Capítulo Cento e Sete: Fuga
Na escuridão, ouviu-se apenas um "clique" seco; a fechadura da porta foi forçada por Li Damin. Trocamos um olhar e, com um esforço conjunto, empurramos a porta, abrindo uma fresta larga o suficiente para a passagem de uma pessoa.
Entrei primeiro com a lanterna, seguido por Li Damin. Ao entrarmos no pavilhão secreto, a luz da lanterna varreu o interior, revelando um espaço vasto e profundo, mas mergulhado em uma escuridão impenetrável que impedia qualquer detalhe.
Conforme as instruções de Yuantong, caminhamos sempre em frente. Não demorou muito até avistarmos uma mesa longa de cor vermelho-sangue. Estava repleta de objetos e, quando o feixe de luz incidiu sobre ela, o pote de cobre saltou aos olhos.
O pote estava emborcado sobre a mesa, com uma tira de papel amarelo colada ao fundo, coberta de inscrições que pareciam rabiscos de espíritos.
— É este — disse eu, apressando o passo e segurando-o com cautela. Embora não parecesse grande, o pote pesava consideravelmente.
Ao levantá-lo, a abertura ficou suspensa. Temendo que o espírito felino escapasse, instintivamente cobri a boca do pote com a palma da mão.
Li Damin riu ao meu lado. Ele se aproximou e, decididamente, virou o pote para cima. — Isso é um artefato budista, como poderia ser algo tão vulgar? Olhe só como você está cauteloso — zombou ele.
Olhei para dentro do pote. Era profundo. Apontei a lanterna para o interior; a luz alcançava o fundo, vazio, mas o volume reduzido dava a ilusão de um abismo insondável. Quanto mais olhava, mais sentia como se contemplasse o próprio cosmos. Nesse momento, Li Damin pegou outro objeto da mesa e começou a examiná-lo, virando-o de um lado para o outro.
Levantei a lanterna na direção dele. — O que está fazendo?
O que Li Damin segurava era um objeto semelhante a uma pirâmide, pequeno o suficiente para ser segurado com as duas mãos. Ele o virou, revelando uma base oca e um topo pontiagudo.
— Deixe isso aí, não mexa em nada — repreendi, irritado.
Li Damin retrucou: — É uma peça valiosa. Bati o olho nela e soube que temos uma conexão; não é algo comum.
— Estamos no Salão dos Arhats de um templo, não faça nenhuma tolice — frisei, franzindo a testa.
Li Damin bufou: — Você roubar o pote não é uma tolice? Já que viemos até aqui, uma peça ou duas não faz diferença; chame isso de destino.
— Pare com isso — eu disse, tentando tomar o objeto. Li Damin esquivou-se, movendo-se como se fosse correr para o fundo do pavilhão.
Irritado, ameacei: — Você parece uma criança. Se entrar mais fundo, vou te trancar aqui.
Li Damin tirou a chave do bolso e a balançou. — Irmão, a chave está comigo. Quem você vai trancar? Sou eu quem vai te trancar.
Fiquei furioso e estava prestes a avançar sobre ele quando, de repente, um feixe de luz passou pela janela do pavilhão. Trocamos um olhar, paralisados, sem ousar respirar.
Vozes vinham de fora. Alguém perguntou: — Quem está de guarda esta noite?
— Deve ser Yuantong — respondeu outra voz.
O primeiro homem continuou: — Yuantong... Ele é apenas um forasteiro que veio pedir abrigo. O abade é bom demais com ele, não o deixa sair de perto e até o coloca para vigiar um lugar como o Salão dos Arhats. Nós, discípulos diretos da casa, acabamos sendo apenas coadjuvantes. O mundo mudou mesmo.
O outro perguntou: — Vamos entrar para verificar?
— Não. Já que ele está de guarda, que ele mesmo vigie. Vamos embora. — A luz da lanterna passou e os passos se distanciaram.
Olhei para Li Damin. Parecia que Yuantong atraía muita inveja no Templo Cibei; muitos monges locais estavam insatisfeitos com ele.
— Vamos embora logo — disse eu. — Há patrulhas por aqui.
Li Damin sorriu. — Certo, vamos retirar.
Ele ainda carregava a pirâmide.
— Largue isso! — ordenei.
— Escute, Lin Cong, isso é impossível — disse Li Damin. — Ou somos descobertos e não levamos nada, ou cada um leva a sua parte. Escolha.
Apontei para ele: — Hoje eu finalmente te conheci de verdade.
Não era hora para discutir. Se ele queria levar, que levasse. Decidi que ele arcaria com o próprio carma; eu não limparia a bagunça dele.
Saímos do pavilhão e Li Damin trancou a porta. Subi em seus ombros e coloquei a chave de volta no lugar, sob o beiral.
O monge Yuantong ainda não havia despertado, permanecendo em meditação.
Li Damin balançou a cabeça, fez-me um sinal e descemos as escadas com cautela, correndo pelo Salão dos Arhats. Nossas mochilas estavam prontas, cada uma guardando o seu saque.
