutuamente, vamos cuidar uns dos outros, não haverá problema. Ou você não quer cumprir a missão? Não quer provar ao seu pai do que é capaz?

Chen Jian abaixou a cabeça, os ombros sacudindo em soluços: — Mesmo assim... eu estou com medo.

Wang Yuantong perguntou se ele tinha medo de fantasmas lá dentro.

— Não são fantasmas — respondeu Chen Jian, cada vez mais aflito. — Nem sei do que exatamente tenho medo, só sei que algo escondido na caverna me apavora.

Aproximei-me de Li Damin e disse baixinho: — O último desafio está relacionado à experiência mais difícil da vida de Chen Jian, aos seus próprios demônios interiores.

Li Damin assentiu, indicando que compreendia.

Ele se agachou, acariciou a cabeça de Chen Jian e falou suavemente: — Não tenha medo. Comigo e com o Wang ao seu lado, vamos te ajudar a superar isso, está bem?

Wang Yuantong deu uma gargalhada: — Eu sou irmão dele, não tio!

A brincadeira fez Chen Jian soltar uma risada tímida, aliviando um pouco a pressão.

Li Damin passou o braço sobre seus ombros, meio apoiando, meio conduzindo, forçando-o a avançar com eles pela curva escura.

Assim que entramos, percebia-se claramente que a luz da lanterna tinha diminuído bastante. Antes iluminava quatro ou cinco metros, agora mal alcançava três. A escuridão ao redor parecia uma muralha apertando-nos por todos os lados.

Avançar num ambiente tão negro é um tormento para os nervos. Não se via nada, era como caminhar pelo próprio universo escuro.

Li Damin era muito cuidadoso e experiente. Liderava o grupo rente à parede da caverna, marcando uma seta a cada cinco passos. Ninguém dizia uma palavra, como se falar pudesse despertar algo adormecido.

Após algum tempo, Li Damin sugeriu uma pausa. Sentaram-se para repor um pouco de água e biscoitos. Chen Jian estava com dificuldades para respirar, o rosto tão pálido quanto papel.

Diante de tal condição, pelas normas e experiência da exploração, não deveriam prosseguir com ele. Mas ali não era uma exploração real; estávamos no reino intermediário entre vida e morte, e Chen Jian precisava continuar, pois só ele poderia vencer o último obstáculo.

Se falhasse, cairia para o mundo dos mortos de vez. Se conseguisse, nossa missão estaria cumprida: levá-lo de volta à vida, para renascer.

Nesse momento, Li Damin mostrou seu verdadeiro espírito de liderança, apoiando e persuadindo Chen Jian, enquanto Wang Yuantong o ajudava com comentários encorajadores. O que Chen Jian não podia recusar era a vontade de mostrar ao pai que era capaz, e Li Damin usava isso para motivá-lo.

No fim, Chen Jian cedeu e continuou com o grupo.

Mais adiante, Li Damin parou de repente e iluminou à frente com a lanterna: outro desvio.

O estranho era que após essa curva, a escuridão era ainda mais profunda, com uma linha divisória claramente visível.

Li Damin hesitou, e Wang Yuantong se aproximou em voz baixa: — Capitão, pelo menos isso mostra que estamos no caminho certo.

— Por quê? — perguntou Li Damin.

— A cada curva, a escuridão se aprofunda em graus sucessivos — explicou Wang Yuantong. — Há uma lógica nisso, evidencia uma direção.

— Você pensa bem — Li Damin sorriu de leve.

Wang Yuantong passou a mão na cabeça raspada, rindo: — Só dou sugestões. A decisão maior é sua.

— Não nos resta escolha, só podemos seguir em frente — concluiu Li Damin, chamando Chen Jian para segui-lo de mãos dadas.

— Espere — chamou Wang Yuantong de repente. — Capitão, pensei numa coisa.

— Diga.

Ele coçou a cabeça e perguntou: — Se a escuridão continuar aumentando e a lanterna deixar de funcionar, o que faremos?

— Seguiremos tateando — respondeu Li Damin. — Suas mãos não servem para isso?

Wang Yuantong sorriu e seguiu em silêncio.

