Capítulo Sessenta e Três: Retribuição
Nós três vigiávamos Chen Jian, que, exausto, adormeceu pesadamente. Do lado de fora, o vento e a neve haviam cessado. Avisei Li Damin, que foi até a porta do chalé e a abriu com força. Não só o nevoeiro se dissipara, como também a paisagem tinha mudado por completo.
Era, de repente, uma manhã de primavera, com as montanhas floridas e perfumadas. Uma brisa suave trouxe até nós o aroma das flores do campo.
Trocamos olhares, e Chen Meiyu dirigiu-se à porta, suspirando levemente: “Enfim, superamos esta provação.”
Perguntei qual teria sido, afinal, o verdadeiro desafio daquela etapa.
Li Damin respondeu: “Não importa qual tenha sido. O importante é que conseguimos passar. Agora, precisamos descansar.”
Chen Meiyu abraçou o pai com força e disse-nos: “Vocês dois podem sair primeiro. Lin Cong, basta desejar e você deixará este mundo intermediário. Damin, eu mesma o enviarei de volta.”
Li Damin retrucou: “Tanto faz, posso muito bem ficar aqui com você.”
A moça balançou a cabeça: “Afinal, você é um mortal. Ficar fora do corpo por tanto tempo não lhe faz bem. Seja sensato, volte primeiro. Agora que encontrei meu pai, marquei-o, e da próxima vez poderei localizá-lo diretamente.”
Diante da decisão dela, Li Damin não insistiu. Concentrei-me, e, ao abrir os olhos lentamente, vi que ainda estava sentado na sala da mansão da família Chen. A luz da manhã espreitava pela janela, e o relógio na parede marcava cinco horas.
Uma brisa fresca entrou pela porta. Espreguicei-me e levantei-me com calma do chão.
No mundo intermediário, estivemos por vinte e quatro horas, mas, na realidade, haviam-se passado apenas algumas poucas horas.
Ao recordar os acontecimentos daquele lugar, tudo parecia um sonho distante.
Sentei-me para descansar. Embora não tivesse deixado o corpo, só a consciência, sentia-me exausto.
Peguei um copo d’água e, ao beber, vi Li Damin mexer-se. Ele também abriu os olhos.
Trocamos um olhar e sorrimos, ambos cansados.
Li Damin, que havia de fato deixado o corpo, estava pálido como cera, muito mais esgotado do que eu. Tentou levantar-se, mas cambaleou. “Lin, me dá uma mão.”
Apoiei-o, e ele, com as pernas trôpegas, mal conseguia andar.
Acomodando-o numa cadeira, Li Damin pegou a xícara de chá e bebeu a água em pequenos goles, tão cansado que não conseguia dizer uma só palavra.
Ficamos ali, em silêncio, por alguns minutos, até que Li Damin soltou um suspiro e, exausto, disse: “Se eu continuar fazendo essas viagens, meu corpo não aguentará. O desgaste é bem maior do que no mundo real.”
“Cansativo, não?” comentei.
“Muito,” respondeu ele, pensativo. “Mas cada vez fico mais curioso sobre aquele lugar. Se tiver oportunidade, quero mesmo encontrar um mestre e aprender as artes do Caminho.”
Brinquei: “Quer que eu te empreste o bracelete de comunicação espiritual desta vez?”
“Deixa pra lá.” Ele fez um gesto de recusa. “Percebi que esse seu artefato não passa de um truque, serve mais de atalho. Quero aprender algo verdadeiro, dominar aquele mundo de fato!”
Zombei: “Que pretensão a sua! Nem domina o mundo dos vivos e quer controlar o dos mortos?”
“Tentar não custa nada,” respondeu. “Sabe o que eu estava pensando? Que talvez seja possível trazer algo de lá para cá.”
Arregalei os olhos. Sua imaginação era realmente sem limites.
“Você enlouqueceu?” perguntei.
Li Damin continuou: “Afinal, aquele mundo intermediário existe de verdade, ou é apenas fruto da nossa imaginação?”
“Pelo que vimos, parece ser um espaço real,” respondi.
“Exato. Se existe, as coisas lá são objetivas. Por que não poderíamos trazer algo de lá para fora?”
“Faz sentido,” franzi o cenho, “mas, nesse caso, também poderíamos levar coisas do mundo dos vivos para o dos mortos?”
“Claro, é esse o raciocínio!” disse ele, animado.
“Primeiro, não sabemos quais são as regras que regem esses dois mundos,” expliquei. “No mundo dos vivos, um objeto, como esta xícara de chá, existe materialmente, é tridimensional. Mas, quando entramos no mundo intermediário, ou no dos mortos, não é nosso corpo que entra, mas sim a alma, a consciência. Ninguém sabe quantas dimensões há lá. Se tentarmos levar algo tridimensional para um espaço superior, ou trazer algo de lá para cá, quais serão as consequências? Pode ser perigoso. Lembrei de uma coisa: os astrônomos dizem que uma estrela de nêutrons, em dimensões superiores, seria apenas um ponto, mas em nosso universo tridimensional é um corpo de densidade tão imensa que poderia esmagar a Terra ou até o sistema solar.”
Li Damin ponderou: “Faz sentido. O mundo dos mortos é feito para as almas, e a relação entre alma e corpo ainda é um mistério insolúvel. Lin, já decidi meu objetivo de vida.”
