Capítulo Cinquenta e Oito: O Armário

O Código do Além O programador audacioso 3157 palavras 2026-02-09 14:08:26

— E depois? — perguntei. — O que aconteceu?

Chen Meiyu pensou com atenção: — Lembro que, quando papai voltou para casa, estava com o rosto fechado, conversou muito tempo com mamãe no quarto, mas o que foi exatamente, até hoje não sei.

Li Damin perguntou: — Tenta lembrar de mais algum detalhe?

Chen Meiyu sorriu amargamente: — Já faz tantos anos, realmente não sei.

— Naquela viagem para Heilongjiang, os amigos que acompanharam seu pai eram todos homens? Não havia nenhuma mulher? — perguntei de repente.

Eles dois me olharam surpresos. Embora não pudessem ver meu corpo, o olhar dos dois era de espanto.

Li Damin riu sem som: — Lin Cong, sua cabeça é mesmo bem prática, hahaha.

— Ah, lembrei agora — Chen Meiyu bateu palmas. — Quando papai voltou, trouxe algumas fotos. Um dia vi ele queimando todas elas... Mas lembro vagamente, eram seis pessoas ao todo, três homens e três mulheres.

Li Damin gargalhou. Perguntei do que ele estava rindo, mas ele ficou com uma expressão misteriosa e não respondeu. Nós já éramos homens feitos e, pelo jeito dele, percebi logo que não devia estar pensando em nada bom. Pensando bem, não se pode garantir nada: montanha coberta de neve, cabana de férias, alguns homens e mulheres reunidos... Dizer que não aconteceu nada, nem criança acredita.

Enquanto eu refletia, Li Damin falou: — Acho que estamos seguindo um caminho errado.

— Por quê? — perguntei.

Li Damin respondeu: — Devíamos pensar no contexto. Se colocássemos no lugar deles, se fôssemos um dos amigos que vieram com o tio Chen, seis pessoas numa cabana de madeira, o que poderia ter acontecido? Vamos simular um cenário.

Chen Meiyu estava com um ar aflito. Mesmo sendo uma servidora do submundo, ali estava perdida. Lembrei-me do tio Zhong, de Wang Yue e Ma Danlong. Apesar de também serem servidores do submundo, todos tinham um respeito profundo pelo reino dos mortos e pelo limiar entre os mundos. Suas habilidades não mudariam nada ali; só restava respeitar as regras do local.

Chen Meiyu, naquele limiar, estava como nós: só podia desvendar os enigmas um a um, superando cada obstáculo.

Ela sentou-se na cama de madeira, abraçando os joelhos, perdida em pensamentos. Por ora, não havia como contar com ela. Virei-me para Li Damin:

— E como você quer simular?

Li Damin respondeu: — Seis pessoas, três homens e três mulheres. O mais provável é que os homens tenham ficado no andar de baixo e as mulheres aqui em cima, neste quarto.

— Interessante, e depois? — perguntei, curioso.

Li Damin continuou: — Suponhamos, só supondo, que entre eles houvesse um casal. O casal não deveria ficar junto, quebrando a divisão entre homens e mulheres?

Balancei a cabeça: — Acho que não. Mesmo se houvesse casal, será que não aguentariam alguns dias separados? Dormir com os amigos, homens e mulheres em quartos diferentes, não é nada demais.

— É, pode ser — disse Li Damin. — Mas... — Ele não terminou a frase, pois seu olhar se fixou em algo.

Segui seu olhar. Ele encarava o grande guarda-roupa de madeira encostado na parede, de portas fechadas.

— Tem algo errado com o armário? — perguntei.

Li Damin respondeu: — De repente, tive um pensamento bem sórdido, nem sei se devo dizer.

— Fala logo, você mesmo é sórdido — sorri.

Li Damin, porém, falou sério: — E se, naquela noite, enquanto as garotas dormiam, algum homem estivesse escondido no armário?

— Puxa, igual ao vizinho intrometido! — resmunguei.

Enquanto falávamos, Chen Meiyu desceu da cama, foi até o armário e puxou as portas com força. Lá dentro, não estava vazio, mas cheio de roupas penduradas.

Li Damin se aproximou depressa e eu também.

As roupas do armário não eram comuns, mas todas femininas, algumas com rendas, bem sensuais. O armário inteiro estava cheio delas.

— Acho que a pista do enigma está aqui — disse Li Damin.

Ele começou a tirar as roupas uma a uma, sacudindo e colocando no chão. Logo o guarda-roupa estava vazio, mas nada digno de nota apareceu nesse processo.

— Se houver mesmo alguma pista — comentei —, provavelmente só o tio Chen saberia. Nós não temos como saber em qual roupa está o segredo.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Li Damin. — Por que só o tio Chen saberia se é algo das roupas? Ele...

