Capítulo cinquenta e sete: Ventos e Neve

O Código do Além O programador audacioso 3191 palavras 2026-02-09 14:08:22

— Li, me ajude a segurar meu pai! — gritou Meiyu.

Jian estava ajoelhado no chão como um tolo, agarrando o caldo derramado e tentando levá-lo à boca. Li Damin, ofegante de cansaço, finalmente conseguiu se levantar, pulou e agarrou Jian, derrubando-o no chão.

— Você não consegue ficar quieto nem um segundo? — resmungou Li Damin, exasperado.

Jian tentou se levantar, os olhos vermelhos, olhando fixamente para a poça de caldo como uma porca faminta, emitindo sons estranhos pela boca. Li Damin, já sem forças e irritado, pegou a panela caída ao lado e acertou a nuca de Jian, que desmaiou sem sequer gemer.

Meiyu correu e afastou Li:

— O que você está fazendo?

— Eu não tive escolha — respondeu Li Damin, exausto. — Ele é forte demais, não aguento mais.

Ninguém disse nada dentro da cabana. Meiyu recolheu silenciosamente a panela e o caldo espalhado no chão. Li Damin sentou-se de pernas cruzadas e eu fiquei ao seu lado.

Ouvimos alguns sons de estômago roncando. Li Damin massageou a barriga:

— Droga, nunca pensei que mesmo neste lugar maldito eu sentiria fome.

— Aguente um pouco — disse eu.

Li Damin lambeu os lábios:

— Não me admira que Jian quisesse comer aquilo. Ficar com fome é terrível, e esse cheiro é tão bom que até me lembra dos tempos em que comia fondue em Chongqing.

Ele engoliu saliva sem parar, e a barriga roncava ainda mais alto.

Meiyu voltou e sentou-se ao lado, dizendo suavemente:

— Li, aqui nenhum alimento pode ser comido, por mais apetitoso que seja. Quem come demais nunca mais consegue voltar.

— Eu sei — respondeu Li Damin. — Comida do além só serve para as almas do além, não para os vivos.

A cabana mergulhou no silêncio. Jian estava desacordado no chão, Meiyu e Li Damin calados, e eu quieto ao lado deles. A única luz vinha de uma lamparina, cuja chama tremulava suavemente.

De repente, Li Damin falou:

— Descansamos mais um pouco ou começamos logo a desvendar o enigma?

— Vamos descansar — sugeriu Meiyu. — Acabamos de sair da tempestade de neve, você está exausto e temos tempo.

Apesar de não sentir frio aqui, o ambiente dava sono. Recostei-me na parede e fechei os olhos. Não sei quando adormeci. Meio grogue, ouvi um grito:

— Onde está meu pai?

Acordei assustado e vi que Li Damin também acabava de despertar. Olhamos para Meiyu. A garota estava muito aflita, pegou a lamparina na mesa e começou a andar pela sala, sua enorme sombra dançando nas paredes como um fantasma.

Foi então que percebi: Jian havia sumido!

Éramos só nós três na cabana e Jian desaparecera. Li Damin se levantou com dificuldade:

— Será que ele saiu?

Foi até a porta, abriu-a, e uma ventania selvagem invadiu, trazendo consigo uma chuva de neve. Do lado de fora, o vento uivava como uma fera. Nem pensar em sair; só de ficar na porta parecia que seríamos lançados longe por um gigante invisível. Mesmo eu, que não tinha corpo físico, sentia a instabilidade causada pelo vento.

Li Damin fechou depressa a porta. O vento e a neve batiam incessantemente, tornando nossa pequena cabana uma ilha perdida em plena tempestade.

Li Damin voltou e balançou a cabeça:

— Impossível estar lá fora. Se seu pai tivesse saído, perceberíamos.

— Então, para onde ele foi? — murmurou Meiyu.

Ao terminar a frase, todos nós olhamos instintivamente para a escada. A cabana tinha dois andares; estávamos no térreo e nunca subimos.

Meiyu perguntou baixinho a Li Damin se ele já estava descansado. Nós sabíamos que o descanso já bastava; agora era hora de agir, desvendar os enigmas e escapar dali antes que o tempo acabasse.

Li Damin pegou a lamparina e foi na frente, eu e Meiyu logo atrás. Ele ergueu a luz para iluminar a escada de madeira, que levava diretamente ao segundo andar. O topo era um breu; a luz não alcançava.

Com cuidado, Li Damin agachou-se para examinar os degraus, que estavam cobertos por uma espessa camada de poeira. No entanto, era possível ver pegadas — alguém havia subido recentemente, mas não dava para saber se era Jian.

— Eu subo primeiro — disse Li Damin, testando o degrau, que rangeu sob seu peso. Antes de subir mais, Meiyu insistiu para que fôssemos juntos.

Subimos os três, a escada mergulhada em escuridão, o ambiente cada vez mais opressivo à medida que avançávamos. Só a chama fraca da lamparina nos guiava.

