Capítulo Centésimo: Ilusão

O Código do Além O programador audacioso 3400 palavras 2026-02-09 14:10:41

— E depois, o que aconteceu? — perguntou He Qingyou ao avô.

O avô sorriu: — Depois, aquele homem me ensinou como alcançar meus objetivos através da oferenda de ossos de dragão, transmitiu-me um feitiço secreto. E ainda me revelou um grande segredo.

He Qingyou arregalou os olhos: — Que segredo?

No rosto do avô surgiu uma expressão estranha, e sua voz tornou-se esquisita: — Ele disse que na foz do rio, ao norte do rio Yangtze, há um dragão. Quem o encontrar poderá alcançar a imortalidade... hehehe, hahahaha... — e soltou uma gargalhada sinistra.

— E o feitiço? Ensine-me! — pediu He Qingyou, tomado pela ganância, a garganta arfando.

Nesse momento, o avô começou a tossir violentamente: — O segredo do feitiço... é o sacrifício de um menino ou uma menina...

Do lado de fora da janela, eu observava atentamente, quando de repente um clarão branco atravessou o cômodo. Yuantong exclamou baixinho: — Cuidado! Feche os olhos! Não olhe!

Minha reação foi rápida. Fechei os olhos imediatamente e só os abri quando Yuantong me avisou que a luz havia sumido.

Ao olhar novamente para dentro, vi que o cenário havia mudado. Agora só restava He Qingyou, seu avô desaparecera. O quarto estava revirado e na cama havia uma pilha de objetos espalhados.

— O que aconteceu? — perguntei baixinho.

Yuantong respondeu em voz baixa: — Mudou a cena. Agora estamos no reino intermediário dele, onde surgem as lembranças mais marcantes de He Qingyou.

Lá dentro, He Qingyou vestia uma roupa verde estranha, como um figurino de dança folclórica rural, com uma coroa rústica na cabeça e o rosto pintado de maneira caótica, parecendo um ator travestido.

Ele se ajoelhou diante do criado-mudo, onde havia uma imagem de uma divindade. Duas velas vermelhas estavam acesas, suas chamas tremulando como se um vento invisível as agitasse.

O quarto estava sombrio. He Qingyou subiu na cama e se prostrou diante da divindade. Havia um prato diante da imagem, contendo ossos de dragão negros.

Aquilo me causou calafrios e me fez lembrar de muitas coisas. Quando tentei vender uma escama de dragão, o senhor Zhou me contou que a vendera a um colecionador local, cujo avô fora testemunha da queda do dragão em Yingkou, Liaoning.

Agora eu podia ter certeza: o colecionador era o próprio He Qingyou.

A escama que eu trouxera do reino intermediário estava no escritório dele! E o som de “Jian’er, Jian’er” que ouvi ali vinha justamente da escama de dragão, da qual a mãe de Chen Jian se transformara no reino intermediário.

Lancei um olhar furtivo a Yuantong ao meu lado. Ele observava atentamente a cena através do vidro, completamente concentrado. Certamente não imaginava a ligação invisível que havia entre mim e He Qingyou.

O roubo da escama de dragão do reino intermediário, que consequências traria no mundo dos vivos? Pelo que se via de He Qingyou, desde que pedira ajuda a Huang Teng, parecia estar sendo conduzido passo a passo a uma trama cada vez mais estranha e misteriosa.

He Qingyou continuava ajoelhado diante da divindade, avançou de joelhos até o criado-mudo e pegou um osso de dragão do prato. Assim que o tocou, o osso secou num instante e virou um punhado de areia negra, que escorreu entre seus dedos.

O silêncio dominava o ambiente, as chamas projetavam sombras na imagem da divindade. O que antes era uma figura pura e sagrada, agora, sob a luz trêmula, tornava-se sinistra, tingida de um tom amarelado.

Os olhos — especialmente os olhos — brilhavam em vermelho escuro, parecendo vivos, fixos em He Qingyou.

Ele murmurou: — O que faço agora? Os ossos de dragão deixados por meu avô chegaram ao fim, viraram cinzas...

Falava com a divindade. A imagem amarelada o encarava de volta, imóvel, ao ritmo das chamas vacilantes.

He Qingyou continuou a murmurar, até que, de repente, arregalou os olhos, e uma cena estranha se desenrolou.

A luz do fogo projetou, na parede, uma enorme sombra negra, semelhante a uma estátua divina, porém com traços indistintos, quase indefinidos.

Ao ver o vulto colossal, minha mente ficou vazia de súbito. Eu... eu já vira aquela imagem divina antes... Ela... ela era a Senhora Meng!

Esfreguei os olhos e olhei de novo: era mesmo a Senhora Meng.

Sob a sombra gigantesca, surgiu uma frase: “A divindade Meng manifesta-se, infinita como o mar”.

Não havia dúvida: era a Senhora Meng!

— É a Senhora Meng — murmurei.

Yuantong respondeu com um “Hmm”: — Faz tempo que percebo algo estranho. Uma divindade não deveria exalar tamanha aura maléfica. He Qingyou e seu avô, na verdade, sempre prestaram culto não a uma divindade comum, mas à Senhora Meng. Ofereciam ossos e escamas de dragão a ela, buscando riqueza e imortalidade.

Eu tremia dos pés à cabeça: — A Senhora... a Senhora Meng é tão maléfica assim?

Yuantong sacudiu a cabeça com gravidade: — No nível em que ela se encontra, já não podemos compreender seus atos. A moral humana não se aplica a ela; cada uma de suas ações segue seu próprio propósito, quase como as leis do céu. Dizer que ela é maléfica é injusto — o céu é imparcial, trata todas as coisas como palha.

