Capítulo Quarenta e Quatro: Concretização
— O que significa tornar-se um demônio? — perguntei.
Madanlong parecia perturbado; levantou-se do tapete de meditação e aproximou-se de Liu Yang, examinando-o minuciosamente. Eu também quis recordar o passado, mas Qingyue, ao meu lado, segurou-me e balançou a cabeça suavemente. Após alguns instantes, Madanlong voltou a se sentar, refletiu por um momento e disse:
— Lin Cong, esses fenômenos que você mencionou, como o tempo retrocedendo e as visões no escuro, eu não conheço; não são efeitos provocados por um ritual. Resta apenas uma possibilidade: o corpo de Liu Yang está com algum problema, o que afeta o ambiente ao redor. Quanto ao que exatamente está acontecendo, não posso afirmar com certeza.
— Mestre, será que o método de cultivo dele é muito maligno? — sugeriu Qingyue.
Madanlong ponderou:
— Essa hipótese é plausível. O Chan do Vazio das Cinco Agregações é profundo e misterioso; impossível prever seus resultados. Agora que há sinais tão estranhos, certamente não é um bom presságio. É bem provável que algo tenha acontecido com Liu Yang no reino do Vazio. Se algum acidente ocorreu, será complicado.
— Ele vai morrer? — perguntei, aterrorizado.
— O estado dele já ultrapassa o que entendemos como vida e morte — Madanlong respondeu lentamente, balançando a cabeça em seguida. — O ideal seria se alguém conseguisse encontrá-lo no reino do Vazio.
Perguntei com cuidado:
— Mestre Ma, você não consegue?
Madanlong sorriu amargamente:
— Eu posso entrar no reino intermediário, mas não sei como passar do reino intermediário para o Vazio.
Para desvendar todos os segredos do reino intermediário, seria preciso despertar Liu Yang, mas agora ele está num espaço ainda mais complexo, o Vazio... O futuro parece completamente incerto.
Madanlong olhou para mim e disse:
— Isso depende do destino. Seja difícil ou fácil, tudo acontece conforme a vontade dos homens e o tempo certo. Lin Cong, sabe por que te contei tudo isso?
Balancei a cabeça.
Madanlong chamou-me para perto do corpo de Liu Yang, abriu sua roupa e mostrou o peito.
Aproximei-me, apertando os olhos para observar. No centro do peito de Liu Yang havia quatro pontos vermelhos, parecendo marcas de agulha. Madanlong pediu que eu olhasse com atenção.
Cheguei ainda mais perto; senti um aroma suave vindo de Liu Yang, não era enjoativo, lembrava o perfume delicado de incenso, muito agradável. Concentrei-me, observando atentamente os quatro pontos vermelhos, até perceber que formavam quatro caracteres.
Esforcei-me para decifrar, até reconhecer: “Desabrocha ao encontrar Lin”.
Minha mente explodiu, ficou completamente em branco. Lembrei-me do desafio que enfrentei no reino intermediário, um enigma extremamente complicado cuja dica era justamente “Desabrocha ao encontrar Lin”. E, de fato, só eu consegui abrir aquele mecanismo.
— O que... o que significa isso? — perguntei, gaguejando.
Madanlong explicou:
— Quando fui encarregado de cuidar do corpo de Liu Yang, esses quatro caracteres já estavam lá. A pessoa que me confiou a tarefa disse que era um segredo do destino. Passei todos esses anos meditando sobre esses caracteres, e hoje, ao ver você, todos os meus questionamentos se dissiparam. Lin Cong, está claro que esse assunto está ligado a você.
— Mas... mas eu não sei como despertar Liu Yang — continuei, hesitante. — “Desabrocha ao encontrar Lin”... será que tem outro significado, ou se refere a outro Lin?
Madanlong respondeu:
— Seu sobrenome Lin é apenas a primeira camada do destino; você possui o bracelete de Wang Yue, o mensageiro dos mortos, essa é a segunda camada; você veio sozinho até aqui, conversou comigo e viu o corpo de Liu Yang, essa é a terceira camada; antes disso, você presenciou sem querer os sinais demoníacos criados por Liu Yang, mais uma camada do destino. O segredo está sobre você!
— Se eu tivesse certeza, já o teria despertado. O problema é que estou completamente perdido, não sei por onde começar — respondi.
Madanlong disse:
— Vou ensinar-lhe uma técnica, feita especialmente para o seu bracelete. Com ela, poderá usar o bracelete. Sabe de onde ele veio?
Balancei a cabeça, confuso.
Madanlong explicou:
— Dizem que existem sete artefatos no mundo, chamados “As Sete Maravilhas”. Há muitas teorias sobre sua origem, sendo duas as principais. Segundo nossa visão taoísta do universo, existem trinta e três céus, cada um é um reino; na perspectiva científica, seriam trinta e três mundos paralelos.
Fiquei surpreso; alguém como Madanlong falava de “mundos paralelos”, um termo moderno.