Colados à base da parede, observamos o ambiente. Ao confirmar que não havia ninguém, seguimos pelo pátio triplo. Ao chegarmos ao muro externo, ajudamo-nos a escalar.
O templo estava em silêncio absoluto. Os monges da patrulha ainda não haviam passado por ali. Olhei para o relógio: uma da manhã. O tempo voara.
Saltamos o muro. Só ao deixar o Salão dos Arhats pude respirar aliviado, mas a tarefa só estaria concluída quando estivéssemos fora do templo.
Seguimos pelo caminho de volta. Encontramos alguns grupos de monges, mas eles não eram agentes secretos; bastava nos escondermos e eles passavam direto. Quanto mais nos aproximávamos da periferia, mais jovens e desatentos eram os monges, bocejando em suas rondas. Poderíamos ter passado bem na frente deles e eles mal notariam.
Assim que saíssemos pelo portão e chegássemos ao carro, tudo estaria resolvido.
Ao chegarmos à entrada, porém, descobrimos que o portão estava fechado com um cadeado pesado. Ao lado, havia uma portinhola onde um monge montava guarda, cochilando encostado na estrutura.
— Problemas — sibilou Li Damin.
— O que fazemos? — perguntei.
Li Damin ponderou: — Existem duas estratégias. Uma superior e uma inferior. Qual você quer ouvir?
— Pare de enrolar e diga logo — apressei-o.
— A superior é encontrarmos um lugar escondido no templo e descansar até o amanhecer, quando o portão abrir e sairmos naturalmente — explicou ele.
— É uma opção — concordei. — E a inferior?
— A inferior é encontrar um muro baixo e pular, saindo logo deste lugar problemático.
Perguntei qual ele preferia.
— Eu escolho a inferior — disse Li Damin. — Este templo é perigoso. Se o que carregamos for detectado por algum mestre, estaremos perdidos.
Concordei. Escolheríamos a inferior.
Seguimos a linha do muro por um longo tempo até encontrarmos um portão em arco remoto. Do outro lado havia um bosque; o muro era baixo, em ruínas e não havia ninguém. Era fácil passar.
Li Damin cuspiu nas mãos e recuou alguns passos, preparando-se para o impulso. De repente, segurei-o.
— O que foi? — perguntou ele.
Cocei a cabeça: — Acho estranho. Todo o Templo Cibei tem muros altos e bem conservados. Por que apenas aqui há um muro baixo? Olhe para essas marcas, parece até que foi feito para facilitar a entrada e saída de ladrões.
— Do que você está falando? — disse Li Damin. — Quem é ladrão aqui? Qual é o seu ponto?
— Parece que alguém deixou esse espaço propositalmente para facilitar nossa fuga — respondi. — Pode parecer forçado, mas é o que sinto.
— Não pense demais — disse Li Damin. — Quem pensa muito envelhece rápido. O destino está em nossas mãos; mesmo que tenham deixado uma saída, não seremos presas fáceis.
Ele tomou impulso, escalou o muro e saltou para o outro lado. Enquanto eu ainda hesitava, ouvi vozes e luzes surgindo na esquina próxima. Droga, a patrulha!
Sem tempo para pensar, tomei impulso e escalei o muro. Assim que passei para o outro lado, a luz da lanterna iluminou o topo da estrutura.
Li Damin e eu nos escondemos contra o lado de fora, sem ousar nos mover, ouvindo os passos desaparecerem após um longo tempo.
À nossa frente, estendia-se um bosque escuro e montanhas imensas. Não sabíamos para que lado ir, mas, tendo escapado do templo, já estávamos em uma zona segura.
Li Damin tinha um bom senso de direção. Ele analisou o terreno e concluiu que o estacionamento deveria estar a sudeste.
— Você ainda consegue se orientar? — perguntei, surpreso.
— Você não sabe distinguir o norte do sul? — Li Damin me olhou como se eu fosse uma criatura estranha. — Ali é o norte, à esquerda é o oeste, à direita é o leste, seu perdido. Esqueça, venha comigo, não vou te deixar para trás.
Entramos no bosque com Li Damin na liderança. A luz da lua era favorável e, com nossas lanternas, a visibilidade era boa, tornando a caminhada na montanha menos difícil.
À medida que avançávamos, a mata tornava-se mais densa e o terreno, acidentado. Caminhávamos em silêncio, poupando energia. Quando o caminho se abriu, chegamos à beira de um penhasco. Li Damin colocou a mão sobre os olhos, observando o estacionamento lá embaixo; bastava atravessar a encosta e chegaríamos ao destino.
Após um breve descanso, enquanto buscávamos o caminho para descer, vultos surgiram no bosque à frente.
Trocamos um olhar e reagi rapidamente, gesticulando apenas com os lábios: "Esconder!"
Assim que nos agachamos atrás de uma pedra, a figura saiu do bosque em passo rápido. Sob a luz da lua, vi um monge de semblante sombrio.
Fiquei petrificado. Como era Yuantong?!
Como ele nos seguiu?