Capítulo Setenta e Três: A Prova Final
— Eu matei meu pai. — Chen Jian estava na beira da ponte, o olhar sombrio fixo em Li Daming.
Ele fechou os olhos, permanecendo sob a luz que descia em cascata, todo banhado por ela, semicerrando as pálpebras como quem se deleita profundamente.
Minha garganta emitiu um som rouco, e murmurei para Li Daming: — Mais um Professor Chen.
A luz envolvia o corpo de Chen Jian; surpresos, vimos que ele começava a envelhecer lentamente: vinte anos, depois trinta, quarenta, cinquenta. Transformou-se no homem que era na vida real.
Li Daming falou baixinho: — Ele voltou ao estado que tinha antes de morrer.
O rosto de Chen Jian tornou-se assustador: bolhas de queimadura marcavam sua face, quase irreconhecível, os traços amassados num aspecto terrível.
Observávamos, hipnotizados, a cena estranha que ultrapassava qualquer imaginação.
Chen Jian desviou o olhar, tocou suavemente o próprio rosto e aproximou-se de nós, o tom de voz grave: — Li Daming, você veio de fora, não foi?
Compreendemos de imediato: Chen Jian recuperara todas as suas memórias de vida.
— Sim — admitiu Li Daming —, fui chamado por sua filha, entrei no mundo dos mortos para salvá-lo.
Chen Jian acariciou o rosto, foi até a ponte e, à luz, olhou sua imagem refletida no lago. Suspirou longamente: — Foi tudo punição.
— Agora resta o último desafio. Se vencermos, poderemos trazê-lo de volta à vida — disse Li Daming.
Chen Jian sentou-se de pernas cruzadas sobre a ponte, os olhos fixos nas águas escuras, suspirando profundamente: — Voltar não faz sentido. Antigamente, pensava que era melhor viver de qualquer jeito do que morrer bem. Agora entendo: a vida é só um processo de acumular karma e consequências. Depois da morte não há libertação, vinganças sem fim, o ciclo eterno dos seis caminhos... Não há escapatória.
— Não é bem assim — Li Daming ergueu-se —. Além do pecado, há mérito. O mais importante é que, ao nascer humano, tem-se a chance de compreender o caminho supremo. Dizem que é raro nascer humano, raro ouvir o Dharma.
— O que seria esse caminho supremo? — Chen Jian virou o rosto, perguntando com uma voz sombria.
Li Daming pensou um pouco: — O homem é o espírito de todas as coisas, o corpo é único, perfeito para nutrir a vida; o sangue, os meridianos, os órgãos internos se harmonizam com as leis da natureza, cada pessoa é um pequeno universo. Quando desperta a inteligência, nasce o desejo de buscar o essencial do mundo, e isso, por si só, é um grande deleite.
Chen Jian sorriu com amargura: — Li Daming, vou lhe contar qual é a essência da vida. Talvez já tenha suspeitado: meu pai morreu por minha mão. Eu era jovem, vivia numa aldeia nas montanhas. Ao voltar para casa, vi meu pai espancando minha mãe. Ele era um daqueles enviados a trabalhar no campo, respondeu ao chamado do governo, casou-se com uma mulher rural. Depois, os colegas retornaram à cidade, alguns foram para a universidade, outros conseguiram empregos, todos encontraram um bom caminho, menos meu pai, que ficou preso à aldeia, sem contatos sociais, sempre sozinho na entrada do vilarejo, suspirando. Dizia que, se pudesse fazer o vestibular, teria tido sucesso, sempre foi bom aluno, mas por ser mais velho, era chamado de professor pelos colegas.
Li Daming escutava sem piscar: — E depois?
Chen Jian prosseguiu: — Todos os seus sonhos viraram fumaça. Voltava dos campos, bebia e descontava a raiva na minha mãe, batia nela com violência. Minha mãe aceitava em silêncio, sem chorar, sem reclamar, deixando-se espancar. Quando eu perguntava, ela dizia que atrasou a vida dele, que merecia apanhar! Meu pai deveria ter tido uma vida melhor, um cargo, mais dinheiro; tudo foi por causa dela... Ela achava que era um peso.
As lágrimas de Chen Jian caíam como chuva, pingando no lago e formando ondas invisíveis.
— Naquele dia — continuou Chen Jian —, ao chegar em casa e ver meu pai atacando minha mãe, não aguentei, pela primeira vez reagi. Bati nele. Ele estava bêbado, os olhos vermelhos, me espancou com furor, chorando e dizendo que nós dois éramos uma maldição, que arruinamos sua vida. Depois de bater em mim, voltou a bater em minha mãe. Quando estava mais violento, peguei uma faca de cozinha e golpeei suas costas... Ele não gritou, não sangrou muito, caiu no chão e morreu.
— E o que aconteceu depois? — perguntou Li Daming.
