Capítulo Vinte e Quatro: Possessão

O Código do Além O programador audacioso 3226 palavras 2026-02-09 14:06:37

Após as instruções do Tio Zhong, ele afastou-se do grupo e caminhou lentamente em direção àquela sala de aula. Todos observavam em silêncio, sem ousar respirar fundo; o ambiente estava tão quieto que seria possível ouvir uma agulha caindo. Os passos do Tio Zhong ecoavam suavemente pelo corredor até ele chegar à porta, onde acendeu a lanterna, iluminando o interior sombrio da sala.

Ele olhou para o compasso em suas mãos, hesitou por um instante e, em seguida, entrou diretamente, sendo rapidamente engolido pela escuridão. Ficamos esperando do lado de fora, o tempo passava lentamente. Minhas pernas estavam dormentes e rígidas por manter a mesma posição por tanto tempo; ao tentar me mexer, percebi que todo o meu corpo estava tenso. Ninguém falava, apenas se ouvia as respirações pesadas de todos.

Li Damin estava na frente, segurando firmemente o espelho octogonal, seus dedos tão tensos que os nós estavam esbranquiçados. O Diretor Jin tossiu levemente e perguntou ao Diretor Cao, quase sussurrando, se devíamos continuar esperando ali. Dona Wang ouviu, virou-se e o encarou, aumentando o tom de voz e exclamando severamente:

— Quero ver alguém tentar sair daqui!

O grito rompeu o silêncio, quase causando um ataque cardíaco em todos. O Diretor Jin empalideceu e se apressou em acenar as mãos:

— Eu só estava comentando, não vou a lugar algum, não vou.

Li Damin riu:

— Este prédio inteiro está impregnado, cheio de almas penadas. Se quiserem ir, vão, mas sem a proteção deste espelho octogonal, não sei se conseguirão sair vivos daqui.

Suas palavras, misto de ameaça e verdade, atingiram a todos. O rosto do Diretor Cao alternava expressões, até forçar um sorriso:

— Ninguém aqui quer ir embora. Hoje estou decidido a resolver tudo de uma vez por todas. Tenho certeza de que todos estamos juntos nisso, não estão?

Ele se dirigiu aos professores presentes.

Trocaram olhares e, após um tempo, alguém respondeu:

— Onde o diretor estiver, nós estaremos.

Era evidente que o próprio Diretor Cao estava tomado de medo; se tivesse a chance de sair, não teria coragem. Todos voltaram ao silêncio, resignados à espera.

Tio Zhong não retornava da sala, nem sequer se ouvia qualquer ruído. A ansiedade crescia; havia um pressentimento ruim no ar, mas ninguém se atrevia a compartilhar. De repente, Li Damin me chamou:

— Lin Cong, venha cá.

Aproximei-me e perguntei em voz baixa o que era. Ele me entregou o espelho octogonal:

— Fique aqui e vigie. Vou entrar para ver.

Senti os pelos da nuca se arrepiarem e logo retruquei:

— Não, não. A situação ainda não está clara, é perigoso demais entrar agora. Melhor esperar o Tio Zhong sair.

Li Damin insistiu:

— Não discuta. Fique atento aqui, a vida de todos depende de você agora. Vou dar uma olhada. Se eu sofrer algum acidente junto com o Tio Zhong, tentarei dar um sinal; então, leve todos e saiam daqui imediatamente!

— Não, não — recusei firmemente.

Li Damin ficou aflito. Nesse momento, o Diretor Jin interveio:

— Acho que é uma boa ideia. Esperar aqui só faz todos ficarem ansiosos. Mandem alguém ver o que está acontecendo.

Eu e Li Damin gritamos juntos:

— Cale a boca!

O Diretor Jin encolheu-se, sem coragem de retrucar, e voltou cabisbaixo para o grupo. Dona Wang se aproximou delicadamente:

— Nenhum de vocês dois deve ir. Deixem que eu vá.

Seus olhos eram suaves, mas firmes, fixos na sala escura:

— Luner morreu ali. Sou mãe dela, acredito que ela não me faria mal. Além disso, quero ver minha filha.

Segurei-a, recusando-me a deixá-la passar. No meio da tensão, ouvimos passos vindos da sala. O Tio Zhong saiu com o rosto sombrio, movendo-se de maneira estranha: em vez de sair normalmente, dava passos para trás, curvado, como se ainda encarasse o interior da sala. Só ao alcançar o corredor ergueu o corpo, caminhando a passos largos até nós. Notei que o rosário que ele sempre manuseava havia sumido.

— Tio Zhong, como está lá dentro? E seu rosário...?

Ele se aproximou, o rosto carregado de preocupação:

— Conversei com a alma penada. Ela prometeu se manifestar, mas exigiu meu rosário em troca. Aquele rosário foi difícil de conseguir, abençoado por um monge, servia para amenizar o carma e acalmar espíritos. Que negócio injusto esse… — Olhou para mim. — Lin Cong, vou colocar essa dívida na sua conta.

Minha boca ficou amarga; não esperava por isso. Agora, já devia quase dez mil para o Tio Zhong. Dona Wang se apressou:

— Deixe que eu pago.