Já quase não nos víamos uns aos outros.

No topo, um corredor se estendia à frente. Li Damin iluminou o espaço: só havia um cômodo, ao fundo do corredor. O chão rangia a cada passo, testando nossos nervos. Paramos diante da porta. Li Damin olhou para Meiyu, que assentiu. Ele então deu um chute e a porta se escancarou.

Dentro, um quarto simples e vazio, sem sinal de ninguém.

Li Damin olhou confuso para Meiyu; trocaram um olhar. Eu sentia uma angústia estranha: desde que cheguei ali, era como se eu fosse invisível. Só podia falar, mas não interagir de outro modo, e às vezes eles nem notavam minha presença. Era uma sensação péssima.

Entramos no quarto. Li Damin pôs a lamparina sobre a mesa e examinou o ambiente: mesa, cadeiras, cama, armário, tudo de madeira. O quarto não era grande, talvez cinquenta metros quadrados. Com a luz, era possível enxergar tudo de relance, e Jian não estava ali.

Isso era realmente estranho.

A cabana tinha apenas dois andares, uma estrutura simples, já tínhamos visto tudo. Como um adulto poderia desaparecer assim?

Quis mostrar que estava ali e disse:

— Meiyu, será que seu pai já venceu o desafio e voltou ao mundo dos vivos?

Meiyu balançou a cabeça:

— Aqui é a provação dele. Se ele tivesse partido, tudo neste mundo desapareceria e nós não estaríamos presos aqui. Além disso, vejam.

Ela apontou para cima.

Eu e Li Damin olhamos juntos. Uma velha parede sustentava um relógio, cujo ponteiro girava ao contrário, não no sentido dos ponteiros do relógio.

Meu coração gelou. Era igual ao que vi no mundo intermediário, indicando uma contagem regressiva.

O tempo para vencer o desafio era de vinte e quatro horas, no tempo do mundo intermediário.

Meiyu disse:

— Este relógio está marcando a contagem regressiva. Já se passaram oito horas, temos dezesseis horas para sair daqui.

— Essa contagem começou quando seu pai a disparou. Ou seja, ele está sumido há oito horas — acrescentei.

Li Damin franziu o cenho:

— Se ele não saiu da cabana, onde está?

— Deve haver algum mecanismo escondido aqui. Vamos pensar juntos — sugeriu Meiyu.

— Tem algo errado — repeti várias vezes.

Os dois perguntaram o quê.

— Eu também já passei pela provação do mundo intermediário. Este deveria ser o desafio de Jian, mas por que parece que somos nós que estamos sendo testados?

Eles se entreolharam.

— Entendi o que você quer dizer — disse Li Damin, de repente. — Acho que saquei! Jian já deve ter resolvido o primeiro enigma. Agora estamos diante do segundo, e para encontrá-lo precisamos achar o primeiro mecanismo. É tudo uma sequência!

— Mas até agora não achei nenhuma pista de enigma — observei.

Li Damin e Meiyu franziram a testa, pensativos.

Andei pelo quarto, fui até a janela. O vidro estava coberto de cristais de gelo, e do lado de fora só havia neve por toda parte. Através da janela, víamos o vento enlouquecido e a brancura sem fim.

Senti um calafrio; se não fosse pela placa indicativa que achei na floresta, provavelmente já estaríamos soterrados pela neve.

De repente, tive uma ideia e me virei para Meiyu:

— Este é o desafio do seu pai; essa cabana deve ter relação com ele! Tente lembrar: ele já viveu alguma experiência em cabana de madeira durante uma tempestade de neve?

Meiyu sentou-se à mesa, pensou profundamente, e nós dois não a interrompemos. A situação estava clara: a hipótese de Li Damin parecia correta. Jian resolvera o primeiro mecanismo e fora para o segundo. Mas qual era o primeiro mecanismo? Onde ficava? Não tínhamos pista.

O problema era simples: aqui não era nosso mundo. Não sabíamos nada desse lugar, pois era o desafio pessoal de Jian. Ele conhecia detalhes que para nós eram estranhos e misteriosos.

Após alguns instantes, Meiyu finalmente falou:

— Lembrei.

Contou que, antes de completar dez anos, seu pai, Jian, viajou com alguns amigos para Heilongjiang, numa região turística remota semelhante a uma vila de neve. Era inverno, as temperaturas chegavam a dezenas de graus negativos, as montanhas estavam cobertas de neve, mas o local de férias era um paraíso alegre e acolhedor. Meiyu era pequena demais e não foi. O pai depois contou que lá havia exposição de esculturas de gelo, esqui, pesca no lago congelado, e à noite vários tipos de apresentações, como teatro de variedades. Em suma, diversão sem fim.

Essa era a única memória de Jian associada à neve e cabanas que Meiyu conseguia recordar.