Capítulo Cinquenta e Seis: A Cabana de Madeira
— Por que isso está acontecendo? — indagou Damião com certa surpresa.
Eu estava atrás dele e disse:
— A prova desta etapa deve ter começado. Se não conseguirmos sair daqui em vinte e quatro horas do tempo intermediário, temo que ficaremos presos para sempre.
Damião olhou em minha direção.
— Preso ficarei eu. Você e Meiyu conseguem entrar e sair à vontade.
— Ora, Damião — falei —, foi você quem entrou chorando e gritando, querendo passar por tudo isso junto com Meiyu. Agora vai desistir?
Damião sorriu:
— Eu não tenho muitas qualidades, mas uma coisa é certa: nunca me arrependo do que faço. Se quero, faço, o resto resolvo depois.
Sabendo que não havia saída, ele desistiu de procurar e voltou calmamente.
Segui atrás dele e, quando nos aproximamos de Meiyu, o céu já estava coberto por uma intensa neve. Uma camada espessa se acumulava no chão e até os ombros de Meiyu estavam repletos de flocos.
Chen Jian já havia despertado. Olhava fixamente para o nada, tremendo levemente, ainda sem recobrar o juízo.
Meiyu e Damião conversavam entre baforadas de vapor, tamanha era a friagem. Eu fiquei ali parado, estendi a mão para tocar a neve, mas, sem corpo, vi os flocos caírem silenciosamente ao meu redor.
Então, Meiyu sugeriu:
— Procurem algo por perto, vejam se há alguma pista.
O lembrete me fez pensar que, em uma prova como esta, não seria possível avançar sem qualquer indício; certamente haveria enigmas, senhas ou mecanismos ocultos.
Damião e eu combinamos rapidamente: ele procuraria na floresta ao leste, eu iria para o oeste, ambos atentos a qualquer pista.
Nos separamos. Entrei na mata ocidental e, embora as árvores fossem robustas, não me impediam. No entanto, notei algo estranho: eu não conseguia atravessar os objetos. As árvores não me bloqueavam, mas também não eram como se não existissem — ainda me impediam de avançar.
Quanto mais eu adentrava, mais densa ficava a vegetação. Árvores antigas se entrelaçavam, plantas rasteiras cobriam o solo, tornando a caminhada difícil. Dei voltas e voltas, sem encontrar nada, até que, ao retornar, olhei para aquele emaranhado de árvores e senti um arrepio: e se eu me perdesse ali dentro?
Foi então que notei, entre as raízes de uma árvore não muito distante, um objeto parcialmente enterrado na neve. Aproximei-me e agachei para afastar a neve, mas nada senti — não havia toque algum.
Decidi gravar mentalmente o local e alguns pontos de referência antes de sair dali.
A neve caía cada vez mais forte; o chão já estava coberto, e logo a neve chegaria aos joelhos. Caminhei sem deixar pegadas, como se flutuasse — era como ser um espectador invisível, o que me dava uma estranha sensação de segurança.
Ao retornar, Damião já havia voltado, abatido, conversando com Meiyu, que chorava, abraçada ao pai.
Aproximei-me:
— Encontrei algo, não sei se é útil.
— Onde? — os dois olhos brilharam ao mesmo tempo.
— Não tenho corpo, não consigo mexer na neve, mas vi algo enterrado ali.
— Leve-me até lá — disse Damião.
Fomos juntos à floresta ocidental. A neve dificultava cada passo de Damião, e as marcas de referência estavam quase invisíveis. Depois de muito esforço, indiquei o local.
Ele agachou-se, afastou a neve e revelou um objeto.
Damião prendeu a respiração; eu também fiquei surpreso — jamais imaginara encontrar aquilo ali.
Era uma placa de madeira, com quatro caracteres gravados, parecendo flores de ameixeira estilizadas, incompreensíveis.
— O que é isso? — perguntei.
— Devem ser letras arcaicas; não entendo. Vamos mostrar à Meiyu.
Damião prendeu a placa sob o braço e saímos da floresta, agora envolta em neve tão densa que era quase impossível enxergar adiante, como se uma névoa grossa tivesse descido.
Nisso, vimos alguém se movendo na névoa. Corremos e encontramos Meiyu arrastando o pai, deixando um sulco na neve. Damião a abraçou; a jovem estava pálida, os lábios sem cor.
