Capítulo 64: Venha, vou lhe contar sobre o teatro
— E se... — Huang Bo quis sugerir que Hao Yun liderasse o grupo.
Ele trabalhava com música e sabia o valor da canção “Outonal” que Hao Yun acabara de tocar e cantar. Além disso, nas três provas anteriores, Hao Yun havia superado todos do grupo com folga.
— Eu proponho que Hao Yun seja o líder, ele é o mais capacitado... — Wang Jia, sem se colocar à frente, indicou Hao Yun sem hesitar.
Inteligente!
Um dos examinadores, sem alarde, já lhe dava pontos por isso.
O tempo total era de apenas dez minutos. Se perdessem tempo discutindo por causa do líder, seria melhor nem escolher. Indicar o mais forte era inquestionável.
Assim, em poucos segundos, o líder estava definido.
A garota tinha uma boa visão do conjunto.
— Certo, vamos começar a bolar o enredo! — Hao Yun sabia que o tempo era precioso, então não recusou, nem tinha motivo para rejeitar essa oportunidade de se destacar.
Na época em que dormia na mesma casa que Jiang Wen, passavam os dias discutindo roteiros de filmes. Criar um enredo, para ele, não era grande coisa. Especialmente depois de atribuir a si mesmo um atributo de +80 em inteligência, sua mente estava ainda mais clara.
— Vou começar, e vocês me ajudam a completar. Primeiro, uma menina sai para comprar algo para a mãe... — Hao Yun olhou para a pequena An Xiaoxi, de voz infantil, e continuou: — Ela pergunta ao primeiro feirante quanto custa o quilo da melancia. O feirante diz que custa um e cinquenta, mas a menina responde que a mãe pediu para comprar a um real. O feirante pode reclamar, dizendo que não cobre nem o custo.
Depois, a menina vai ao segundo feirante e consegue comprar a melancia por um real o quilo. O primeiro pode mostrar certa indignação. Nesse momento, alguém passa apressado de bicicleta, levando um idoso. Acaba esbarrando num pedestre, que, ao recuar, tromba com a menina. O segundo feirante consola a menina.
O pedestre e o ciclista começam a discutir, empurrões acontecem e derrubam a barraca de frutas do terceiro feirante. Este exige compensação dos dois.
Isso chama a atenção de dois agentes municipais, e a mãe da menina também aparece...
Três feirantes, a menina e sua mãe, somam cinco pessoas. Depois, o ciclista e o idoso, a vítima da batida e os dois agentes municipais, mais cinco. Alguns têm mais destaque, outros menos, mas todos têm oportunidade de atuar.
Todos foram colaborando, enriquecendo o roteiro. Hao Yun, atento às sugestões, atribuiu rapidamente os papéis.
Parecia que ele privilegiava An Xiaoxi, dando-lhe mais falas. Mas, na verdade, o papel dela era o mais simples, praticamente ela seria ela mesma.
O verdadeiro destaque era o primeiro feirante.
Hao Yun decidiu entregar o papel a Huang Bo, dizendo a todos que, por ser feio, se não ficasse no papel certo, poderia prejudicar a nota do grupo.
Os demais papéis, Hao Yun deixou que escolhessem. O que sobrasse, ele faria.
Liderar junto não é o mesmo que mandar os outros irem à frente; mesmo que alguém se sentisse incomodado, vendo Hao Yun tão altruísta, não havia como reclamar.
O melhor seria pensar em como se destacar dentro do papel escolhido.
No fim, Hao Yun ficou com o segundo feirante: vendeu a melancia e amparou a menina que quase caiu. Um papel simples, sem muito espaço para brilhar.
Assim, roteiro e papéis estavam definidos em menos de cinco minutos — uma agilidade impressionante.
Depois, Hao Yun não se concentrou em seu próprio papel. Só por ter criado o roteiro e distribuído os personagens, já garantiria a maior nota da sala.
O teto já estava lá; não adiantava se esforçar demais.
Era melhor se preocupar com o “companheiro problemático”.
— Bo... digo, irmão Bo, você está seguro com esse papel?
Aquele já era o terceiro exame dele. Se tivesse um mínimo de talento, já teria passado.
Na Academia de Cinema de Pequim até olham para a aparência, mas Jiang Wu também passou, não foi?
Aliás, Jiang Wu, Huang Sanshi e o atual examinador Wang Jinsong foram colegas de classe.
Feio e sem talento, Hao Yun precisava ajudar Huang Bo a não prejudicar o grupo.
— Não sei... — Huang Bo já estava anestesiado de tantas desilusões.
Na verdade, já atuou em filmes, como “Suba, vamos!”, de Guan Hu, com bastante destaque, além de papéis menores em “A Imperatriz de Pés Grandes”, “O Buraco Negro” e outros. Mas o resultado era óbvio: ninguém sabia que ele era ator.
Confuso e inseguro, estava numa fase de profunda dúvida sobre si mesmo; sentir-se confiante seria estranho.
— Deixa eu te explicar a cena...
Hao Yun falou por dois minutos; vendo que o colega continuava apático, teve uma ideia súbita.
Ora, será que posso atribuir pontos de atributo a ele?
O sistema nunca dissera que sim, nem que não, e Hao Yun nunca pensara nisso. No passado, nunca tinha pontos sobrando para ajudar outros.
Agora era crucial.
Hao Yun não cursou o ensino médio, já esquecera quase tudo do fundamental; era praticamente um semianalfabeto. Só com autodidatismo, não tinha certeza se conseguiria mais de 300 pontos em 750 no vestibular.
Por isso, queria compensar na prova de habilidades artísticas. Se necessário, que a academia abrisse uma exceção com base na pontuação artística.
