Capítulo 0036 Comer algo mais barato, pode ser?
— Irmão mais velho!
Hao Yun virou-se e viu um rapazinho rechonchudo de rosto redondo, olhando para ele com expressão preocupada.
Nos olhos simples daquele garoto, só havia uma pureza tola.
— O que foi?
— Irmão, neste set de filmagens, não se pode sentar em qualquer cadeira. Há muitas regras aqui. Se você quebrar alguma, o chefe dos figurantes é que paga o pato. Se ele for repreendido, pode acabar sendo banido do grupo, e você junto. — O gordinho falava com sinceridade.
— Obrigado. Você também é figurante? — Hao Yun se levantou da cadeira e acompanhou o rapazinho para o lado.
Aquele gordinho era engraçado, valia a pena puxar conversa.
Na verdade, aquela cadeira fora um presente de Jiang Wen; originalmente, tinha gravado o nome de Lu Yu. Hao Yun raspou com uma faquinha e pediu para Jiang Wen escrever outros dizeres:
“Para Hao Yun, desejo boa sorte e uma carreira brilhante! — Jiang Wen, setembro de 2001.”
— Isso mesmo, eu te vi agora há pouco. Você é tão bonito, por que não ficou na frente? — O gordinho perguntou, invejoso.
— Dá no mesmo, o pagamento é igual. — Hao Yun não revelou que tinha um papel.
No set, não faltam pessoas tentando fazer amizade.
— Não é igual não. Para nós tanto faz, mas você, sendo tão bonito, se ficar na frente, o diretor pode te notar. E se ele te notar... — O gordinho falava como quem tinha experiência.
— Você veio com seus amigos? — Hao Yun interrompeu.
— Sim, trabalhamos juntos como garçons num restaurante. De vez em quando, procuramos uns bicos. E você, está sozinho? — o gordinho perguntou.
— Mais ou menos. Ser garçom não é futuro. — Hao Yun não tinha muito o que fazer. Parecia que algo havia dado errado com o protagonista, e todos tinham de esperar.
Ser figurante e enfrentar esse tipo de situação era comum.
Às vezes, passava-se a noite inteira esperando, e nenhuma cena era gravada.
— Ai... nem sei o que fazer. Já fui segurança, mas o patrão achou que eu era muito novo. Depois, fui para um centro gastronômico, lavava pratos, matava galinha, depenava pato, trabalhei duro por seis meses, até ser promovido para cuidar das panelas de vapor. Mas nem esquentou o banco, fui demitido porque o irmão do chef queria o cargo... —
O gordinho suspirou, cobrindo o rosto, contando suas agruras.
— Você podia aprender uma profissão. — Hao Yun sugeriu, sem pensar muito.
Depois de terminar o curso técnico, Hao Yun estava um pouco melhor, mas também tinha feito de tudo: supermercado, restaurante, linha de montagem, hospital psiquiátrico...
— Eu tentei, fui para Yanqing aprender solda. Aguentei dois meses de sofrimento, depois fugi, nem me pagaram. Cheguei a andar de ônibus sem ter como pagar. O cobrador gritou comigo e eu chorei... — O gordinho parecia pensar que Hao Yun era igual a ele, alguém que passou por muitos apertos, e por isso começou a se abrir.
Ao olhar para os sapatos de couro, já abertos na ponta, Hao Yun sabia que ele não mentia.
Além disso, ele compreendia o gordinho.
Às vezes, as pessoas precisam desabafar, mas com quem? Se contar à família, eles só se preocupam mais. Aos amigos, eles podem achar que você quer dinheiro emprestado.
A solução de Hao Yun era encontrar um canto isolado, buscar uma árvore e confidenciar seus pesares a ela.
Agora, ele era a árvore do gordinho.
Depois que o dia de gravação acabasse, cada um seguiria seu rumo, e ninguém se lembraria de ninguém.
Hao Yun apenas escutava, fazendo uma pergunta ou outra, sentindo-se solidário com o destino de ambos.
Todos vinham de lugares pobres.
Na casa de Hao Yun, o pai era doente; na do gordinho, havia muitos irmãos e multas por filhos demais.
A diferença era que Hao Yun pôde estudar dois anos num curso técnico, enquanto o gordinho, sem ter como pagar a mensalidade de 68 yuans do ensino fundamental, saiu para trabalhar aos quatorze, quinze anos.
— Ah, a propósito, como você se chama? — O gordinho, depois de tanto falar, sentia-se melhor.