O grupo entrou na nova curva. A luz da lanterna agora alcançava menos da metade: mal iluminava um metro à frente. Um metro, quase um passo. Sinceramente, ter ou não a lanterna já não fazia diferença.

A cada passo, as pernas de todos pareciam pesar toneladas. Se Li Damin não estivesse amparando Chen Jian, ele já teria desabado.

De repente, Chen Jian murmurou de modo estranho: — Capitão, agora sei onde estamos.

O grupo parou. Li Damin enxugou o suor da testa e sugeriu a Wang Yuantong que se sentassem para descansar, apoiando Chen Jian ao se acomodarem. Li Damin perguntou de que lugar se tratava.

Chen Jian fitou intensamente a escuridão à frente: — Lembro que, aos trinta anos, tive um sonho...

Wang Yuantong logo interrompeu: — Ei, você só tem quatorze, como pode lembrar de um sonho dos trinta...

Li Damin o cortou: — Não interrompa, escute direito.

Wang Yuantong fez um muxoxo e continuou ouvindo, de olhos semicerrados.

— Na noite do meu trigésimo aniversário, era verão, um calor sufocante. Não conseguia dormir bem, virei de um lado para o outro, levantei para ir ao banheiro e, olhando no relógio, vi que eram cerca de quatro da manhã. Deitei e, meio adormecido, tive um sonho — disse Chen Jian, a voz embargada.

Li Damin e Wang Yuantong ouviram em silêncio.

— Sonhei que caminhava, junto a outras pessoas, por uma caverna escura. Do fundo vinham sons enormes, provavelmente de uma criatura gigantesca, algo como um boi velho, mas para mim parecia que a voz chamava meu nome. Eu estava apavorado. No sonho, não conseguia controlar meus passos, só avançava, indo para as profundezas. Foi então que vi no chão um traje de mergulho.

— Traje de mergulho? — Wang Yuantong não se conteve.

— Agora entendo — disse Chen Jian. — O sonho me mostrava que no fundo da caverna havia uma enorme piscina, e a criatura estava submersa. Eu precisava entrar na água para encontrá-la...

Enquanto falava, Chen Jian se levantou. Li Damin, percebendo que ele não estava normal, gritou:

— Calma!

Chen Jian estremeceu e recobrou a consciência. Olhou para Li Damin, e desabou em prantos em seu ombro:

— Damin, estou com medo. Este é o meu sonho. Estou dentro do meu sonho. Quero acordar.

— Ora — riu Wang Yuantong —, Chen Jian, você é mesmo uma criança. Aqui é um lugar real, não seu sonho, muito menos de quando você tiver trinta anos. Que exagero.

Li Damin fez sinal para que ele se calasse.

Quando Chen Jian chorou até se acalmar, Li Damin tentou consolá-lo, dizendo que era apenas uma caverna comum, escura porque estavam no coração da montanha.

— Damin, vamos voltar — implorou Chen Jian, chorando.

Li Damin então lançou mão de seu argumento infalível: — Você não quer que seu pai sinta orgulho de você?

Não se sabe como, mas essas palavras atingiram Chen Jian no fundo do peito. Ele se levantou de súbito, ofegante:

— Damin, lembrei do sonho! Este lugar tem a ver com meu pai, a caverna foi ele quem construiu!

Aquela revelação me deixou atônito. Li Damin e Wang Yuantong também trocaram olhares perplexos.

— Mesmo que seu pai fosse um grande professor, não seria possível construir uma caverna dessas do nada — riu Wang Yuantong. — Você está delirando.

— Meu pai está no fundo da caverna — Chen Jian respirava com dificuldade. — Eu... eu não posso vê-lo, não posso!

E, dizendo isso, tentou fugir. Li Damin, rápido como um raio, o segurou. Chen Jian se debatia como um bezerro enlouquecido, tentando escapar com uma força histérica.

Li Damin, já impaciente, gritou: — Wang Yuantong, vai ficar olhando?

Wang Yuantong aproximou-se e, com um só golpe na nuca, fez Chen Jian desmaiar, tombando mudo e inerte ao chão.