— Nosso mundo é apenas um desses trinta e três céus. Profetas de outros mundos já investigaram os mistérios do nosso. Eles concentraram esses segredos e poderes em sete objetos, espalhados pelo nosso mundo — Madanlong fez uma pausa. — Entre esses objetos está o bracelete que você está usando agora. Ele se chama Bracelete da Comunicação Espiritual.
Meu coração disparou:
— Mestre Ma, você disse que havia duas teorias. Qual é a outra?
— A segunda é semelhante à primeira — Madanlong respondeu. — Os mesmos sete objetos, mas, segundo ela, não vieram dos trinta e três mundos paralelos; foram criados no mundo dos mortos e vieram parar no mundo dos vivos. São tesouros supremos do submundo! Mas, se pensarmos bem, o submundo pode ser apenas mais um mundo paralelo, quem sabe?
Fiquei impressionado com essa teoria. Nunca havia pensado que o reino intermediário, e até o submundo, poderiam ser apenas mundos paralelos.
— Deixando isso de lado — continuou Madanlong —, a técnica que vou lhe ensinar permitirá usar o Bracelete da Comunicação Espiritual para entrar no reino intermediário de outras pessoas. Mais importante ainda, você poderá evitar o karma ao usá-lo nesse reino.
Comecei a entender o que ele queria dizer, meu coração batia acelerado.
— Toda pessoa que entra no reino intermediário enfrenta seus próprios desafios. Com o bracelete, você poderá entrar e sair livremente, sem passar por provações — explicou Madanlong.
Quase pulei de alegria:
— Então, mestre Ma, quer dizer que não preciso atravessar minhas sete provações?
Madanlong assentiu.
— Então posso entrar no reino intermediário para procurar minha mãe? — perguntei, entusiasmado.
Madanlong sorriu tristemente:
— Pode, mas já adianto que não vai encontrá-la.
— Por quê? — questionei.
Madanlong respondeu:
— Evitar suas provações ao entrar no reino intermediário é apenas o começo. Imagine esse reino como um mundo inteiro, enorme e complexo. Sobreviver lá é apenas o básico. Encontrar alguém específico é um desafio ainda maior.
Ouvi com atenção.
— Atualmente, existe uma técnica chamada “Visão do Submundo” — explicou Madanlong —, que permite localizar uma pessoa usando encantamentos. Mas a situação de sua mãe é especial: ela está selada no reino intermediário. Mesmo que você a encontre, não poderá salvá-la; há inscrições sombrias selando-a, que precisam ser quebradas. No fim, tudo volta à necessidade de encontrar Liu Yang.
Desanimei, mas ao menos aprendi a usar o bracelete espiritual. Agora era hora de mudar minha estratégia: para salvar minha mãe, preciso encontrar Liu Yang no reino intermediário e despertá-lo. Tenho um pressentimento de que Liu Yang é uma grande entidade, cheia de segredos, e certamente vai me ajudar a resgatar minha mãe. Quem sabe até salvar Wang Yue e seu pai também.
— Mestre Ma, você disse que Liu Yang está cultivando o reino do Vazio no intermediário. Como posso encontrá-lo lá? — perguntei.
— Em breve lhe direi — respondeu Madanlong. Ele pediu que Qingyue libertasse os três intrusos, Li Damin e seus companheiros.
Depois das instruções, Madanlong conduziu-me através de uma cortina até um canto do salão, onde havia uma sala de meditação. Ao abrir a porta, vi que era completamente vazia, apenas dois tapetes no chão e um grande caractere na parede: “Silêncio”.
Madanlong disse:
— Agora vou lhe ensinar o método de usar o Bracelete da Comunicação Espiritual. Esse artefato é divino; a fórmula é simples, mas o mais importante é o coração. Quando sua mente se conectar ao bracelete, poderá usá-lo livremente. Para isso, é preciso que seu coração esteja em sintonia com ele; basta pensar e o bracelete responderá.
Meu coração fervia de expectativa, ouvi em silêncio.
Madanlong continuou:
— A conexão entre você e o bracelete exige um processo doloroso, e você tem apenas uma hora. Vou guiá-lo para estabelecer essa comunicação; se conseguir, o bracelete será seu.
Antes que eu perguntasse como seria o teste, Madanlong pediu que eu fechasse os olhos.
Obedeci, fechando-os. Madanlong começou a recitar rapidamente, como se entoasse um encantamento, até que gritou:
— Concentre toda sua atenção no bracelete, use sua mente para conectar-se a ele!
Imediatamente abandonei todos os outros pensamentos, focando apenas no bracelete.
Com os olhos fechados, minha atenção ficou sobre as pálpebras, em um estado de confusão e desprendimento.
Em determinado momento, pareceu surgir uma roupa sobre minhas pálpebras: um vestido branco com pequenas flores azuis, muito nítido. Alguém deveria estar usando-o, mas não via a pessoa, apenas o vestido se movendo.
A sensação era estranha; não sabia se via realmente nas pálpebras ou se era uma imagem criada pela mente e projetada ali.
Surpreendentemente, percebi que o vestido tinha sentimentos; estava triste, sentado, chorando.
Meu coração disparou. Seria esse vestido a manifestação do Bracelete da Comunicação Espiritual?