Capítulo 0019 – O que fazer quando o credor foge
— Certo, aprovado — disse Rui Wang, conferindo as horas: exatamente onze e meia da noite.
Assim, Hao Yun encerrou definitivamente sua participação em “O Atirador de Esculturas”.
Não haveria festa de encerramento.
Com seu nível de fama, o fato de a equipe ter disponibilizado um carro para levá-lo até a estação já era um agrado, por ter sido chamado por Ji Zhong Zhang para uma conversa.
Do contrário, talvez tivesse de ir embora junto com o caminhão de lixo.
A passagem de volta teria de sair do próprio bolso.
Dos mil yuan recebidos como cachê, quinhentos e cinquenta foram gastos com a anuidade do clube de equitação e o exame, duzentos no exame de arco e flecha, e o resto com a passagem de volta; basicamente, o dinheiro evaporou.
Ao chegar ao Hengdian, Hao Yun foi direto “para casa”.
O velho gordo, Xianchun Zhang, e o velho magro, Xiande Zhang, estavam ambos em casa. Eles tinham aposentadoria e ainda foram recontratados por Hengdian — era de causar inveja.
— Como foi a filmagem? — perguntou o velho magro.
— Foi razoável, mas não sei bem o que fazer a seguir. Neste trabalho, interpretei Yin Zhiping, um figurante em “O Atirador de Esculturas”, apenas duas cenas. Ji Zhong Zhang perguntou se eu gostaria de fazer Yun Zhonghe em “Dragão Celestial”. — Hao Yun esperava conseguir algum conselho dos veteranos.
Ambos eram velhos raposas dos bastidores do audiovisual.
Tinham mais histórias vividas do que ele, sal comido na vida.
— Viajar tanto para fazer só o Yin Zhiping... — resmungou o velho magro.
— Já é melhor que nada! Afinal, é um grande projeto — discordou o velho gordo, ponderando: — Yun Zhonghe tem bem mais cenas do que Yin Zhiping. O que te deixa hesitante?
— Não me incomodo em interpretar um ladrãozinho, mas tenho medo de ficar marcado e só receber papéis assim no futuro.
Se Ji Zhong Zhang insistisse para que Hao Yun fizesse Yun Zhonghe, ele não recusaria, mas aceitar sem reservas era outra coisa.
Aceitar de bom grado? Que aceite quem se chama Bom Grado.
— Acho que você está enganado — retrucou o velho magro, impiedoso: — Só corre esse risco se o seu ladrãozinho for tão marcante que vire referência. Com seu nível atual, está longe disso.
— Exato. Se um dia acontecer, é só fazer um papel de magnata dominador para apagar a marca — acrescentou o velho gordo.
— Magnata dominador tem esse efeito? — Hao Yun ficou surpreso.
— Chama-se combater o veneno com veneno — riu o velho gordo.
— Teve mais alguma coisa interessante nessa viagem? — o velho magro demonstrou certo espírito fofoqueiro.
Assim, Hao Yun contou sobre Guanpeng Li interpretando um bobalhão, Qinqin Jiang dizendo à imprensa que estava preocupada com a personagem Huang Rong de Xun Zhou virar motivo de chacota, e também sobre aprender equitação na estepe.
Os dois velhos ouviram com grande interesse.
— Já ligou para Lu Chuan? — quis saber o velho magro.
— Liguei. Disseram para eu entrar direto na equipe dia dez de setembro. O papel vou saber depois — Hao Yun já tinha feito esse contato.
— Ótimo, quando entrar, faça seu melhor. Se acontecer algo interessante, venha nos contar — o velho magro assentiu várias vezes.
— O que pode acontecer de interessante? — o velho gordo não entendeu.
— Jian Wen e Ning Jing juntos de novo, Han Sanping fazendo participação, Lu Chuan, um novato, dirigindo Jian Wen... Só de pensar já dá arrepios — o velho magro se divertia com a desgraça alheia.
— Você já vai fazer oitenta anos e ainda fofoca desses garotos... — o velho gordo parecia ter esquecido que há pouco também estava se divertindo.
— O pai do Lu Chuan é Lu Tianming, acha que vai ter medo de Jian Wen? — Hao Yun só conhecia Jian Wen de ouvir falar, principalmente por seu banimento de cinco anos após “Os Demônios Vieram”.
Se fosse realmente tão poderoso, teria sido banido?
Se todos chutam o que está no chão, por que não chutariam ele?
— E daí ser filho de Lu Tianming? O investimento desse filme foi todo conseguido por Jian Wen — o velho magro sabia das coisas.
Após concluir o mestrado em direção na Academia de Cinema de Pequim, Lu Chuan entrou para o Estúdio de Cinema de Pequim.
Ser filho de Lu Tianming não mudava o fato de que ele não teria ascensão meteórica. Cinema é cinema, nem todos podem ser Chen Kaige.
Depois de terminar o roteiro, achou que só Jian Wen poderia interpretar. Pediu a alguém para entregar o roteiro a ele.
Jian Wen, que já havia atuado como o grande eunuco Li Lianying, sentiu uma conexão imediata com “Em Busca da Arma”.
Após cinco anos banido, só lhe restava voltar discretamente à atuação.