— Mas... mas ela consente esse tipo de sacrifício, exigindo o sangue de crianças — minha voz embargou.

Yuantong suspirou: — Para nós, são vidas, mas para os deuses, quem sabe o que somos?

Dentro da casa, He Qingyou ajoelhava-se repetidas vezes diante da sombra na parede, a cabeça sangrando de tanto se prostrar. De repente, ergueu o olhar: — Divindade, eu entendi! Já sei como encontrar o dragão, preciso sacrificar crianças, não é mesmo?

As chamas tremularam, mas ninguém respondeu. O quadro da Senhora Meng e a sombra na parede tornavam o ar irrespirável de tão sombrios.

He Qingyou saltou da cama, o olhar enlouquecido, parado como se refletisse sobre algo, os olhos arregalados como de boi.

De repente, muitos gritos vieram do lado de fora: — A enchente chegou! Corram, a enchente está vindo!

Yuantong virou-se bruscamente: — É ruim!

Olhei também e, ao ver, quase desmaiei de susto. Não sei quando, mas uma enchente avassaladora tomou o vilarejo, as ondas rugiam até o céu.

Era uma água estranha: chegou até a porta do pátio, mas não invadiu.

Lá dentro, He Qingyou ouviu o alvoroço e correu para fora. Yuantong puxou-me para um canto e disse baixinho: — É minha força que está segurando a água desta visão. Daqui a pouco soltarei, e a enchente vai entrar. Fique junto de mim, não se assuste. Lembre-se: tudo isso é ilusão!

No exato momento em que He Qingyou cruzou a porta, Yuantong fechou os olhos e começou a recitar sutras. Com um rugido, a água rompeu a barreira e invadiu o pátio, uma onda imensa como um prédio de três andares, o barulho ensurdecedor.

Yuantong postou-se à minha frente, mãos unidas, olhos baixos, recitando. Eu estava paralisado de medo, as pernas bambas — jamais vira a natureza tão aterradora.

Ele murmurava: — Tudo é ilusão, tudo é como o orvalho, como o relâmpago. Com este coração alcanço a pureza; se a mente for pura até o extremo, veremos o mundo como terra pura, repleto de joias e luz; só então surgirão os Budas como grãos de areia...

Enquanto recitava, a onda desabou sobre nós. O mundo perdeu as cores, tudo virou escuridão.

Agarrei-me à túnica de Yuantong, fechei os olhos, como se estivesse no brinquedo mais assustador de um parque de diversões.

Tudo deve ter durado só uns segundos, até que ouvi Yuantong sussurrar ao meu ouvido: — Abra os olhos.

Abri-os devagar. Estávamos sentados no telhado de uma casa submersa, rodeados de água amarela, folhas, vigas, móveis flutuando, e até alguns cães pretos nadando tristemente.

O espaço onde estávamos mal dava para nos sentarmos. Então, não muito longe, apareceu um barco com He Qingyou e uma criança.

O menino devia ter oito ou nove anos, vestia roupas vermelhas esfarrapadas, típico de família pobre. Mas era esperto: sentado na proa, perguntou: — Irmão He, onde estão meus pais?

He Qingyou respondeu: — Não falta muito, logo sairemos daqui.

O barco passou perto de onde estávamos, mas os dois não nos viam.

He Qingyou cobriu os olhos do sol, olhou para os lados, o suor escorrendo na testa.

O menino também olhava ao redor, perguntando: — Irmão He, é por aqui mesmo?

He Qingyou largou o remo pesado e caminhou até o garoto. O rosto pálido como papel, respirava com dificuldade.

Pegou um cabo grosso, talvez de pá ou enxada, e o menino continuava: — Irmão He, minha mãe disse que depois deste inverno eu poderia ir para a escola, as ovelhas cresceram e podíamos pagar a matrícula. Mas veio a enchente, perdemos tudo... eu queria tanto estudar...

Nem terminou a frase: He Qingyou ergueu o bastão e desferiu um golpe brutal na cabeça do garoto.

O menino caiu na proa sem dar um pio, ficou imóvel por muito tempo.

He Qingyou se aproximou para conferir, mas o menino se virou, cobrindo a nuca com a mão ensanguentada, e perguntou, sem chorar, olhando-o como se não o reconhecesse: — Irmão He, por que me bateu? O que eu fiz de errado?

He Qingyou desabou, lágrimas escorrendo: — Eu... eu não queria, mas não tenho escolha. Preciso encontrar o dragão, só posso fazer isso sacrificando você...

— Não me machuque, por favor... eu só queria estudar, voltar para a escola. Mamãe prometeu que depois do inverno eu poderia ir... — O sangue já manchava a mão do menino.

He Qingyou chegou mais perto, fechou os olhos para não ver, e bateu, golpeando o menino várias vezes enquanto murmurava: — Me perdoe, me perdoe...

O menino não se mexeu mais, a proa ficou toda vermelha.

He Qingyou, trêmulo, largou o bastão na água e sentou-se ao lado do corpo, tentando respirar, mas o ar lhe faltava.

Eu e Yuantong assistimos a toda a cena em silêncio. Yuantong não mostrava qualquer emoção, nem compaixão, nem raiva — seus olhos eram como poços antigos.

Murmurei: — Então o menino não era filho de He Qingyou, mas a criança inocente que ele matou. Procurava os ossos do garoto para encontrar o dragão.