— Sinta de novo: você é um feirante. Suas mercadorias são ótimas. As melancias do vizinho são péssimas, por isso são baratas... — Hao Yun, enquanto falava, tirou do crachá de ator convidado um atributo de +100 em interpretação.
No crachá cabiam até 250 pontos de atuação. Antes, Hao Yun guardara 200 pontos do atributo de Chen Daoming, usados depois num comercial com Zhou Xun. Então, no set de “O Condor Atira”, completou com pontos do ator You Yong, que interpretava Ouyang Feng — ator de primeiro nível do Teatro de Drama Guo Jia.
O atributo de atuação dele não tinha o estilo marcante de Jiang Wen; por isso, ao dar 100 pontos para Huang Bo, não corria o risco de os examinadores acharem estranho — “Mais um pequeno Jiang Wen?”
— Acho que estou entendendo...
Huang Bo sentiu uma vontade súbita de se expressar.
— Ótimo! Vamos pensar juntos em como fazer — Hao Yun aproveitou a deixa.
Não precisava se preocupar com o efeito passar: duraria dez minutos.
— Deixa eu tentar...
Huang Bo começou a recuperar a confiança.
O maior efeito do atributo não era o bônus em si, mas a autoconfiança.
Com o atributo de um ator de primeiro nível, interpretar um feirante num esquete estudantil era fácil demais.
— Acho que você devia tentar usar o dialeto. Assim, disfarça os pontos fracos; feirante falando dialeto é normal — Hao Yun sabia que o maior problema de Huang Bo era o mandarim.
Ao discutirem, decidiram usar o dialeto.
— Prontos? Vai começar! — O responsável pelo exame controlava o tempo; ao sinal, todos se posicionaram conforme a orientação de Hao Yun.
Cinco minutos de apresentação.
An Xiaoxi entrou saltitante, curiosa, olhando para os lados, até que viu a barraca de melancia e correu:
— Quanto custa a melancia?
— Um e cinquenta o quilo, é da nossa roça... — Huang Bo iniciou sua apresentação no dialeto, lembrando o de Shandong.
Wang Jinsong, naquele momento, fitava Huang Bo com expressão séria.
Ele conhecia An Xiaoxi, vinda de uma trajetória de estudos no exterior, e Huang Bo também lhe era familiar. O formulário de inscrição estava diante dele.
Aquele era o terceiro ano consecutivo do aluno.
Wang Jinsong até pensava em, durante a entrevista, sugerir o curso de dublagem — afinal, dublagem também pertencia ao departamento de atuação, mas não baixaria a média de beleza da turma.
Talento é questão de época; beleza dura para sempre.
O que o impressionava agora era a naturalidade na atuação de Huang Bo.
Isso era fundamental.
Era uma linha divisória entre ator e celebridade.
Muitos profissionais, por toda a vida, jamais atingem essa naturalidade.
Um talento desses, se a Academia o rejeitasse...
Enquanto isso, o papel de Hao Yun também tinha espaço para se destacar. A menina não comprou a melancia de Huang Bo, comprou a dele; e ele ainda lançou um olhar provocativo para Huang Bo.
Huang Bo, percebendo, começou a resmungar.
Estava totalmente envolvido, reagindo com perfeição, dando vida ao feirante mal-humorado.
Depois, um colega simulou passar de bicicleta, outro fazia o idoso. Acabaram esbarrando em An Xiaoxi, que caiu.
Aqui houve um pequeno imprevisto. An Xiaoxi só precisava simular o tombo, mas caiu de verdade, de costas.
Deve ter doído, pensou Hao Yun.
Ele a ajudou a se levantar, a consolou, mas conteve-se de sacudir a poeira.
Enquanto isso, os dois rapazes começaram a brigar. Graças ao roteiro bem estruturado, todos tiveram espaço, sem disputas exageradas; assim, o esquete coletivo foi executado de ponta a ponta, encerrando-se de forma perfeita.
Os dez ficaram em linha, agradeceram aos examinadores e foram para a entrevista.
A entrevista era simples, apenas uma conversa informal. Perguntaram, por exemplo, se An Xiaoxi se machucou na queda, por que Wang Jia escolheu o papel aparentemente apagado de mãe.
Enquanto perguntavam, já começavam a dar as notas.
Quando chegou em Huang Bo, os examinadores ficaram em dúvida: ele era feio, mas sua atuação foi, sem dúvida, a melhor.
Sim, a melhor atuação.
Hao Yun lhe dera 100 pontos de atributo em atuação; ele mesmo usara 150, mas ainda assim foi superado.
Independentemente das dificuldades, as notas tinham que ser dadas.
Depois de alguns outros, chegou a vez de Hao Yun, o verdadeiro líder.
— Já tinha visto esse tema antes? O roteiro ficou muito bom — um dos avaliadores perguntou do ponto de vista de direção.
O mérito do esquete não estava no enredo em si, nem no conflito dramático, mas no fato de dar espaço para todos, com naturalidade e grande nível de execução.
Para um esquete coletivo de dez pessoas numa prova artística, era de primeira linha.
— Nunca vi antes. Fiz uma ponta no novo filme do professor Lu Xun, “À Procura de uma Arma”, aprendi muito com isso — respondeu Hao Yun com sinceridade.
Os examinadores quase riram.
Que nada de filme do Lu Xun... Cada fio de cabelo seu exala o estilo de Jiang Wen; está claro que você aprendeu com ele.
O mistério estava desfeito.
Esse garoto realmente tinha uma ligação próxima com Jiang Wen.
Veio só para causar no exame.