Capítulo Oitenta e Dois: Cantar

O Código do Além O programador audacioso 3133 palavras 2026-02-09 14:10:28

Ficamos curiosos e perguntamos a Abá o que tinha acontecido. Abá contou que, há alguns meses, teve a sorte de passar um dia com a turma avançada. Huang Teng levou os discípulos da turma avançada até o local de um incidente.

Só ao chegar lá é que Abá entendeu do que se tratava. Uma jovem havia se suicidado no banheiro de um apartamento alugado; morreu afogada na banheira. O caso já tinha sido encerrado como suicídio, mas os pais da moça batiam o pé dizendo que não podia ser: a filha era extrovertida, tinha acabado de se formar na universidade, gravado vídeos falando sobre o futuro, não havia motivo para se matar. Além disso, a forma como morreu era estranha; quem consegue se afogar voluntariamente desse jeito? Isso exigiria uma determinação fora do comum.

Desconfiando que havia algo por trás, chamaram Huang Teng.

A habilidade mediúnica de Huang Teng era bastante conhecida no meio, e foi preciso gastar uma boa quantia para conseguir sua presença. Ele foi, levando sua equipe de discípulos, até o apartamento.

Abá teve muita sorte e foi o único aluno que não era da turma avançada a presenciar todo o processo.

Na ocasião, Huang Teng não agiu de imediato, ficou conversando com os pais da falecida, enquanto seus discípulos entravam um a um no banheiro, local da morte, para investigar. Abá não pôde ver quais métodos usaram, pois cada um trancava a porta ao entrar, sem permitir que ninguém visse, nem mesmo entre eles havia troca de informações.

Quando saíam, cada discípulo fazia um relato privado a Huang Teng. Só então Abá percebeu que, na verdade, aquilo era também um teste para os discípulos.

"E depois?", perguntei curioso.

Abá ficou um pouco sem jeito: "As conversas eram todas no quarto dos fundos, eu nem pude entrar, então não sei detalhes do processo. Mas chegaram a uma conclusão: a garota realmente foi assassinada. Parece que bebeu demais e o namorado a afogou na banheira. Não sei o que aconteceu depois, se pegaram o culpado ou não, mas foi uma história bem sinistra."

Troquei olhares com Li Daming. Ele perguntou a Abá: "Você já está aqui há seis meses, por que continua na categoria roxa?"

Abá suspirou: "Meus amigos, vocês vão entender quando chegarem, subir de nível não é fácil assim. Eu já nem espero mais, só de estar aqui nesse tempo já evoluí muito, não sou mais quem era. Estou satisfeito. Quando sair daqui, vou assumir os negócios da família, o que aprendi já é suficiente, não quero me aprofundar demais nesses segredos."

Perguntei: "E o que fazem na categoria roxa? Só trabalho braçal?"

Abá riu: "Fiquem tranquilos, tem muita coisa pra aprender. Por exemplo, aprimoramento psicológico, exercícios físicos, atividades em grupo, meditação, leitura, apresentações públicas, tudo isso faz a gente crescer muito."

Li Daming ficou visivelmente decepcionado, mas não disse nada, dava pra ver pela cara dele.

Também fiquei frustrado. Viemos aqui para aprender técnicas espirituais, perder tempo com essas coisas parece um desperdício, seria melhor voltar ao trabalho antigo.

Troquei um olhar com Li Daming e fomos para o corredor fumar, conversamos rapidamente e tomamos uma decisão: ficaríamos um mês para testar. Huang Teng nos avaliaria, mas nós também o avaliaríamos. Um mês seria nosso período de experiência. Se percebêssemos que era perda de tempo, iríamos embora e procuraríamos o Tio Zhong de novo.

Com isso decidido, nos sentimos mais leves. De qualquer forma, um mês passa rápido.

No dia seguinte, seguimos a rotina. Notei que minha resistência física tinha melhorado um pouco, e depois do café da manhã fomos limpar tudo. O objetivo era deixar tudo em ordem antes das aulas.

Huang Teng era esperto, botava a turma dos instrutores para limpar, dizendo que era para fortalecer o espírito e o corpo, mas, na prática, economizava um bom dinheiro com limpeza.

Quando terminamos, já era quase dez horas. Eu estava exausto, sentei num canto cochilando. De repente, senti uma dor forte na nuca: levei um tapa tão forte que despertei na hora. Era a chefe Xu, com o rosto fechado, bem diferente do jeito simpático do dia anterior.

"Tá com preguiça? Anda, reúne todo mundo!" gritou ela. "Lin Cong, se me fizer passar vergonha de novo, não me venha reclamar depois!"

Resmungando, segui atrás dela até uma grande sala de aula, onde já estavam todos dos três grupos, sentados no chão, conversando alto.

Os mais animados eram os das turmas amarela e vermelha, misturados, felizes. Já a turma roxa parecia jogada de lado.

