Capítulo Quatro: O Quarto Secreto
Respirei fundo e tentei mais algumas senhas, mas todas estavam erradas. Cada vez mais, tinha certeza de que os números enviados por Wang Yue tinham um propósito: o primeiro abriu a porta do hall, o segundo devia estar relacionado à porta de entrada da casa dela. Mas por que estava dando erro?
Digitei novamente os quatro números: 5890. Ainda errado. Olhei para a fechadura eletrônica por um bom tempo, até que, de repente, dei um tapa na testa: como pude esquecer disso? Normalmente, esse tipo de fechadura exige que, ao final da digitação, se aperte o botão “#” para confirmar.
Mais uma vez, digitei os números, com as mãos trêmulas, e pressionei o botão de confirmação. Um “bip” baixo e eletrônico soou; a porta destrancou! Soltei um longo suspiro, sentindo meus poros se abrirem em alívio.
Empurrei a porta, que cedeu facilmente, revelando um interior escuro, sem qualquer luz. Inspirei fundo algumas vezes, entrei no apartamento.
O ambiente era frio, mais do que lá fora; a luz da lua mal conseguia penetrar, tudo parecia tomado por um breu sinistro. Tateei a parede até encontrar o interruptor e, ao acendê-lo, a sala apareceu diante de mim: espaçosa, impecavelmente arrumada. De frente, uma televisão de mais de cinquenta polegadas, a mesa de centro de vidro reluzente, cortinas negras e espessas cobrindo as janelas, explicando a escuridão.
Olhei ao redor; não havia ninguém na sala, nem som algum no apartamento. Ainda assim, senti um silêncio inquietante, como se algo terrível estivesse ali, à espreita.
O piso estava limpo; deveria tirar os sapatos, mas preferi mantê-los, caso precisasse fugir rapidamente.
Pisando suavemente, avancei para o centro da sala e, tentando ser corajoso, chamei: “Wang Yue, Wang Yue?”
Nenhuma resposta.
Respirei fundo e me dirigi ao corredor dos quartos. O apartamento tinha dois quartos e uma sala. Peguei uma chave inglesa da mochila, apertando-a com força, mesmo sabendo que não serviria para muito, mas me dava coragem.
Abri a porta do primeiro quarto, escuro. Tateei até encontrar o interruptor e, ao acender, enxerguei o cenário: era um escritório. Exceto pelas portas e janelas, todas as paredes eram cobertas por estantes que iam até o teto. Nas prateleiras superiores, havia diversos objetos antigos, de diferentes formas e tamanhos; nas inferiores, livros. Ao lado, um grande vaso de porcelana com papéis de arroz e pinturas.
Se realmente era a casa de Wang Yue, ela devia vir de uma família culta. Mas, pensando em seus mistérios cotidianos, o ambiente parecia destoar. Era estranho.
Não entrei; virei-me e fui ao outro quarto, o único que faltava explorar. Bati levemente na porta, chamando seu nome. Ao tocar, a porta abriu uma fresta; lá dentro, tudo era escuro.
Mordendo os lábios, empurrei suavemente a porta, que rangeu. O quarto era tão escuro que, instintivamente, tateei a parede à procura do interruptor, mas não encontrei nada. Estranhamente, a superfície era áspera e gelada, como se tocasse uma parede de cimento.
Sem alternativa, tirei o celular e liguei a lanterna. A luz branca percorreu o cômodo.
No centro do quarto, havia algo que projetava uma sombra enorme, deitada no chão. Senti um desconforto horrível; o coração pulsava forte, vontade de sair correndo, mas já tinha chegado até ali.
Fiquei à porta, chamando baixinho: “Wang Yue, Wang Yue.”
Nenhuma resposta.
Reuni coragem, segurando o celular, e entrei devagar. O quarto era amplo, quase do tamanho da sala; havia pouca mobília, o ambiente era vazio, destacando-se o objeto enorme no centro, parecido com um armário tombado, mas não era. Difícil descrever.
Aproximei-me da sombra, iluminando com o celular, e congelei. No meio do quarto, estava um caixão negro, gigantesco.
Por um instante, senti meu espírito se desprender; a mente ficou em branco, incapaz de falar ou mover. O medo se espalhou, como se fantasmas se escondessem nas sombras, aproximando-se lentamente.
No segundo seguinte, saí correndo do quarto, quase caindo, com lágrimas escapando dos olhos. Só pensava em fugir, o mais rápido possível! Saí cambaleando da casa, evitando o elevador, descendo as escadas em disparada até o térreo. Lá, alguns jovens entravam rindo, carregando cerveja e comida. Ao me verem, ficaram intrigados.
