Capítulo 0007 Comprar um Nokia
Quando os celulares surgiram, eram considerados raridades; agora, com o desenvolvimento da indústria, os preços já caíram bastante. Claro, essa queda é relativa. O preço inicial de mais de mil era equivalente ao salário de um mês, inacessível para a maioria das pessoas. Ainda assim, isso não diminuiu o entusiasmo geral. Até o final de julho, na China, o número de telefones móveis chegou a 121 milhões, ultrapassando os Estados Unidos e assumindo o primeiro lugar mundial.
Por isso, havia muita gente nas lojas olhando celulares. Embora, na maioria das vezes, se limitassem a babar diante do balcão. Ao entrar, Hao Yun não passou por nenhum constrangimento vindo dos vendedores. Ora, ele era tão bonito, impossível que alguém o menosprezasse. Se gritasse oferecendo companhia em troca de um celular, talvez nem todos os aparelhos da loja fossem suficientes. A atendente, ao saber que ele queria comprar um telefone, foi muito solícita em apresentar os modelos.
O Nokia 8250 realmente era bom, com sua tela azul brilhando intensamente entre tantos aparelhos de tela preta e branca. Mas, mesmo com desconto, custava três mil, um valor fora do alcance de Hao Yun. O Nokia 8310 era ainda mais caro e não tinha desconto. Como não podia pagar pelos modelos desejados e ainda teria muitos outros gastos, Hao Yun foi direto ao mais barato.
A moça lhe recomendou o Ericsson T28, lançado em 1999. Graças ao famoso slogan de Liu Furong — "Pelo meu futuro vou lutar, mas por você nunca desisti" —, o aparelho se tornou popular em todo o país. Sendo um modelo lançado há dois anos, agora custava apenas 1.100. O melhor é que, para impulsionar as vendas, ainda vinha com um kit: carregador de mesa, fone de ouvido e bateria — mesmo não sendo original, já quebrava um galho.
Hao Yun não hesitou e fechou a compra. Depois, foi ativar o chip. A própria loja oferecia esse serviço, com dois tipos de planos: um com mensalidade de 25 e tarifa de 0,25 por minuto, exigindo ainda o pagamento adicional de 10 para um fundo de apoio social; e outro sem mensalidade, porém com tarifa mais alta, 0,60 por minuto. Hao Yun pensou um pouco e ficou com o primeiro, já que pretendia usar mais.
Número novo: 139****4156.
Ligou primeiro para o assistente do diretor Wang Rui, da equipe de "O Conto dos Heróis", avisando que agora tinha telefone e pedindo para salvarem seu número, assim não precisariam mais ligar para a loja do velho Wu Lao Liu em caso de novidades.
A simpática vendedora também insistiu para trocarem contatos, dizendo que seria para questões de pós-venda. Hao Yun sentiu que o interesse dela ia além do atendimento técnico, mas, educadamente, salvou o número.
Com tudo resolvido, correu para se inscrever na prova de ator especial do sindicato dos atores.
Naquele dia, tinha acumulado vários atributos e estava confiante para passar na prova. Ao explicar o motivo de sua visita, o pessoal do sindicato ficou entusiasmado. O certificado de ator lançado no ano anterior tinha tido menos de cem inscritos, metade já havia abandonado a carreira de figurante. Este ano, veio a versão aprimorada — ator especial — mas a procura era baixa. Até então, ninguém havia cogitado prestar esse exame.
Pelas regras, era preciso ter o certificado de ator há pelo menos três meses para tentar a prova especial — Hao Yun não preenchia o requisito. Mas ninguém se importou. Era raro aparecer alguém interessado; se fossem impor exigências, corriam o risco de o candidato desistir antes de completar os três meses.
Os funcionários ainda explicaram gentilmente o conteúdo do exame. Para facilitar, aboliram o sorteio de temas na hora e o tempo de preparação de meia hora, além de condensar a seleção em uma única etapa, sem distinção entre prova inicial e final. O teste tinha três partes: recitação, interpretação sem objetos e atuação em dupla, ou seja, diálogo encenado. Hao Yun podia, inclusive, escolher os conteúdos específicos.
