Capítulo Cinquenta e Cinco: O Obstáculo Difícil
Depois que Meiyu deu as instruções, ela puxou a mão de Damin e seguiu à frente, enquanto eu vinha logo atrás. A escada era profunda e escura, serpenteava para baixo, conduzindo sempre a um abismo tenebroso. Descemos por um longo tempo e a escada parecia interminável, sem que se visse o fim. O ar estava repleto de fiapos brancos, como se tivesse nevado; a cena era ao mesmo tempo estranha e de uma beleza melancólica.
Não resisti à vontade de falar com eles, mas Meiyu havia frisado que não devíamos pronunciar palavra alguma. Mordi os lábios e contive-me.
Quando a escada finalmente terminou, havia luz do lado de fora. Não era uma luz forte, mas suave, como envolta em papel encerado. Meiyu, ainda segurando Damin, saiu pela porta da escada e entrou naquela claridade, e eu tratei de acompanhá-los. Do lado de fora, nevava intensamente; os flocos, miúdos, bailavam no ar sem vento, parecendo cinzas de papel queimado.
A luz vinha de um poste não muito distante. Meiyu falou suavemente: “Damin, está vendo a luz?”
“Sim”, respondeu ele, a voz rouca, “é um poste.”
“E a mim, consegue ver?” perguntou a garota.
Damin arfou, surpreso: “Sinto que você me puxa, está ao meu lado, mas não consigo enxergar você.”
Achei aquilo estranho e perguntei: “E a mim, consegue ver?”
Ao ouvir minha voz, Damin se preparava para olhar para trás, mas Meiyu exclamou em voz alta: “Não olhe para trás! Estamos no limiar do mundo intermediário. É proibido olhar para o caminho por onde viemos.”
Damin sorriu, forçando-se: “Tenho a impressão de que só eu estou neste lugar amaldiçoado. Vocês dois estão em segurança, e eu é que corro o risco.”
“Eu também estou aqui”, disse Meiyu suavemente. “Agora precisamos encontrar meu pai. Sigamos em direção à luz.”
Damin então caminhou até o poste, seguido por Meiyu, e eu fui atrás. Ao chegar ao poste, Meiyu perguntou em voz baixa: “O que você vê?”
“Vejo uma poça d’água, e sobre ela flutua um talismã amarelo.”
“Pegue-o”, orientou Meiyu. “É o passe do submundo; vamos usá-lo para embarcar. Ele nos levará até onde está meu pai.”
Damin respirou fundo, agachou-se e pegou o papel molhado. Eu não conseguia enxergar direito, mas, já que era assim, resolvi seguir com eles.
Damin seguiu o curso contrário à água da poça, Meiyu ao seu lado, e eu logo atrás, intrigado por Meiyu não agir, deixando tudo nas mãos de Damin.
Aquele lugar era envolto em mistério e tudo podia acontecer. Só nos restava avançar passo a passo.
Logo chegamos à margem de um grande rio, cuja extensão não se via o fim. O cenário era desprovido de cor, envolto em trevas de todos os lados; as águas eram apenas um contorno, e no céu pairavam flocos brancos, como um verdadeiro caminho para o além, causando uma sensação de desânimo.
Foi então que, vindo das profundezas do mar, surgiu um barco coberto de preto. De início, via-se apenas a silhueta, que em instantes se fez grande, aproximando-se rapidamente da margem.
Quem remava era uma menininha de uns sete ou oito anos, de expressão impassível. Ao vê-la, estremeci. Não era ela a Sétima Senhora, que eu já vira antes? Segundo Madanlong, ela era a Mensageira Branca do Outro Mundo.
Meiyu falou suavemente: “Damin, suba no barco.”
Mesmo o destemido Damin mostrava certo nervosismo ao chegar à beira e tentar embarcar. A menina veio até ele, estendeu a mão, e Damin, astuto, entregou-lhe o passe que havia encontrado na poça.
A menina recebeu o talismã, abriu caminho e nos permitiu embarcar. Tratei de acompanhá-los. Ela apenas lançou um olhar na minha direção, não sei se me viu. Caminhou até a popa e começou a remar. O barco se afastou da margem, adentrando as águas profundas.
Damin sentou-se casualmente no barco, Meiyu ao lado, ambos de mãos dadas todo o tempo. Percebi que não era questão de intimidade, mas sim de alguma necessidade naquele caminho, embora o motivo me escapasse.
Fiquei atrás dos dois. O barco balançava suavemente, e ao redor só havia a imensidão das águas; nem sinal da margem.