Quase chorei de alívio ao ver gente, sentindo certa paz. Esforcei-me para controlar a respiração, fingindo normalidade, mas o vento lá fora mostrou meu corpo encharcado de suor frio.
Não fui embora imediatamente; sentei num gazebo, perdido em pensamentos. A lua pairava difusa, sombras das árvores dançavam, e o vento frio passava de tempos em tempos. Fiquei ali por muito tempo, só então minhas pernas recuperaram a sensibilidade.
Agora enfrentava uma questão crucial: o que fazer a seguir?
Não tinha coragem de voltar, o medo era intenso. E quanto a Wang Yue? Só de pensar, sentia aversão; cada vez mais acreditava que aquela mulher era sinistra, e andar com ela significava um risco mortal.
Mas sair assim, sem explicação, me deixaria envolvido. Suportando o desgosto, enviei uma mensagem para Wang Yue: “O que está acontecendo? Por que há um caixão na sua casa? Fui até lá, mas não te encontrei. Estou pensando em chamar a polícia.”
Após enviar, minhas mãos tremiam. Era melhor avisar a polícia; caso contrário, jamais poderia me livrar da suspeita.
Tremendo, estava prestes a discar para o serviço de emergência, quando o telefone tocou, assustando-me. Mantive a calma e vi que era um número desconhecido. Seria Wang Yue?
Atendi, e para minha surpresa, era Li Damin: “Lin Cong, como está aquela história do seu parente que anda sonâmbulo? Pesquisei algumas coisas, vou te enviar por e-mail, espero que ajude.”
“Obrigado”, respondi, voz vacilante.
Li Damin percebeu: “O que houve? Está tudo bem?”
“Não… não…” murmurei.
Li Damin insistiu: “Diga logo, talvez eu possa ajudar. Amanhã vou viajar a trabalho; se precisar de mim, só daqui a uma semana.”
Quase ri de nervoso. Nesse momento, estava aflito, com medo e raiva. Pensei que, se chamasse a polícia, toda a empresa ficaria sabendo, inclusive ele. Li Damin, foi você quem quis se meter.
“Damin,” disse, “é complicado, vou chamar a polícia.”
Li Damin respondeu: “Espere, diga onde está, vou até aí e conversamos.”
Ele parecia mais ansioso do que eu. Sem alternativa, indiquei o condomínio e combinei de encontrá-lo. Desliguei e, ainda tremendo, acendi um cigarro, esperando por ele.
Depois de dois cigarros, o telefone tocou: Li Damin já estava do lado de fora do condomínio. Apaguei o cigarro e fui ao encontro dele.
Assim que me viu, perguntou o que tinha acontecido.
Já mais calmo, contei tudo o que se passou naquela noite.
Li Damin piscou: “Sabia que tinha algo estranho, quando você perguntou sobre sonambulismo, mas não quis invadir sua privacidade. Então era isso.”
“Chamamos a polícia?” perguntei.
Li Damin ponderou: “Não tenha pressa, vamos investigar antes. Não tome decisões precipitadas sem entender o que está acontecendo.”
Ele tinha uma aura especial, tranquilizadora, capaz de manter a calma diante de qualquer tempestade. No trabalho, era responsável pelas negociações com parceiros externos; talvez por isso tenha desenvolvido tal presença.
Pensei que o trabalho de vendas realmente molda as pessoas. Eu, preso ao escritório, já me sentia afastado da realidade; precisava aprender com ele.
Conduzi Li Damin até o condomínio, mas ele me puxou para o pequeno mercado local. Estranhei; estaria com fome?
Perguntei o motivo. Ele disse: “Você mencionou que não havia luz no quarto de Wang Yue; vamos comprar lanternas primeiro.”
Admirei sua atenção aos detalhes.
Compramos duas lanternas e fomos ao prédio, subindo de elevador até o sétimo andar. Paramos diante da porta de Wang Yue. Digitei a senha e entramos juntos. Com Li Damin ao lado, sentia-me muito mais seguro, sem o medo e a tensão de antes.
Fui guiá-lo ao quarto, mas ele fez sinal para esperar. Circulou pela sala, examinando tudo.
“O que está fazendo?” perguntei.
“Procurando pistas”, respondeu. Não especificou quais.
Sem encontrar nada, seguimos para o quarto. Abri a porta e Li Damin iluminou o cômodo com a lanterna.
A luz era muito mais forte que a do celular, revelando todo o quarto de imediato. A primeira coisa que saltou aos olhos foi o enorme caixão negro; ao perceber o resto, fiquei completamente estarrecido.