Para ele, aquilo era fácil. Tinha em mãos cem pontos em interpretação de texto herdados de Tang Guoqiang — mesmo que o diploma não fosse da área, para usar consumiria vinte pontos, ainda restando oitenta. Também não lhe faltava talento para atuar; passar na prova de ator especial seria simples.
“Vai ter certificado?” perguntou Hao Yun, mostrando o que realmente lhe interessava.
“Certificado?” O funcionário coçou a cabeça; nunca tinham pensado nisso.
“Tem que ter um certificado, senão como diferenciar de um figurante comum? Se eu for ao set e disser que não sou figurante, e sim ator especial, preciso de uma comprovação, não acha?”
Era o certificado que Hao Yun queria; sem isso, não faria sentido prestar o exame. “Amanhã a gente providencia um pra você, pode ficar tranquilo.” Determinado, o funcionário persuadiu Hao Yun a preencher o formulário de inscrição.
O único ponto negativo foi a taxa obrigatória de trinta, que o desagradou; de resto, ficou satisfeito com o atendimento.
A prova ficou marcada para a manhã seguinte, e ele sabia que os atributos acumulados não expirariam até lá. Para se preparar, Hao Yun foi a uma lan house buscar materiais adequados e copiou à mão o que precisava. Como sua moradia atual era bagunçada e pouco prática, além de abrigar seus segredos, procurou uma pensão barata próxima ao local. Já havia decidido: em breve, alugaria um novo quarto. Tinha ainda mil e trezentos em mãos, então não era impossível, só hesitava se deveria ou não ir à cerimônia de abertura de “O Conto dos Heróis”. Se fosse por conta própria, só a passagem de trem custaria mais de cem, então precisava economizar.
Dinheiro realmente é uma coisa ingrata.
Na manhã seguinte, às oito e meia, Hao Yun chegou pontualmente ao sindicato dos atores.
A prova começou às nove. Ao empurrar a porta e entrar, ficou surpreso com tantos avaliadores presentes — será que estavam entediados ou simplesmente sem nada melhor para fazer? Pensou consigo, mas manteve o respeito e se apresentou formalmente. Os dez avaliadores, ao saberem que ele já havia passado por mais de vinte sets em dois meses, assentiram, satisfeitos. Um jovem tão aplicado, e ainda por cima bonito, quem não iria gostar?
“Por que você quis ser figurante?”, perguntou uma das avaliadoras.
“Eu gosto de atuar.” Na verdade, queria ser famoso, ganhar muito dinheiro e casar com uma bela mulher, não com a viúva Wang da esquina da vila.
“Já tentou audições para papéis?”
“Tentei, há alguns dias fiz teste para um pequeno papel em ‘O Conto dos Heróis’, e o diretor Wang Rui me deu a oportunidade.”
Era importante mostrar seu currículo; do contrário, poderiam subestimá-lo. Alguns chamados especialistas julgavam mais pelo status do que pela competência. Ao ouvir que Hao Yun havia conseguido um papel em “O Conto dos Heróis”, os jurados ficaram boquiabertos. Era só uma pergunta rotineira, e ele realmente havia conseguido. E logo em um projeto grandioso. Entre as maiores produções do ano, “O Conto dos Heróis” era destaque; mesmo que ele tivesse conquistado apenas um papel secundário, já era notável, pois figurantes nem precisavam de teste — eram escolhidos no local.
Tão notável, e ainda assim se candidatando a ator especial.
“Ora, vamos começar”, disse o presidente do sindicato, que pretendia, com esse primeiro exame, reunir lições para regulamentar o processo. O foco nem estava em Hao Yun, mas agora a situação era diferente. Já que ele participou da seleção de “O Conto dos Heróis” e conseguiu um papel, não era apenas o primeiro inscrito para ator especial, mas também poderia ser o primeiro aprovado.
“Professores, posso começar pela interpretação sem objetos e depois fazer a recitação e o diálogo?” Hao Yun pediu.
Ele era sagaz, já prevendo como maximizar o uso de seus atributos. O talento de interpretação herdado de Tang Guoqiang durava só cinco minutos; se começasse pela recitação, talvez não desse tempo para o diálogo encenado. Trocando a ordem, poderia usar a habilidade nas duas etapas.
“Pode, comece pela interpretação sem objetos”, concordou o avaliador, já que aquele exame servia mesmo como teste experimental.