Li Daming e Abá conversavam de qualquer jeito. Quando me viram, acenaram para eu me juntar a eles.

Assim que todos chegaram, Yang Wei foi à frente e bateu palmas: "Silêncio, pessoal, vou passar as tarefas da semana."

O ambiente ficou em silêncio instantâneo. Yang Wei continuou: "A turma amarela receberá as tarefas individualmente, cada uma num envelope lacrado. Para a turma vermelha, a missão é completar pelo menos 45 horas de ensino e manter média acima de 70 pontos. Já a turma roxa precisa vender para pelo menos cinco alunos nesta semana..."

Quase explodi ao ouvir aquilo. Cutucando Li Daming ao lado: "Ué, não somos da turma dos instrutores? Por que temos que trabalhar com vendas?"

Nesse momento, Yang Wei gritou do palco: "Turma roxa lá atrás, que falta de respeito! Não admito conversas paralelas enquanto estou falando."

Encolhi o pescoço e fiquei quieto.

Yang Wei apontou: "Você aí, da turma roxa, que estava falando, venha aqui na frente! Se é bom de fala, o palco é seu."

Continuei calado, sentado no fundo. A chefe Xu veio até mim e me deu um chute: "Levanta e vai, não ouviu? Tá surdo?"

Eu estava furioso, pronto para explodir, mas reparei que todos das turmas amarela e vermelha, inclusive várias garotas bonitas, olhavam para mim. Que vergonha!

A raiva subiu até a cabeça, agarrei a blusa roxa, quase a rasguei, quando senti meu pulso ser segurado. Li Daming levantou a cabeça, semicerrando os olhos, e sussurrou: "Quem não suporta o pequeno, prejudica o grande."

Respirei fundo, soltei a camisa e me levantei devagar. Li Daming levantou junto.

"Não precisa, Daming, foi eu quem falei", murmurei.

Li Daming sorriu: "Mesmo sem abrir a boca, você estava falando comigo, então também sou responsável. Vamos juntos."

Fomos até a frente da sala, contornando os colegas sentados em círculo, todos nos observando.

"Vocês dois de novo", Yang Wei zombou. "Se não fosse pelo professor Huang, eu já teria mandado vocês embora. Pois bem, se são tão bons de fala, mostrem o que sabem, apresentem-se."

Diante de tantos olhares, meu rosto queimava. Queria explodir, mas seria pior ainda. Não sabia o que fazer.

"Vou cantar uma música para vocês", disse Li Daming de repente.

"Ah é? Quero ver", Yang Wei respondeu, cruzando os braços. "Cante lá."

Li Daming pigarreou: "Não sei cantar muito, vou só cantar o último verso de 'Planalto Tibetano', aquele bem agudo."

"Vai lá, queremos ouvir", disse Yang Wei, esperando.

Li Daming começou: "Então é... planalto..." E, de repente, respirou fundo e soltou: "TI-BE-TANO~~~"

Aquele "TIBETANO" subiu várias oitavas, cada vez mais alto, o som era tão agudo e potente que parecia o canto de uma fênix, cristalino e vigoroso.

Percebi na hora: ele estava usando o "Rugido do Dragão". As ondas sonoras se espalharam pela sala, ricocheteando nas paredes, se sobrepondo e formando um campo sonoro imenso.

Os instrutores das três turmas, que estavam sentados, caíram para os lados, fazendo caretas de dor; alguns taparam os ouvidos.

Yang Wei, que estava de lado, mudou de expressão e gritou: "Pare já!"

Li Daming interrompeu abruptamente, nem chegou a cantar a última palavra. O som cessou e quase todos estavam caídos, alguns mais velhos segurando o peito, queixando-se.

O estranho é que o rugido de Li Daming não teve nenhum efeito físico sobre mim. Eu podia sentir o poder e o impacto daquilo, mas nada me atingia.

Talvez fosse por termos atravessado juntos o mundo espiritual; o "Rugido do Dragão" dele não me afetava.

Yang Wei estava furioso, olhava para nós de cima a baixo, querendo explodir, mas conteve o ímpeto e juntou as mãos: "Dois colegas taoístas, de onde vieram vocês? São mesmo bons em fingir-se de fracos."

Li Daming sorriu: "Não temos mistério, somos pessoas comuns. Você mesmo viu a carta de recomendação do tio Zhong, não viu?"

Yang Wei engoliu seco: "Vocês sabem se disfarçar, não me admira que o professor Huang não quis que eu os expulsasse. Mas, Lin, Li, não importa de onde vieram nem quem ensinou vocês, aqui há regras! Se não respeitarem, por mais habilidosos que sejam, não terão razão quando saírem. Somos uma escola séria, não um grupo de charlatães. Se querem desafiar a casa, vão encontrar resistência!"

Olhei para Li Daming, ele me olhou de volta.

Pelo tom de Yang Wei, parecia mesmo que tínhamos fama e habilidades, e ele estava cheio de receios.