Tio Zhong balançou a mão:

— Não, isso tem dono, cada um responde pelo que deve, não tem nada a ver com você. É ele quem paga.

Após uma pausa, continuou:

— Quando a alma de Chen Lun aparecer para a negociação, vou precisar de um médium.

Todos se entreolharam, perguntando o que era um médium.

Tio Zhong explicou:

— A alma penada não tem corpo; como vai se comunicar? Precisa de alguém para que Chen Lun possa possuir temporariamente, usando o corpo para se manifestar, o que popularmente chamam de ser tomado pelo espírito.

Um dos professores se intrometeu:

— Eu sei disso! Há dois anos, fui a um funeral no sul e vi um ritual chamado “consulta ao arroz”, muito impressionante; o espírito do falecido voltava e conversava com a família através do sacerdote. Assustador.

Com essa descrição, todos se retraíram.

Tio Zhong olhou ao redor:

— Preciso de alguém para isso. Quem se oferece?

O Diretor Jin, encolhido ao fundo, disse:

— Somos pessoas comuns, não temos poderes. Melhor vocês, que entendem dessas coisas.

Dona Wang hesitou e sugeriu:

— Se quiserem, eu me ofereço. Confio que minha filha não me faria mal.

Tio Zhong recusou imediatamente:

— Não pode! Espíritos não podem possuir parentes diretos.

Cerrei os dentes:

— Então, deixem que eu faça.

Li Damin me segurou:

— Deixa comigo. Desde que tudo isso começou, só tenho seguido você, sem ajudar de verdade. Agora é minha vez.

Meus olhos se encheram de lágrimas:

— Li, você é de uma nobreza incrível.

Ele riu:

— Não exagere. Para falar a verdade, sempre me interessei por ocultismo e práticas espirituais. Nunca tive oportunidade, então quero aproveitar agora. Tio Zhong, é perigoso?

Tio Zhong respondeu:

— Como não seria? Isso é ser possuído por um espírito! Até tomar água pode engasgar; imagine isso.

Li Damin hesitou por um momento, engoliu em seco e perguntou quais os perigos.

Tio Zhong balançou a cabeça, sério, sem expressão:

— Prepare-se psicologicamente, é o suficiente.

Li Damin ficou em silêncio. Tio Zhong tirou da bolsa um incenso longo, uma vela comprida e um espelho do tamanho da palma da mão, entregando também um isqueiro a Li Damin. Explicou que ele deveria entrar sozinho, acender a vela no canto nordeste da sala e pendurar o espelho na parede — havia um prego ali, já verificado. Depois, sentar-se de pernas cruzadas no chão, acender o incenso e segurá-lo, fechar os olhos e repetir o nome de Chen Lun. O resto aconteceria naturalmente.

Li Damin respirou fundo, pegou os objetos e caminhou para a sala. Todos os olhares estavam sobre ele; seus passos eram lentos, mas firmes. Antes de entrar, olhou para nós uma última vez e adentrou o recinto.

Cada minuto era um suplício. A pressão psicológica de esperar do lado de fora não era menor do que para quem estava lá dentro; meu coração quase parava, tomado de medo, nervosismo e ansiedade, todo o corpo exalando terror.

Devem ter passado cinco ou seis minutos, parecendo uma eternidade, até que uma fraca luz surgiu na sala escura — uma chama se acendeu; Li Damin devia ter acendido a vela. Imaginei seus movimentos lá dentro: pendurar o espelho, sentar-se, acender o incenso.

Dez minutos se passaram em absoluto silêncio; nem uma tosse se ouvia. De repente, passos vindos do interior, uma sombra projetou-se no corredor, alguém saía da sala!

Eu, agora segurando o espelho octogonal, apertava o aro com tanta força que meu braço tremia. Encarei a sombra, que crescia, ficando cada vez mais escura, até que finalmente saiu.

Era Li Damin. Ele apareceu na porta, de frente para nós, cabeça baixa, imóvel. O luar da janela o iluminava, envolvendo-o numa aura indescritível. A sensação era estranha: era Li Damin, mas parecia não ser ele. Como se fosse um irmão gêmeo, um estranho fingindo ser alguém conhecido — tudo igual, mas o instinto dizia que havia algo errado, sem saber explicar o quê.

Li Damin ergueu a cabeça lentamente e sorriu para nós.

Seus olhos semicerrados, os cantos puxados para as têmporas, mostrando o branco quase todo, as pupilas quase invisíveis. A boca aberta num sorriso estranho, mais largo do que o normal, quase rasgando as bochechas, como se fosse possível arrancar os próprios lábios. Era um sorriso impossível de descrever, antinatural, como se os músculos do rosto fossem forçados por uma corrente elétrica, criando uma expressão falsa. Não sei por quê, mas ao ver aquele sorriso, tive certeza de que era uma mulher sorrindo. Não por traços femininos, mas por puro instinto.

Tio Zhong limpou a garganta e perguntou em voz alta:

— Quem está aí?

Li Damin levantou o rosto, fitou-nos com aqueles olhos quase totalmente brancos e respondeu, em voz baixa e rouca, algo ininteligível, como “kèkèkè, bóbóbó”. Não eram palavras soltas, mas uma língua desconhecida, impossível de compreender.