Perguntei qual era.
Li Damin declarou, convicto: “Vou desvendar as regras daquele mundo, encontrar um modo de conectar os dois universos! Quero abrir um canal entre vida e morte, sem depender da morte em si!”
Olhei para ele e, por algum motivo, senti um arrepio. Após um momento de silêncio, disse: “Damin, você está entrando em um território proibido.”
“Foi por desafiar limites que a humanidade evoluiu tanto,” argumentou. “Explorar os oceanos era um tabu, o espaço também. Agora é hora de explorar o mundo da morte. Mais cedo ou mais tarde isso vai acontecer, e nós somos os precursores.”
Não quis prolongar aquela discussão. “E quando você saiu de lá, o que Chen Meiyu disse?”
Li Damin respondeu: “Não avançamos para a próxima etapa, então, por ora, estão seguros. Meiyu está cuidando do pai. Talvez logo ela volte. O tempo dela corre diferente do nosso, é difícil dizer.”
Ao ouvir o nome de Chen Jian, olhei instintivamente para o cadáver estendido na cama. Fiquei chocado e me aproximei depressa.
Li Damin veio atrás de mim, e ambos, ao nos debruçarmos sobre o corpo, vimos que o rosto de Chen Jian estava coberto de bolhas, como se tivesse sofrido queimaduras graves. Algumas bolhas tinham estourado, exalando pus misturado de sangue.
Era uma visão horrível e grotesca, como se água fervente tivesse sido despejada sobre seu rosto.
Trocamos olhares de preocupação. “Parece que o castigo do mundo intermediário repercutiu no corpo dele aqui,” disse Li Damin.
Eu sabia que o corpo estava daquele jeito porque, ao se arrepender do que fizera com Lin Xiaohui, ele mesmo mergulhara a cabeça no carvão ardente, queimando-se.
Havia ali um paradoxo estranho: se ele não tivesse se queimado, não teria se arrependido de verdade; sem arrependimento, não teria superado aquela provação e ficaria preso para sempre.
Pode-se dizer que era justiça sendo feita. O sofrimento que impôs a Lin Xiaohui foi devolvido a ele, em dobro, depois da morte.
A justiça do céu é inexorável; ninguém escapa.
Naquele momento, muitas bolhas estouraram, e o pus escorria pelo rosto de Chen Jian, agora disforme e horrendo.
De repente, ouvimos um grito atrás de nós. Ao virar, vimos que era a tia Wei Zhen.
Wei Zhen era a esposa legítima de Chen Jian e mãe de Chen Meiyu. Ela saíra cedo na noite anterior, preocupada com o marido e a filha, e voltara logo pela manhã, acompanhada da empregada da casa.
Ao ver o estado do marido, Wei Zhen quase desmaiou, sendo amparada pela empregada, que já estava prevenida quanto à saúde frágil da patroa.
As duas aproximaram-se da cama. Wei Zhen, pálida como um lençol, sentiu-se enjoada ao primeiro olhar, desviando o rosto e murmurando, sem forças: “O que… o que aconteceu?”
Li Damin permaneceu em silêncio. Limitei-me a dizer: “Consequência.”
“Como assim, consequência?” Wei Zhen arfava.
Li Damin puxou discretamente minha manga, balançando a cabeça para que eu não dissesse mais nada.
Ajudamos Wei Zhen a sentar-se. O ambiente estava tomado por um cheiro estranho, semelhante ao de lepra: nem propriamente fétido, nem ácido, mas penetrante, fazendo doer a cabeça.
A empregada, assustada, disse que o cheiro vinha do cadáver.
Wei Zhen, exausta, perguntou: “Dona, você teria coragem de limpar o corpo?”
A empregada, trêmula como se um rato a tivesse mordido, pulou para trás: “Eu… eu não consigo, dona Wei. Por favor, não insista.”
Wei Zhen olhou para mim e para Li Damin: “Rapazes, o corpo do velho Chen não pode ficar assim, ainda mais nesse calor. Podem me ajudar a limpar? Não vou pedir de graça, pago três mil pelo serviço.”
Eu e Li Damin sorrimos, sem responder, continuando a beber chá tranquilamente.
Wei Zhen mordeu os lábios: “Dou dez mil. Pago dez mil pelo serviço completo. Por favor, limpem o corpo. Do contrário, seria desrespeito com o morto. Enquanto vocês cuidam disso, vou deitar um pouco no andar de cima. Quando terminarem, venham me contar o que aconteceu depois da travessia de ontem.”
Coloquei a xícara na mesa: “Sua filha Meiyu logo estará de volta. Quanto ao que aconteceu, é melhor perguntar a ela.”
Vendo nossa postura, Wei Zhen suspirou e não insistiu, deixando-se conduzir pela empregada, subindo cambaleante as escadas.
Olhei para Li Damin, perguntando se devíamos limpar o cadáver.
Li Damin se espreguiçou: “Pagando, o trabalho é nosso. E nem é preparar o morto para o velório, só limpar o corpo. Simples.”
“Quer fazer sozinho?” provoquei.
“Faço, claro. Mas então fico com os dez mil.”
Sorrindo de canto, respondi: “Vamos juntos. Depois de tantas visitas ao mundo dos mortos, já não temo tanto a vida e a morte.”