Capítulo Cinquenta e Seis: A Cabana de Madeira

O Código do Além O programador audacioso 3067 palavras 2026-02-09 14:08:19

— Por que isso está acontecendo? — indagou Damião com certa surpresa.

Eu estava atrás dele e disse:

— A prova desta etapa deve ter começado. Se não conseguirmos sair daqui em vinte e quatro horas do tempo intermediário, temo que ficaremos presos para sempre.

Damião olhou em minha direção.

— Preso ficarei eu. Você e Meiyu conseguem entrar e sair à vontade.

— Ora, Damião — falei —, foi você quem entrou chorando e gritando, querendo passar por tudo isso junto com Meiyu. Agora vai desistir?

Damião sorriu:

— Eu não tenho muitas qualidades, mas uma coisa é certa: nunca me arrependo do que faço. Se quero, faço, o resto resolvo depois.

Sabendo que não havia saída, ele desistiu de procurar e voltou calmamente.

Segui atrás dele e, quando nos aproximamos de Meiyu, o céu já estava coberto por uma intensa neve. Uma camada espessa se acumulava no chão e até os ombros de Meiyu estavam repletos de flocos.

Chen Jian já havia despertado. Olhava fixamente para o nada, tremendo levemente, ainda sem recobrar o juízo.

Meiyu e Damião conversavam entre baforadas de vapor, tamanha era a friagem. Eu fiquei ali parado, estendi a mão para tocar a neve, mas, sem corpo, vi os flocos caírem silenciosamente ao meu redor.

Então, Meiyu sugeriu:

— Procurem algo por perto, vejam se há alguma pista.

O lembrete me fez pensar que, em uma prova como esta, não seria possível avançar sem qualquer indício; certamente haveria enigmas, senhas ou mecanismos ocultos.

Damião e eu combinamos rapidamente: ele procuraria na floresta ao leste, eu iria para o oeste, ambos atentos a qualquer pista.

Nos separamos. Entrei na mata ocidental e, embora as árvores fossem robustas, não me impediam. No entanto, notei algo estranho: eu não conseguia atravessar os objetos. As árvores não me bloqueavam, mas também não eram como se não existissem — ainda me impediam de avançar.

Quanto mais eu adentrava, mais densa ficava a vegetação. Árvores antigas se entrelaçavam, plantas rasteiras cobriam o solo, tornando a caminhada difícil. Dei voltas e voltas, sem encontrar nada, até que, ao retornar, olhei para aquele emaranhado de árvores e senti um arrepio: e se eu me perdesse ali dentro?

Foi então que notei, entre as raízes de uma árvore não muito distante, um objeto parcialmente enterrado na neve. Aproximei-me e agachei para afastar a neve, mas nada senti — não havia toque algum.

Decidi gravar mentalmente o local e alguns pontos de referência antes de sair dali.

A neve caía cada vez mais forte; o chão já estava coberto, e logo a neve chegaria aos joelhos. Caminhei sem deixar pegadas, como se flutuasse — era como ser um espectador invisível, o que me dava uma estranha sensação de segurança.

Ao retornar, Damião já havia voltado, abatido, conversando com Meiyu, que chorava, abraçada ao pai.

Aproximei-me:

— Encontrei algo, não sei se é útil.

— Onde? — os dois olhos brilharam ao mesmo tempo.

— Não tenho corpo, não consigo mexer na neve, mas vi algo enterrado ali.

— Leve-me até lá — disse Damião.

Fomos juntos à floresta ocidental. A neve dificultava cada passo de Damião, e as marcas de referência estavam quase invisíveis. Depois de muito esforço, indiquei o local.

Ele agachou-se, afastou a neve e revelou um objeto.

Damião prendeu a respiração; eu também fiquei surpreso — jamais imaginara encontrar aquilo ali.

Era uma placa de madeira, com quatro caracteres gravados, parecendo flores de ameixeira estilizadas, incompreensíveis.

— O que é isso? — perguntei.

— Devem ser letras arcaicas; não entendo. Vamos mostrar à Meiyu.

Damião prendeu a placa sob o braço e saímos da floresta, agora envolta em neve tão densa que era quase impossível enxergar adiante, como se uma névoa grossa tivesse descido.

Nisso, vimos alguém se movendo na névoa. Corremos e encontramos Meiyu arrastando o pai, deixando um sulco na neve. Damião a abraçou; a jovem estava pálida, os lábios sem cor.