— Eu? Meu nome é Hao Yun. — Ele gesticulou no ar, mostrando como se escrevia.
— Que nome bonito! O meu é Yue Longgang. Qualquer dia te convido para... para comer um churrasco. — As últimas palavras saíram com esforço.
— Que qualquer dia, que nada! Hoje à noite, depois da gravação, a gente se encontra aqui. — Hao Yun caiu na risada.
Esse papo de “qualquer dia” não existe.
Ele nem tinha o número do Hao Yun.
— Sério? Bem... mas podemos comer num lugar mais barato? — O gordinho jamais imaginou que Hao Yun toparia jantar logo naquela noite.
O salário dele só sairia em alguns dias.
— Claro. Você escolhe o lugar e traz seus amigos.
Do outro lado, a produção já chamava para os lugares. Já passava das onze, e o protagonista estava quase entrando em greve.
Enquanto andavam, Hao Yun aconselhou: — Cara, pense bem no que quer da vida. Ser garçom não é futuro, a não ser que você queira abrir um restaurante.
— Já pensei nisso, mas aqueles clientes, só porque têm algum dinheiro, tratam a gente como lixo. Servi-los é humilhante demais. — Yue Longgang suspirou.
— Servir os outros é assim mesmo. Hoje você se sente humilhado, mas se ficar rico, quem te servir pode ser tratado igual, ou pior ainda.
— Eu jamais faria isso! — Yue Longgang afirmou com convicção.
Quando a gravação terminou, Hao Yun pediu que Yue Longgang esperasse um pouco; precisava devolver a cadeira.
Os amigos de Yue Longgang receberam vinte e cinco yuans de pagamento, todos estavam contentes.
Mas ao pedir dinheiro emprestado para pagar o jantar, a alegria deu lugar a uma certa sombra.
Felizmente, a amizade era forte; depois de alguma hesitação, todos emprestaram o dinheiro ao gordinho.
Hao Yun se reuniu ao grupo e foram juntos comer churrasco.
Antes de chegar, ele trouxe uma sacola.
— Achei este par de sapatos semana passada, fuçando lixo. Estão quase novos, só são menores que meu número, não servem para mim. Fica pra você. — Hao Yun entregou a sacola a Yue Longgang.
Na verdade, aqueles sapatos de couro tinham sido comprados por Wu Lao Liu. Ele comprou roupa, sapatos e relógio para Hao Yun, como um verdadeiro magnata.
Só que o sapato era pequeno demais; quanto mais Hao Yun usava, mais apertava. Usados não podiam ser trocados — sapato usado é sapato velho.
Hao Yun decidiu doar.
Sua compaixão não ia além disso.
Pedir-lhe dois mil para ajudar alguém, ele não daria nem um fio de cabelo.
— Achou no lixo? — Yue Longgang ficou surpreso.
— Sim. Aqui na capital, o povo é cada vez mais rico. Mas dei sorte: em todos esses anos catando recicláveis, nunca achei um sapato de couro em tão bom estado. — Hao Yun explicou.
Assim, os adolescentes não se empolgariam em largar tudo para catar lixo achando que era lucrativo.
Yue Longgang não acreditou totalmente, mas como já decidira pagar um jantar para Hao Yun, achou natural receber o presente.
Agradeceu mil vezes, mas, por orgulho, não calçou os sapatos na frente dos outros.
O sapato provavelmente seria maior que o seu pé, mas bastava pôr uma palmilha a mais.
Melhor que o par que já estava descolando.
Um grupo de jovens, churrasco, cerveja, desabafando sobre a dureza de deixar o interior e batalhar na cidade grande.
Se Hao Yun não tivesse sua “vantagem” e oportunidades, provavelmente estaria como eles: pobre, perdido no brilho da cidade, engolindo qualquer humilhação.
Isso é a vida.
Quando todos já estavam satisfeitos, Hao Yun, com a desculpa de buscar mais uma cerveja, foi até o caixa e pagou a conta — não dava para deixar aqueles meninos pagarem, por mais que também estivesse sem dinheiro.
Ficaram sem jeito, tentaram devolver o dinheiro, mas Hao Yun recusou, dizendo que na próxima vez seria a vez deles.
Despediu-se, afastando-se com a cerveja na mão.
Na noite fria e escura de outono, ainda se podia ouvir sua voz ao longe:
“Com leveza, você transforma seus sentimentos em poeira do destino; criança solitária, você é a bênção da criação...”