Capítulo Cinquenta e Um: Objetivos de Vida
Conversei mais um pouco com Wang Yue, depois saímos do Reino Intermediário; a noite já era profunda, mas o sono não vinha. Fui até o sofá da sala, virei de um lado para o outro, murmurando aquele nome, "Liu Yang"...
Na manhã seguinte acordei cedo. Aproveitei que Li Damin ainda não havia levantado para ligar para aquele misterioso Jie Ling. Quando a ligação foi atendida, ouvi uma voz calma: "Quem fala?"
"Com licença, estou procurando por Jie Ling." Não sei por que, mas meu coração disparava.
"Sou eu," respondeu a voz do outro lado.
Fiquei sem palavras por um instante. "É o seguinte, sou amigo de Wang Yue..."
"Ela atravessou para o outro lado, não foi?" ele perguntou.
Confirmei.
Ele disse que já sabia disso. Depois me perguntou se eu estava na casa de Wang Yue.
Respondi que sim.
"Saia imediatamente. Em uma hora estarei lá. Deixe o resto comigo, não se envolva, está bem?"
Sua voz era estável, sem qualquer emoção, mas havia nela uma aura indescritível, impossível de contestar. Só pude responder, "Está bem."
Sem mais palavras, a ligação foi encerrada. Fui ao banheiro lavar o rosto, olhei o relógio e corri para acordar Li Damin no quarto.
Meio sonolento, ele perguntou o que estava acontecendo.
Resumi o que havia acontecido, explicando que em cerca de uma hora alguém viria buscar o corpo de Wang Yue e cuidar de tudo.
Li Damin, para minha surpresa, não fez perguntas. Se recompôs, foi lavar o rosto também. Arrumamos nossas coisas, empacotamos tudo e, meia hora depois, saímos do apartamento.
Ficamos parados no corredor. Li Damin parecia perdido: "E agora? O jogo acabou?"
"De jeito nenhum," respondi. "Ainda preciso encontrar Liu Yang."
O olhar de Li Damin pousou no bracelete espiritual em meu pulso, pensativo. Franzi o cenho: "Damin, nem pense nesse bracelete, não vou mais emprestá-lo para você."
Ele balançou a cabeça, suspirou. Seguimos para o trabalho. No escritório, minha mente vagava, sempre pensando no Reino Intermediário, nas inscrições espirituais...
Finalmente o expediente acabou. Li Damin veio cambaleando e perguntou se eu queria comer algo.
Fomos a um restaurante próximo. Li Damin pediu alguns pratos e, de repente, disse: "Hoje o chefe me chamou, quer me promover. Querem me transferir para Xangai, para comandar a região de lá."
"Isso é ótimo," comentei.
"Recusei," ele limpou as mãos. "Disse ao chefe que nem quero mais ser supervisor. Só quero vender em paz."
Olhei para ele: "Damin, você enlouqueceu? Está obcecado? Uma oportunidade dessas é raríssima!"
"É mesmo," ele concordou. "Mas o tempo e a energia de uma pessoa são limitados. Não quero mais gastar minha vida com coisas sem sentido."
Balançei a cabeça: "Isso é absurdo. Um dia você vai querer casar, ter filhos, comprar casa, carro... Se for promovido em Xangai, seu horizonte vai mudar, e então," parei um instante, "vai poder me promover também."
Ele riu, não quis se explicar. "Cada um com seus sonhos. Já defini o meu objetivo de vida."
Perguntei qual era.
Li Damin olhou para o fluxo incessante de carros e pessoas pela janela: "É buscar o ‘Caminho’. Esse ‘Caminho’ não é o do taoísmo, nem de nenhuma seita, não é restrito assim. Refiro-me à lei que rege o mundo e as coisas. É isso que buscarei a vida toda. Todo o resto—promoções, salários melhores, casamento, filhos—tudo deve servir a esse propósito. Não rejeito atividades mundanas, pois o convívio entre pessoas também faz parte desse ‘Caminho’."
Olhando para ele, senti uma estranheza, como se estivéssemos nos afastando. Talvez eu nunca tivesse realmente entendido quem ele era.
Ele me encarou: "Você acha que sou ingênuo, que falo coisas sem sentido?"
Sorri, resignado: "Não entendo, e acho que a maioria das pessoas também não. Todos estão ocupados em ganhar dinheiro, ter uma boa vida, subir na vida."
"É," disse Li Damin. "Mas entre todas essas pessoas, quantas são realmente felizes? Só passam de uma prisão para outra. Quem é esperto, trabalha demais e se preocupa; quem não tem ambição, não sofre. O melhor é comer bem, viver livre, como um barco à deriva."
Eu já não acompanhava o raciocínio dele. Se continuasse assim, logo estaria se retirando para uma vida de eremita, pensei.
Enquanto falávamos, o telefone de Li Damin tocou. Ele fez um gesto para eu esperar e atendeu.