— O que está fazendo? — perguntou Damião.

Meiyu tremia:

— Ficar parado é morrer. Quero levar meu pai para procurar vocês.

Damião, sabendo que não havia tempo a perder, mostrou a placa:

— Veja o que encontramos.

Meiyu olhou rapidamente e disse:

— É uma escrita arcaica, do tipo flores de ameixeira. Meu pai lidava com antiguidades, e desde pequena aprendi a admirar e copiar essa caligrafia.

— O que está escrito? — Damião apressou-se.

— Siga sempre para o leste.

Os dois se entreolharam. Damião inclinou-se, pôs Chen Jian nas costas e gritou para mim:

— Vamos juntos para o leste!

Começamos a atravessar a neve em direção ao leste. Damião caminhava com dificuldade, carregando Chen Jian e afundando a cada passo. Meiyu segurava firme seu ombro; ambos se apoiavam mutuamente.

Eu os seguia aflito, mas impotente. E sentia também um certo desconforto ao ver como os dois se aproximavam cada vez mais — situações de risco unem corações.

Mas não há como invejar: cada um tem seu destino. Se eu tivesse emprestado o bracelete espiritual para Damião, talvez fosse eu agora ao lado de Meiyu.

Meiyu insistiu várias vezes em arrastar o pai pela neve, mas Damião recusou:

— Isso seria desrespeitoso com seu pai; e desrespeitar seu pai é desrespeitar você, e isso eu não admito.

O rosto pálido de Meiyu tingiu-se de leve cor. Quem diria, Damião era um verdadeiro conquistador.

Entramos na floresta do leste e, mesmo andando por um bom tempo, continuávamos girando entre árvores. O suor escorria de Damião, que arfava, envolto em vapor.

Meiyu sugeriu que ele descansasse, mas Damião recusou:

— Se pararmos, não sairemos mais; morreremos aqui. Aguento mais um pouco.

Foi então que avistamos, através da neve, uma luz ao longe.

— Luz! Tem luz! — gritei.

Reanimados, seguimos na direção da claridade. Saímos da floresta e vimos um penhasco, de onde uma enorme rocha se projetava. Sob ela havia uma casa de madeira de dois andares, com neve acumulada no telhado quase a ponto de desabar. Havia luz na janela do primeiro andar, mas não se via ninguém.

Não importava mais. Pelo menos tínhamos um abrigo, e, de todo modo, o próprio desafio nos indicava que devíamos entrar ali.

Demoramos a chegar até a casa. Damião estava exausto, quase desmaiando, ofegante. Meiyu empurrou a porta; o calor nos envolveu, e vi o quanto ambos se deleitaram com aquele conforto.

Sem corpo, só podia invejá-los: depois de tanto frio e sofrimento, entrar num abrigo quente era como alcançar o paraíso.

Entramos. Damião deitou Chen Jian no chão, Meiyu fechou a porta com força. Notei que a cabana era simples, com algumas mesas e cadeiras, mas sem camas. Sobre a mesa, uma lamparina ardia suavemente. O chão de madeira tinha, ao centro, um espaço escavado com carvão e uma panela suspensa — o local para cozinhar.

Damião e Meiyu tiraram os casacos e colocaram Chen Jian junto ao fogo. Damião sentou-se, ofegando e suando sem parar.

Meiyu vasculhou o ambiente e trouxe a lamparina e um atiçador. Agachou-se para acender o fogo e, em pouco tempo, as brasas ardiam, tornando o ambiente ainda mais aconchegante. Ambos tiraram as roupas pesadas e, por um instante, ninguém falou.

As chamas lambiam a panela suspensa e, logo, um borbulhar se fez ouvir, espalhando um aroma estranho pela sala. Mesmo sem corpo, senti o cheiro denso de carne, algo enjoativo.

— Que cheiro é esse? — perguntou Damião.

Antes que terminasse a frase, Chen Jian, até então inconsciente, se levantou de súbito, cambaleando até a panela, os olhos brilhando de ganância, a garganta movendo-se:

— Quero… beber… que delícia!

Aproximou-se do fogo, estendeu a mão para a panela, mas uma sombra ergueu-se e, com um chute, derrubou tudo, espalhando o caldo pelo chão.

Foi Meiyu quem interveio.

A jovem, agitada, gritou:

— Pai, aqui nada pode ser comido!