Meus olhos pousaram no toldo preto do barco, coberto por uma cortina que impedia ver o interior. Deduzi que lá dentro deveria estar Liuyang, mas não tinha certeza. Sussurrei: “Damin, vá até a cortina e dê uma olhada.”
Meiyu não gostou nada da ideia: “Não crie complicações.”
Agachei-me ao lado de Damin e disse: “Quem está ali é o corpo mumificado que você viu no condomínio, Liuyang.”
Damin estremeceu; tentou olhar para mim, mas não conseguiu me ver, confuso: “Você tem certeza?”
“Lembra quando te contei sobre minha experiência com Madanlong? Entrei no submundo com a pulseira mediúnica e foi num barco assim que vi Liuyang.” expliquei.
Damin se levantou, ainda segurando a mão de Meiyu. Ela se apressou em adverti-lo, lançando-me um olhar feroz: “Damin, agora é hora de salvar meu pai. Não crie confusão.”
Mas Damin, determinado, disse apenas: “É uma oportunidade única.”
Foi até o toldo, ergueu a mão para levantar a cortina. Meiyu o cutucou, incentivando-o. Damin olhou para a menina que remava, a Sétima Senhora, que nos fitava com frieza.
Damin, segurando Meiyu com uma mão, fez um gesto de desculpas com a outra, e sem hesitar, puxou a cortina. Eu vi junto com ele e ficamos ambos paralisados.
O interior estava vazio; Liuyang não estava ali.
Damin hesitou, Meiyu disse apressada: “Volte já!”
Ele largou a cortina e se recolheu à proa, sentando-se de pernas cruzadas. A Sétima Senhora continuou a remar, sem demonstrar reação. O barco deslizava rapidamente pelo rio.
“O que aconteceu?” Damin perguntou.
“Não sei”, respondi.
Meiyu, irritada, exclamou: “Não sei o que procuram, mas não repitam isso! E se causarem problemas?”
“Meiyu”, argumentei, “da outra vez, havia alguém no barco. Por que agora não há?”
“Quem era?” perguntou ela.
Hesitei, sem saber como explicar.
Ela perdeu a paciência: “Talvez fosse só um passageiro como nós, que desembarcou ao chegar.”
“Não, era diferente”, insisti. “Parecia alguém que praticava ali.”
Meiyu ficou surpresa: “Existe gente assim? Então há outra possibilidade: este barco não é o mesmo que você usou.”
“Mas era a mesma menina”, argumentei.
“Todo espírito que cruza o mar do sofrimento precisa de uma Sétima Senhora para conduzi-lo. Para cada pessoa, um barco. A Sétima Senhora tem milhares de formas aqui.”
Fiquei espantado: “E se eu quiser encontrar aquele barco?”
Meiyu balançou a cabeça: “Não há como, só depende do destino.”
O barco então encostou na margem, sem que percebêssemos. Flocos brancos voavam por toda parte, criando um cenário assustador.
Desembarcamos e, ao olharmos para trás, o barco já havia desaparecido. Diante de nós, uma floresta de galhos brancos, entrelaçados como espectros.
Meiyu, ao ver uma pedra próxima da mata, ficou ofegante. Sobre ela, acumulava-se uma camada de flocos brancos, e insetos luminosos dançavam como vaga-lumes. Na pedra, lia-se: Jian Chen.
“Aqui é a provação intermediária do meu pai. Vamos rápido”, disse ela, puxando Damin, e eu fui atrás.
Dentro do bosque, os flocos brancos eram ainda mais abundantes, dificultando a visão, e os galhos das árvores estavam carregados daquele branco.
No centro do bosque havia uma clareira. Damin arfou: “Que frio!”
Eu não sentia o frio, mas vi que ele exalava vapor branco ao respirar; devia estar gelado.
De repente, Meiyu gritou: “Pai!”
Seguimos a direção do grito e vimos, sob uma grande árvore, alguém coberto de flocos brancos, imóvel como uma estátua, aparentemente congelado.
Meiyu largou a mão de Damin e correu até ele, abraçando-o e limpando desesperadamente os flocos.
Damin e eu ajudamos. Logo, o rosto de um homem apareceu sob o branco; era Jian Chen, pai de Meiyu, exatamente igual ao cadáver que eu vira no mundo real.
À medida que os flocos eram retirados, as pálpebras de Jian Chen estremeceram, dando sinais de vida. Damin se apressou: “Vamos tirar o tio daqui.”
Meiyu, pálida, murmurou: “Não há como sair.”
Damin levantou-se e correu pelo caminho por onde viéramos, eu logo atrás, mas já não havia trilha alguma; no lugar, árvores densas haviam crescido, bloqueando completamente a passagem.