— O que está fazendo? — perguntou Damião.
Meiyu tremia:
— Ficar parado é morrer. Quero levar meu pai para procurar vocês.
Damião, sabendo que não havia tempo a perder, mostrou a placa:
— Veja o que encontramos.
Meiyu olhou rapidamente e disse:
— É uma escrita arcaica, do tipo flores de ameixeira. Meu pai lidava com antiguidades, e desde pequena aprendi a admirar e copiar essa caligrafia.
— O que está escrito? — Damião apressou-se.
— Siga sempre para o leste.
Os dois se entreolharam. Damião inclinou-se, pôs Chen Jian nas costas e gritou para mim:
— Vamos juntos para o leste!
Começamos a atravessar a neve em direção ao leste. Damião caminhava com dificuldade, carregando Chen Jian e afundando a cada passo. Meiyu segurava firme seu ombro; ambos se apoiavam mutuamente.
Eu os seguia aflito, mas impotente. E sentia também um certo desconforto ao ver como os dois se aproximavam cada vez mais — situações de risco unem corações.
Mas não há como invejar: cada um tem seu destino. Se eu tivesse emprestado o bracelete espiritual para Damião, talvez fosse eu agora ao lado de Meiyu.
Meiyu insistiu várias vezes em arrastar o pai pela neve, mas Damião recusou:
— Isso seria desrespeitoso com seu pai; e desrespeitar seu pai é desrespeitar você, e isso eu não admito.
O rosto pálido de Meiyu tingiu-se de leve cor. Quem diria, Damião era um verdadeiro conquistador.
Entramos na floresta do leste e, mesmo andando por um bom tempo, continuávamos girando entre árvores. O suor escorria de Damião, que arfava, envolto em vapor.
Meiyu sugeriu que ele descansasse, mas Damião recusou:
— Se pararmos, não sairemos mais; morreremos aqui. Aguento mais um pouco.
Foi então que avistamos, através da neve, uma luz ao longe.
— Luz! Tem luz! — gritei.
Reanimados, seguimos na direção da claridade. Saímos da floresta e vimos um penhasco, de onde uma enorme rocha se projetava. Sob ela havia uma casa de madeira de dois andares, com neve acumulada no telhado quase a ponto de desabar. Havia luz na janela do primeiro andar, mas não se via ninguém.
Não importava mais. Pelo menos tínhamos um abrigo, e, de todo modo, o próprio desafio nos indicava que devíamos entrar ali.
Demoramos a chegar até a casa. Damião estava exausto, quase desmaiando, ofegante. Meiyu empurrou a porta; o calor nos envolveu, e vi o quanto ambos se deleitaram com aquele conforto.
Sem corpo, só podia invejá-los: depois de tanto frio e sofrimento, entrar num abrigo quente era como alcançar o paraíso.
Entramos. Damião deitou Chen Jian no chão, Meiyu fechou a porta com força. Notei que a cabana era simples, com algumas mesas e cadeiras, mas sem camas. Sobre a mesa, uma lamparina ardia suavemente. O chão de madeira tinha, ao centro, um espaço escavado com carvão e uma panela suspensa — o local para cozinhar.
Damião e Meiyu tiraram os casacos e colocaram Chen Jian junto ao fogo. Damião sentou-se, ofegando e suando sem parar.
Meiyu vasculhou o ambiente e trouxe a lamparina e um atiçador. Agachou-se para acender o fogo e, em pouco tempo, as brasas ardiam, tornando o ambiente ainda mais aconchegante. Ambos tiraram as roupas pesadas e, por um instante, ninguém falou.
As chamas lambiam a panela suspensa e, logo, um borbulhar se fez ouvir, espalhando um aroma estranho pela sala. Mesmo sem corpo, senti o cheiro denso de carne, algo enjoativo.
— Que cheiro é esse? — perguntou Damião.
Antes que terminasse a frase, Chen Jian, até então inconsciente, se levantou de súbito, cambaleando até a panela, os olhos brilhando de ganância, a garganta movendo-se:
— Quero… beber… que delícia!
Aproximou-se do fogo, estendeu a mão para a panela, mas uma sombra ergueu-se e, com um chute, derrubou tudo, espalhando o caldo pelo chão.
Foi Meiyu quem interveio.
A jovem, agitada, gritou:
— Pai, aqui nada pode ser comido!