Capítulo Sessenta e Dois — Me desculpe
Chen Jian disse: “A pessoa que vi... era Zhao Zhixiang.”
Wang Li explodiu em xingamentos: “Eu já não suportava aquele almofadinha, imaginei logo que fosse ele! Esse sujeito veio roubar minha mulher, está mesmo pedindo para morrer.”
Chen Jian apressou-se a explicar: “Foi por acaso que encontrei, não posso garantir se era mesmo ele... Não se precipite.”
Wang Li olhou para ele, dizendo: “Velho Chen, obrigado. Dentre todos aqui, é você em quem mais confio. Pronto, não se meta mais nisso. Seja lá o que acontecer, não vou envolver você, conheço as regras da vida.”
“Então, vou indo.” Chen Jian olhou para os dois lados do corredor e, apressado, dirigiu-se para a escada onde estávamos.
As mãos de Chen Meiyu tremiam: “Papai...” Vimos Chen Jian se aproximar cada vez mais, até que, de repente, sumiu diante dos nossos olhos, como se tivesse entrado na escuridão.
Li Damin colocou a mão no ombro de Chen Meiyu: “Tudo isso são ilusões, acontecimentos do passado.”
“Não!” Chen Meiyu afastou a mão dele e desatou a chorar. “Meu pai não é assim, ele é o melhor homem do mundo, o melhor de todos. Buá, buá...”
Eu e Li Damin não sabíamos como consolar. Ver o próprio pai com segredos tão pesados, nenhum filho suportaria facilmente.
A visão no corredor mudou novamente. Chen Jian reapareceu, mas, desta vez, conversava com Lin Xiaohui, não com Wang Li. Na penumbra, disse à mulher: “O que pensa sobre o caso do Wang Li?”
Lin Xiaohui respondeu com suavidade: “Não se preocupe, não importa o que ele faça comigo, jamais direi seu nome.”
“Não é isso o que me preocupa,” disse Chen Jian. “Ficar nessa incerteza não é solução. Pensei bem, é melhor você confessar.”
“O quê?!” Lin Xiaohui exclamou, emocionada. “Você... você quer... com Wang Li...”
“Não,” cortou Chen Jian. “Não é para confessar sobre mim. Diga que foi Zhao Zhixiang.”
“Por quê?” Lin Xiaohui ficou surpresa. “O que Zhao tem a ver com isso?”
“Você está sendo ingênua,” aconselhou Chen Jian. “Zhao Zhixiang é jovem, tem sua idade, Wang Li acreditaria facilmente. Além disso, Zhao gosta de você, certo? Não chega a ser uma mentira. O mais importante é que Zhao tem mais influência, Wang Li pensaria duas vezes antes de mexer com ele. O que acha?”
“Eu... eu preciso pensar,” hesitou Lin Xiaohui.
“Xiaohui, você me ama?” Chen Jian lançou sua cartada final.
“Amo,” respondeu ela, cabisbaixa, quase sussurrando. “Mas isso não tem nada a ver com Zhao.”
“É como se proteger sob uma grande árvore. Zhao é poderoso, Wang Li não ousaria tocar nele. Caso contrário, essa história nunca terá fim. Você conhece o temperamento de Wang Li, totalmente descontrolado. Se ele perder a cabeça, ninguém vai escapar ileso.”
“Deixe-me pensar,” murmurou Lin Xiaohui.
Li Damin suspirou e murmurou: “Chen Jian é mesmo desprezível.”
Chen Meiyu já não tinha forças para dizer nada. Com tantas provas diante dela, não podia fingir que não via o que o próprio pai tinha feito.
Aproximei-me do ouvido de Li Damin e sussurrei: “Salvar alguém assim, por quinhentos mil, é até barato demais.”
Li Damin respondeu: “O caráter dele não é dos melhores, mas não chegou ao fundo do poço. Ele não matou nem incendiou nada.”
Enquanto conversávamos, a visão no corredor sumiu novamente, e ouvimos vozes vindas da sala no primeiro andar. Cenas do passado eram encenadas diante de nós, de forma tão realista que nos tornamos testemunhas involuntárias. Descemos ao térreo, certos de que os outros dois também pressentiam que o momento decisivo estava por vir, e que tudo seria revelado.
No primeiro andar, seis pessoas estavam sentadas ao redor de uma mesa redonda. No centro, um fondue fervia, cercado de carne bovina, cordeiro e variados legumes. Bebidas servidas à frente de cada um, mas ninguém tocava; o clima era de extrema tensão.
Wang Li brincava com o copo, levantou-o e disse: “Vou abrir a rodada.”
Os outros cinco ergueram os copos lentamente, exceto um jovem bonito. Wang Li lançou-lhe um olhar enviesado: “E aí, Zhao? Não vai brindar?”
Era Zhao Zhixiang.
Com expressão sombria, Zhao respondeu: “Parece mais um banquete de traição.”
“Deixa de drama, só você para fazer pose.” Wang Li levantou-se, pôs um pé na cadeira, virou o copo de uma vez e mostrou o fundo vazio a todos.
Chen Jian foi o segundo a beber, os demais seguiram, menos Zhao Zhixiang.
