Capítulo Sessenta e Oito: Harmônica

O Código do Além O programador audacioso 3214 palavras 2026-02-09 14:10:20

O primeiro grupo partiu, e duas horas depois foi a vez do segundo. Uma hora após, o terceiro grupo iniciou sua jornada. A intenção desse arranjo era clara: temiam que, diante do desconhecido, todos fossem derrotados de uma só vez.

Chen Jian queria ir junto com seu pai, mas o professor Chen o repreendeu e liderou o primeiro grupo adentrando na caverna. Os demais esperavam ali, e o tempo parecia voar; logo chegou o momento de partida do segundo grupo. Ao observar todos entrando naquele abismo escuro, fui tomado por uma inexplicável tensão e ansiedade.

Os minutos se arrastavam e eu não conseguia ficar parado. Sabia que ali não havia ameaça real para mim, mas ainda assim, sentia-me nervoso, andando de um lado para o outro.

Li Damin sentou-se com as pernas cruzadas, as mãos sobre os joelhos, olhos fechados, meditando. Por um instante, senti admiração por ele; sua capacidade de autocontrole e disciplina era notável. Certamente ele também estava ansioso, enfrentando perigos maiores que os meus, mas sua serenidade era digna de respeito.

Mais surpreendente ainda era Wang Yuantong. Entre os dez presentes, ele era discreto, quase imperceptível, só agora, ao dividir o grupo, percebi sua peculiaridade. Era o único de cabeça raspada, reclinado contra uma árvore, entretido com um pequeno livreto nas mãos.

Chen Jian, por sua vez, estava sentado no chão, jogando pedras nas folhas, tentando matar o tempo. No fim das contas, o mais inquieto era eu.

Nosso grupo, o último, não tinha um líder oficial, então nomearam um capitão temporário – Li Damin, considerado o mais apto entre nós.

Depois de algum tempo, Wang Yuantong fechou o livro e disse: “Capitão, o tempo chegou. Partimos?”

Li Damin abriu os olhos, espreguiçou-se e pediu a todos que revisassem seus equipamentos e arrumassem as mochilas. Vestido com seu casaco de montanhista, foi à frente, evocando a atmosfera de ventos frios e águas profundas, enquanto os demais o seguiam.

Ao chegarmos à entrada do abismo, um vento perverso soprou, quase dispersando minha consciência sem corpo. Que lugar estranho e sinistro era aquele!

Não havia palavras para descrever o que via; chamar de “maligno” era pouco, de “estranho” impreciso. A escuridão e o medo eram vastos demais, como um mar de pesadelos capaz de engolir qualquer um.

Li Damin foi o primeiro a entrar, e sua silhueta desapareceu nas trevas; a luz forte da lanterna parecia um vaga-lume no escuro. Chen Jian foi o segundo, e Wang Yuantong, cantarolando, o terceiro. Eu, sem corpo físico, não podia carregar lanterna; no mundo do limiar, não temia céu nem terra, só temia uma coisa: perder-me na escuridão.

Para esse problema, não havia solução. Se o perigo surgisse, eu poderia sair num instante, mas ao retornar, continuaria perdido nas trevas, inutilmente. E não podia tocar nenhuma ferramenta de iluminação.

Para não me perder, só me restava seguir de perto, guiando-me pela luz das lanternas, sem me distrair. Se perdesse o grupo, por mais habilidades que tivesse, não conseguiria reencontrá-los.

Felizmente, a caverna não absorvia toda a luz; ela cintilava pelas sombras, permitindo alguma visibilidade.

Li Damin avançava devagar, marcando cada curva na parede. Seus sinais eram tão profissionais quanto os de um veterano explorador; ele realmente aproveitou o último ano, aprendendo muito.

Enquanto marcava, os colegas se reuniam ao redor, observando. Havia outros sinais feitos pelos grupos anteriores na parede, evidenciando que os dez escolhidos eram realmente de elite; cada etapa era rigorosamente seguida, tudo muito organizado.

Não andamos muito antes de perceber o padrão da caverna: muitos desvios. A cada poucas dezenas de passos, uma curva surgia. Pela minha experiência, não era tão ruim: não havia bifurcações, todos os caminhos eram unidirecionais, então era possível sair.

Após mais de uma hora de caminhada, Li Damin sugeriu uma pausa. Sentamos, bebendo um pouco de água e comendo biscoitos compactos para recuperar energia.

— E então? — sentei ao lado dele, perguntando.

Li Damin balançou a cabeça, murmurando:

— Não tenho certeza, mas sei que a verdadeira prova ainda não começou.

Mal terminou a frase, Wang Yuantong perguntou, na escuridão:

— Capitão, com quem você está falando?

— Nada, só falando comigo mesmo — Li Damin olhou para mim, balançando a cabeça, sinalizando para não dizer mais nada.

O silêncio era absoluto, exceto pelo som ofegante de alguns. Qualquer palavra dita ali era ouvida por todos.

Chen Jian comentou:

— Damin anda estranho esses dias, sempre falando sozinho.