Respondeu com alguns "uhum", olhou para mim e confirmou ao telefone: "Ele está comigo." Depois de mais alguns "uhum", desligou.
Pressenti que era algo relacionado a mim. Perguntei do que se tratava.
Li Damin explicou: "Era o Tio Zhong. Disse que apareceu uma oportunidade de ganhar dinheiro, perguntou se queremos participar."
"Que tipo de oportunidade?" perguntei ansioso.
"Ele não explicou, só pediu para irmos à casa dele amanhã cedo."
"Mas ainda temos que trabalhar..." comentei.
"Você decide. Eu vou," disse Li Damin, encerrando o assunto e se concentrando na comida.
Fiquei dividido, inquieto. Queria explorar o mundo com Li Damin e encontrar minha mãe, mas não queria abandonar meu emprego, tão difícil de conseguir.
Durante o jantar, não trocamos mais palavras. Ao sairmos do restaurante, as luzes da cidade já brilhavam.
Ele me olhou, eu olhei para ele, e cada um seguiu seu caminho. Senti um vazio no peito, uma intuição de que, se perdesse essa oportunidade, talvez nunca mais tivesse outra.
Em casa, fiquei horas refletindo. Sentia-me diante de uma encruzilhada: qual direção deveria tomar?
Um caminho era o da vida comum: trabalhar, ser promovido, casar, ter filhos—essas seriam minhas preocupações futuras. O outro era seguir Li Damin, Tio Zhong, o Reino Intermediário, explorar os mistérios de outro mundo. Não sabia que ganhos materiais isso traria, mas viveria uma vida mais interessante e significativa. O mais importante: precisava salvar minha mãe.
Por fim, tomei minha decisão. Liguei para meu chefe e pedi uns dias de folga. Ele se irritou, reclamou: "Lin Cong, sempre confiei em você, mas ultimamente você está alheio ao trabalho, queria até conversar com você esses dias!"
"Não precisa conversar," respondi calmamente. "Se estiver difícil para você, posso pedir demissão."
Do outro lado, silêncio. Senti aquele momento de calma antes da tempestade. Meu chefe então explodiu: "Pense bem!" e desligou.
Mandei uma mensagem para Li Damin: amanhã não irei trabalhar, te encontro cedo.
Ele respondeu rápido com um emoji sorrindo e escreveu: "Você finalmente fez a escolha certa." Depois disse para nos encontrarmos diretamente no Edifício Jingming, no escritório do Tio Zhong.
Combinamos o horário. Dormi tranquilo, sentindo uma paz inédita.
Na manhã seguinte, no horário combinado, cheguei ao Edifício Jingming e vi Li Damin me esperando na escada. Ele riu alto ao me ver, entregando uma sacola: "Sabia que você viria sem tomar café. Comprei agora, ainda está quente. Coma antes de subirmos."
Brinquei: "Damin, você só pode ser gay..."
"Vai te catar," respondeu, rindo. "Homens não podem ser atenciosos, é?"
Rindo e conversando, entramos no prédio e fomos ao escritório do Tio Zhong.
Ao chegarmos, ele estava copiando escrituras, mergulhando o pincel em pó vermelho e escrevendo minúsculos caracteres em papel amarelo. Uma caligrafia bela e imponente. Perguntei o que era.
"Este é o Clássico de Nanhua, um texto fundamental do taoismo," explicou. "Sentem-se, falta pouco."
Eu e Li Damin sentamos, observando. Tio Zhong não se incomodou com nossa presença, escrevia com calma e foco. Só depois de mais de meia hora terminou, pousou o pincel e sorriu: "Desculpem, visitantes sem nem um chá para oferecer."
Logo foi preparar chá. Pouco depois, serviu-nos a bebida. Era a primeira vez que provava um chá do Tio Zhong: perfumado e delicioso.
Após algumas palavras de cortesia, ele me perguntou: "Lin, encontrou Ma Danlong?"
Fiquei surpreso, sem saber se mentia ou falava a verdade. Diante de alguém tão íntegro, decidi admitir.
Tio Zhong não pediu detalhes, só perguntou: "Teve algum aprendizado?"
"Dois, creio eu," respondi. "Primeiro, achei meu objetivo e sei o que tenho que fazer. Segundo, Ma Danlong me ensinou a usar o bracelete espiritual." Mostrei o bracelete no pulso.
Os olhos de Tio Zhong brilharam: "Ótimo. Tenho uma missão importante para vocês dois. Se sabe usar o bracelete, melhor ainda. Se cumprirem bem essa tarefa, nunca mais terão que se preocupar com dinheiro."
Li Damin sorriu: "Tio Zhong, só de ouvir já sabemos que vem coisa grande. Estamos aqui pelo dinheiro mesmo."
Olhei surpreso para ele. Li Damin sorriu de volta, com ar de quem adora uma boa recompensa.