Mas seu prestígio não diminuiu com o banimento; pelo contrário, hoje em dia ser banido era até considerado ousado, muitos o viam como um valente.
A entrada de Jian Wen causou furor no Estúdio de Cinema de Pequim, que logo abriu todas as portas.
Em 1999, o estúdio e outras sete empresas do ramo fundaram o Cinema Nacional, com Han Sanping, o “chefe da sexta geração” do estúdio, como primeiro presidente.
Quando Jian Wen colocou sua reputação e contatos de décadas para garantir Lu Chuan, Han Sanping foi pessoalmente ao sul levantar fundos, aproveitando para fazer uma ponta no filme.
Esse era Jian Wen.
Fez o que nem o próprio Lu Tianming conseguiu.
Além disso, Jian Wen declarou: “Esse roteiro é de Lu Chuan, o filme é dele. Não vou tomar o lugar dele. Se precisarem de alguém para garantir, posso ser produtor executivo” — ele só estava proibido de dirigir, o resto não era problema.
Lu Chuan ficou tão tocado que escreveu um texto longo, comparando-os a mestre e discípulo, chamando o encontro de “maior milagre da vida”.
Dez de setembro, início das filmagens — esse seria o próximo trabalho de Hao Yun.
Porém, ainda faltavam vinte dias, pelo menos duas semanas de folga para Hao Yun.
Descansar estava fora de cogitação.
Com a situação financeira tão apertada, até respirar dava sensação de culpa.
Hao Yun planejava procurar o Velho Wu para saber se havia algum trabalho de figurante disponível.
Se conseguisse aparecer em primeiro plano, talvez ganhasse cem ou cento e oitenta por dia.
Chegando à loja de adereços do Velho Wu, Hao Yun ficou perplexo.
A loja estava fechada.
Não só o portão principal estava trancado, como havia uma folha branca colada na porta de enrolar, com o aviso “Loja disponível para transferência de aluguel. Interessados, favor contatar XXX”, seguido de um número de celular.
O Velho Wu não tinha celular, e agora com a loja fechada, nem o telefone fixo adiantava.
Hao Yun pegou o telefone e ligou para o número do anúncio. Como esperado, era o proprietário.
Ao perguntar sobre o Velho Wu, o proprietário, percebendo que Hao Yun não era um interessado na loja, respondeu impaciente que ele tinha voltado para a terra natal e desligou na cara dele.
Que situação: há alguns dias, emprestou uma quantia e agora o devedor sumiu — o que fazer?
Hao Yun ficou parado, ao vento, perplexo diante da loja.
Só lhe restava voltar e estudar. Não apenas livros de atuação: se quisesse tentar os três grandes institutos no ano seguinte, teria que retomar as matérias gerais.
Mesmo que a nota de corte fosse baixa, ainda precisava alcançá-la.
Como formado em escola técnica, Hao Yun não tinha muita confiança.
À noite, foi ao carrinho de comida. Viu um gênio de Tsinghua fritando legumes e aproveitou para tirar proveito.
Com atributo de sabedoria em alta, o rendimento nos estudos era várias vezes melhor.
Depois de comer, foi ao bar: primeiro, “roubar” atributos; ao conseguir três porções de técnica vocal, já podia subir ao palco cantar.
Três porções, pois a maioria dos atributos dura três minutos; três minutos não bastam para uma música inteira, mas três porções garantem duas músicas sem problema.
Na verdade, cantar em boate rende mais e as pessoas são mais “fáceis de... colher” — quer dizer, de “roubar” atributos.
Mas as boates costumam ser muito desordeiras, e Hao Yun temia que, se um dia ficasse famoso, alguém usasse esse passado contra ele.
— Velho Shen, esquenta uma taça de vinho e traz um prato de favas com erva-doce! — Depois de cantar, Hao Yun foi ao balcão cobrar o pagamento e, de quebra, sondar novidades.
O dono do bar se chamava Zhengqi Shen, nome que destoava do ambiente “pecaminoso” do bar, por isso todos o chamavam de Velho Shen.
— Favas não tem, vinho eu te dou. Quando voltou? — Velho Shen pegou um copo, serviu um pouco de vinho e entregou uma nota de cem para Hao Yun.
— Voltei hoje ao meio-dia — Hao Yun guardou a nota sem cerimônia e perguntou: — Conhece o Velho Wu?
— Nunca ouvi falar. Qual o nome verdadeiro dele? Não deve ser só Wu, velho Wu, né? — Velho Shen parou de polir copos.
— Não sei ao certo, ele tinha uma loja de adereços na Rua Jiangnan — Hao Yun coçou a cabeça.
Será que algum pai teria coragem de registrar o filho como Velho Wu?
— O que houve, ele te passou a perna ou fugiu com o seu dinheiro?
— O contrário: eu pedi emprestado dois mil pra ele e agora ele sumiu. Situação mais estranha — suspirou Hao Yun.
— Dois mil não é pouca coisa. Confie: assim que resolver os problemas, ele vai te encontrar, nem que seja no fim do mundo, para cobrar — Velho Shen parecia experiente.
— Espero que sim — Hao Yun realmente estava preocupado com o Velho Wu.
A esposa dele não era flor que se cheire, chegou a tentar seduzir o próprio Hao Yun.
E se tivesse acontecido alguma coisa...