Li Damin desviou o assunto:

— Certo, hora de seguir. Não sabemos como estão os dois grupos à frente, se encontraram algo.

Levantou-se e continuou, seguido por Chen Jian e Wang Yuantong.

Dessa vez, aprendi a lição; não falaria com Li Damin a menos que fosse realmente necessário. Ele sabia que eu estava ali, e entre nós já havia uma espécie de entendimento silencioso.

Enquanto caminhávamos, Li Damin parou, olhou o relógio:

— Esse ritmo não serve, só percorremos três quilômetros.

— Não é culpa nossa — disse Wang Yuantong. — Este lugar é muito escuro, o esforço é três ou quatro vezes maior que o normal.

— Faz sentido, mas somos o grupo de elite. Senão, por que nos escolheram para o reconhecimento? — Li Damin afirmou. — Agora vou acelerar o passo. Chen Jian, tudo certo para você?

— Tudo sim, capitão! — Chen Jian respondeu animado.

Wang Yuantong repreendeu:

— Chen Jian, estamos em serviço, em missão. Li Damin é o capitão; nada de chamar de irmão, é capitão.

— Sim, capitão! — Chen Jian respondeu alto, no escuro.

Li Damin riu, iluminando o caminho com a lanterna. O teto da caverna, embora não tão majestoso quanto a entrada, parecia grande o suficiente para estacionar cinco ou seis caminhões lado a lado.

O feixe de luz revelou uma área peculiar, e Li Damin exclamou:

— Viram aquilo?

Vi algo estranho no chão, não muito grande, parecido com um objeto pessoal.

Corremos até lá; Li Damin ajoelhou-se, iluminando com a lanterna para identificar o que era.

Era uma harmônica, de modelo antigo, coberta de ferrugem, presa entre duas pedras.

Li Damin e Wang Yuantong examinaram.

— Capitão, talvez alguém dos grupos anteriores tenha perdido — sugeriu Wang Yuantong.

Li Damin pensou, pegou a harmônica, soprou, levantando uma nuvem de poeira.

— Parece abandonada há muito tempo — ele disse. — Não parece coisa dos grupos anteriores.

Chen Jian perguntou, de repente:

— Posso ver?

Li Damin entregou-lhe a harmônica. Chen Jian examinou repetidamente, com expressão estranha. Wang Yuantong curioso, perguntou:

— Você conhece?

Os lábios de Chen Jian tremiam:

— É... é minha harmônica.

Mal terminou a frase, um som de tique-taque ecoou das profundezas da caverna.

Li Damin, como se lembrasse de algo, levantou abruptamente, iluminando com a lanterna. Todos vimos, pendurado na parede oposta, um enorme relógio. Seus ponteiros se moviam de modo estranho, girando ao contrário.

Gritei:

— O desafio começou!

Li Damin murmurou, atônito:

— A harmônica era a armadilha.

Chen Jian estava apavorado:

— Capitão, Yuantong, por que há um relógio aqui?

Li Damin tentou tranquilizá-lo:

— Não se assuste, essa caverna é misteriosa; qualquer coisa pode acontecer.

Talvez apenas nós dois soubéssemos a razão daquela estranheza.

Falei:

— Damin, agora não é bom conversar comigo. Apenas acene se concordar. Temos só vinte e quatro horas.

Li Damin assentiu.

— Para superar o desafio, a única pista é a harmônica — continuei.

Li Damin concordou, sinalizando para eu me calar um instante. Perguntou a Chen Jian:

— Essa harmônica é mesmo sua?

Chen Jian, pálido, assustado, respondeu com dificuldade:

— É minha, sim! — disse, palavra por palavra. — Foi o presente que meu pai me deu no meu aniversário de quinze anos.

Wang Yuantong interveio:

— Chen Jian, você não tem só quatorze? O aniversário de quinze ainda não chegou, como seu pai lhe deu o presente?

Chen Jian parou, perplexo:

— É verdade, só tenho quatorze. Por que falei quinze? Parecia que a frase saiu sem pensar.

— Não importa a idade — Li Damin disse. — O importante é confirmar se foi seu pai quem lhe deu.

Chen Jian, aterrorizado, deixou a harmônica cair. Wang Yuantong pegou, soprou, e brincou:

— O que houve? Viu um fantasma?

— Meu pai ainda não me deu essa harmônica — Chen Jian disse, assustado. — Por que ela me parece tão familiar? Como se estivesse comigo há muito tempo.

Antes que Li Damin respondesse, Wang Yuantong riu:

— Talvez seja algo do futuro. Você recebe a harmônica aos quinze, ela te acompanha por muitos anos, e agora viajou no tempo, voltando para quando você ainda tem quatorze.

Li Damin fixou o olhar nele.

Sussurrei:

— Damin, algo não está certo. Wang Yuantong é estranho.

Li Damin assentiu, mantendo o olhar sobre Wang Yuantong.

As palavras de Wang Yuantong continham termos que não pertenciam àquela época, como “futuro” e “viagem no tempo”. Tudo muito moderno.