— Chega, não continue! — Chen Meiyu parecia uma gatinha brava, arfando, o peito subindo e descendo. — Como vocês podem suspeitar assim do meu pai?!

Dei uma risada: — Nem falamos nada demais, não precisa ser tão sensível.

Chen Meiyu lançou um olhar furioso para mim e depois para Li Damin, os olhos cheios de lágrimas.

— Meu pai jamais faria algo assim! Não aceito que vocês pensem tão mal dele!

Li Damin coçou a cabeça: — Não pensamos nada demais, só estamos levantando hipóteses, nada foi confirmado.

— Dois idiotas, nojentos! — bufou Chen Meiyu, muito diferente da moça delicada que costumava ser quando desenhava.

— Senhorita, pode falar o que quiser, mas sem ofensas pessoais — avisei.

Chen Meiyu voltou para a cama, ainda aborrecida. Era óbvio que tinha uma ligação muito forte com o pai, que para ela era um herói, acima de qualquer suspeita.

Li Damin sorriu tristemente, agachou-se e voltou a examinar cuidadosamente as roupas no chão.

Chen Meiyu resmungou: — Li, como me enganei com você! Não achei que pensasse coisas tão baixas.

— O que eu fiz agora? — respondeu Li Damin. — Só porque não lavei o pé ontem à noite, nem por isso merece me tratar assim!

O rosto de Chen Meiyu estava fechado, mas, ao ouvir isso, não conteve uma risada e enterrou o rosto nos joelhos.

Aproveitei para me agachar ao lado de Li Damin e murmurei:

— Não achei que você fosse tão bom de papo com as mulheres.

Li Damin sorriu e respondeu baixinho:

— Por mais elegante que seja, continua sendo mulher, não é? Mas vamos voltar ao foco, precisamos resolver logo esse enigma. O tempo está acabando.

— O que você procura, afinal? — perguntei.

Li Damin disse: — Também não sei. Só sinto que essas roupas aqui não fazem sentido.

— Isso é verdade. No limiar entre os mundos, cada objeto tem um propósito. Nada está aqui por acaso — concordei.

Li Damin baixou ainda mais a voz:

— Você acha que Chen Jian, aquele velhote, poderia ser do tipo que coleciona roupas femininas?

— Quem sabe? — respondi. — Só a Chen Meiyu idolatra tanto o pai. Ninguém sabe como ele realmente era.

— Vê se acha algum compartimento secreto no armário — sugeriu Li Damin.

Entrei no armário. Como não tinha sensações físicas, só pude examinar com os olhos, mas não encontrei nenhum mecanismo. Tentei empurrar as paredes do armário com as mãos. Havia resistência.

Minha condição era estranha: não tinha corpo, mas não conseguia atravessar certos objetos grandes, como as árvores da floresta, as paredes da cabana e as paredes do armário. Se nada me impedisse, eu nem estaria ali, já teria afundado no chão. O piso e o solo funcionavam como barreiras para mim.

Ao pressionar a parede do armário, percebi algo estranho. Era fina, com uma sensação diferente. Passei as mãos invisíveis por outras áreas, sentindo que em alguns pontos era mais fina e em outros, mais grossa. O toque era diferente.

— Damin, tem algo estranho aqui. Vem ver.

Li Damin, ainda examinando as roupas íntimas, logo se levantou e entrou no armário comigo, perguntando o que era.

— Olha a parede de trás, está estranha — expliquei.

Li Damin bateu nela com os dedos, fazendo sons surdos. Contei o que senti e ele examinou os pontos, confirmando:

— Realmente, não é igual.

Chamou Chen Meiyu para ver também. Ela enxugou as lágrimas, ainda irritada, mas entendeu a gravidade do momento e veio examinar com atenção.

Li Damin disse: — Lin Cong, sua descoberta é importante. Acho que o segredo não está nas roupas ou no armário.

— Então, onde? — perguntei.

Li Damin apontou para o armário:

— Acho que está atrás dele.

Saímos do armário e, em consenso, decidimos afastá-lo para examinar o que havia atrás. Era um armário alto, com mais de dois metros, bem pesado. Eu não podia ajudar, Chen Meiyu também não tinha força suficiente, restando só Li Damin.

Ele cuspiu nas palmas das mãos, posicionou-se e se preparou para empurrar.

Perguntei se ele daria conta.

Li Damin sorriu: — Se atrás há mesmo um segredo, o tio Chen já entrou. Se ele conseguiu mover, por que eu não conseguiria? Fiquem de olho.

Com um esforço, empurrou o móvel. Para nossa surpresa, o armário parecia pesado, mas era leve. Deslizou pelo chão sem fazer barulho.

— Tem uma porta — exclamou Li Damin, aumentando a distância do armário e revelando cada vez mais da parede.

— Agora pensei em algo — comentei. — Mesmo que o tio Chen tenha entrado pelo armário, como ele conseguiu recolocá-lo no lugar depois?