Com o rosto cada vez mais rubro, Wang Li disse: “Já lhes disse, chamei todos aqui nesse fim de mundo para resolver um caso! Descobrir quem está tendo um caso com minha namorada, Lin Xiaohui.”
Lin Xiaohui ficou vermelha, desesperada: “Pare com isso!”
“Sua vadia, estou te dando chance!” Wang Li desferiu um tapa estrondoso no rosto dela. Lin Xiaohui permaneceu sentada, cobrindo o rosto com as mãos, as lágrimas caindo sem parar.
Chen Jian, diante dela, não ousava intervir; encolhia-se, quase enterrando o rosto no colo, sem sequer respirar fundo.
O silêncio era absoluto, o ambiente sombrio e opressivo, qualquer ruído seria ouvido. Só se escutava o borbulhar do fondue.
Wang Li serviu-se de mais três copos, seu rosto era um pano vermelho, os olhos injetados de sangue. Falou pausadamente: “Finalmente solucionei o caso! Sou homem de palavra, gosto de resolver as coisas às claras, então vamos falar tudo nesta refeição.”
Ninguém respondeu.
Wang Li olhou em volta, limpou a boca: “Zhao Zhixiang, tem algo a dizer?”
Zhao Zhixiang parecia confuso: “O quê?”
“Está interessado na minha mulher?” Wang Li riu sarcástico.
Zhao Zhixiang permaneceu calado.
“Você não é homem?” Wang Li bateu na mesa, fazendo os pratos saltarem. “Diga logo!”
“Sim, gosto de Xiaohui,” respondeu Zhao Zhixiang. “Não suporto ver você maltratando-a, sinto pena dela também.”
“Seu desgraçado!” Wang Li pegou um prato de verduras e lançou nele. “Quem te pediu pena? Ela é minha mulher! Quem você pensa que é?”
Zhao Zhixiang, irado, levantou-se: “Ela não é sua esposa, só estão namorando. E mesmo que fosse, você não tem direito de maltratar uma mulher! Não aceito isso!”
Os olhos de Wang Li arregalaram-se como tambores: “Ótimo, admite então. Hoje vou mostrar quem manda aqui.” Agarrou o cabelo de Lin Xiaohui, puxando com força. Ela chorava de dor, segurando as mãos dele, mas não tinha força suficiente, quase caindo da cadeira.
Os outros tentaram intervir. Chen Jian, encolhido, nem ousava tentar.
Zhao Zhixiang gritou revoltado: “Wang Li, que tipo de homem é você? Odeio quem bate em mulher!”
“Pois agora vai ver o que é ser homem!” Wang Li, de súbito, agarrou a panela de fondue e a virou sobre Zhao Zhixiang, que foi atingido pela sopa fervente e pelo recipiente de metal.
Vimos claramente o azeite picante a escaldar os olhos de Zhao Zhixiang, que soltou um grito lancinante e caiu no chão, imóvel.
Lin Xiaohui gritou, tentou puxar Wang Li, mas ele, fora de si, mais uma vez pegou a panela e despejou todo o conteúdo sobre ela, sem se importar com o calor.
Do cabelo de Lin Xiaohui saía fumaça branca; sua blusa de lã absorvia o líquido, o calor penetrava fundo, sem escapar. Ela gritou e caiu no chão, contorcendo-se como camarão cozido.
Tudo aconteceu em menos de um minuto. Os outros ficaram paralisados. A mesa estava um caos; o tempo parecia congelado, todos imóveis como numa pintura petrificada.
Li Damin aproximou-se, estendeu lentamente o dedo em direção à sala. Assim que ultrapassou a linha, era como se estourasse uma bolha invisível: tudo se desfez num instante.
A sala ficou vazia, o pó assentado, tudo igual à cena que encontramos ao entrar. No chão, a panela caída, a mesma que Chen Meiyu havia derrubado para impedir que o pai comesse. No centro, carvões ainda ardiam, as chamas oscilando entre claro e escuro.
Tudo parecia um sonho efêmero.
“Papai!” gritou Chen Meiyu de repente. Vimos Chen Jian cambalear vindo do escuro, caindo de cabeça sobre o monte de carvão.
Chen Meiyu gritou, dilacerada: “Pai!”
Li Damin foi rápido, correu, mas estava longe demais. O rosto de Chen Jian afundou no carvão, e ele berrou de dor: “Xiaohui, Xiaohui, me perdoa! Por favor, me perdoa!”
Corremos até lá, mas não pude ajudar; Li Damin abaixou-se e puxou Chen Jian dos carvões. Seu rosto estava completamente negro, os traços desfigurados, assustador.
Li Damin gritou para Chen Meiyu: “Traga água!”
Chen Meiyu, assustada, repetia: “Água... onde?”
Eu disse apressado: “Use a panela, vá buscar neve lá fora.”
Ela finalmente reagiu, abriu a porta, o vento e a neve entraram, enchendo o ambiente de flocos brancos. Rapidamente, trouxe meia bacia de neve, fechou a porta e correu até o pai, chorando: “Pai!”
Li Damin pegou a panela, despejou toda a neve sobre o rosto de Chen Jian. Ao contato do quente com o frio, vapor subiu, e Chen Jian começou a tremer, murmurando, fraco: “Xiaohui, fui eu quem errou, eu te devo, me perdoa, por favor, me perdoa...”