Chen Jian respondeu: — Naquela noite, eu e minha mãe cuidamos do corpo. Carreguei meu pai noite adentro até uma ravina deserta e o enterrei, certo de que ninguém encontraria. Minha mãe pediu que eu saísse de casa cedo, no dia seguinte. Ela era esperta, apesar da pouca educação, queria me dar um álibi.
— Então você a deixou sozinha e foi embora? — perguntou Li Daming.
— Eu estava com medo, muito medo — Chen Jian chorava intensamente —. No quarto dia depois que parti, recebi uma ligação da aldeia... — a voz tremia — minha mãe se suicidou, pulou no poço.
Todos nós prendemos a respiração.
— Voltei às pressas, só então soube de tudo. O velho chefe me contou que meu pai desaparecera, minha mãe o procurou por dias, chorou muito, e na noite anterior jogou-se no poço da aldeia — Chen Jian chorava —. Ela foi grandiosa, inventou uma mentira para limpar minha suspeita, temendo que no futuro fosse descoberta, escolheu suicidar-se para me proteger...
A história me apertava o peito, uma pedra pesada sufocava. Li Daming permaneceu em silêncio; não havia palavras, apenas lamento.
Li Daming disse: — O último desafio é enfrentar o demônio do coração, seu pai, você o matou novamente.
Chen Jian enxugou as lágrimas, ergueu a cabeça e olhou o lago negro, em silêncio por muito tempo.
— Daming, se o demônio foi derrotado, devíamos ter passado. Por que ainda estamos aqui? — perguntei.
Li Daming percebeu: — É verdade, o que está acontecendo? O Professor Chen já foi eliminado, o demônio do coração resolvido, por que não avançamos?
— Talvez precisemos esperar um pouco, o sistema está confirmando — arrisquei.
— Bobagem — disse Li Daming —, o mundo dos mortos não funciona assim. Deve haver algum elemento que não consideramos, talvez uma tarefa não cumprida.
Enquanto especulávamos, o lago começou a se agitar, ondas e círculos se formaram na superfície. A impressão era clara: algo se movia sob a água.
De repente, percebi o que era.
Eu e Li Daming exclamamos juntos: — Dragão! É um dragão!
Não esqueçam: o núcleo desse desafio é o dragão adormecido nas profundezas do lago. O Professor Chen e todo o grupo de exploração buscavam desvendar o segredo do sono do dragão.
E agora, parecia que ele ia despertar.
— Este é o verdadeiro teste final — engoli em seco —, é o dragão.
Chen Jian assustou-se e levantou-se da ponte.
A superfície do lago borbulhava, como água fervente, cheia de bolhas. Uma névoa branca se espalhou, o ar ficou impregnado de um cheiro agridoce e estranho, impossível de descrever.
Li Daming viu algo e esforçou-se para rastejar no chão; eu também não conseguia andar, fui atrás, rastejando. Chegamos à beira da ponte e olhamos para baixo: havia uma sombra gigantesca movendo-se no fundo do lago.
Era impossível dimensionar seu tamanho; tudo que enxergávamos era ela, movendo-se em espirais sinuosas. — Dragão, é um dragão... — senti-me tonto.
— Estranho — murmurou Li Daming —, por que haveria um dragão no mundo intermediário de Chen Jian?
Nesse momento, um rugido ecoou debaixo d’água, grave e prolongado, não agressivo, mas como uma onda sonora de baixa frequência que fez meus ouvidos zumbirem e paralisou minha mente.
Um som distinto emergiu das profundezas: — Jian’er, Jian’er... meu Jian’er...
Chen Jian estremeceu; os lábios tremendo, como quem perdeu a alma, foi até a ponte e olhou o lago escuro, respondendo suavemente: — Mamãe, mamãe... minha mãe...
Eu e Li Daming ficamos tão chocados que não conseguimos falar.
O queixo de Li Daming quase caiu: — Então o dragão no lago é a mãe dele, este é o teste supremo!
— A mãe dele morreu no poço... tem ligação com a água — eu disse.
Tudo ali era um reflexo da mente de Chen Jian, mudanças imprevisíveis, mas com lógica, deixando-nos sem palavras.
Li Daming suspirou: — Agora entendo o que significa “o inferno está no coração”.
Sob certo ponto de vista, os desafios do mundo intermediário eram criados pelo próprio Chen Jian.
Chen Jian murmurava: — Mamãe, mamãe...
A voz sob o lago era hipnótica: — Jian’er, Jian’er, meu Jian’er, mamãe sente sua falta, pensa em você...
Chen Jian avançava passo a passo até a beira da ponte.
— Jian’er, mamãe sofreu muito nesta vida, aceitou tudo, só queria vê-lo prosperar, não queria ser um peso para você — a voz vinha do fundo.
— Mãe! — Chen Jian ajoelhou-se na ponte, chorando com desespero — Mãe, eu vim te encontrar.
— E agora, o que fazemos? — perguntei rapidamente a Li Daming.
Li Daming também estava dividido. Nossa missão era vencer o desafio; se Chen Jian pulasse no lago, poderia morrer, mas se não pulasse, não passaríamos. O que fazer?