Capítulo 24: Você Sofre de Delírios de Perseguição

Este astro do cinema só quer passar em concursos Senhor Jiang Abau 3655 palavras 2026-01-30 12:12:35

Quando quase todos os atores já estavam presentes, Jiang Wen decidiu organizar uma leitura coletiva do roteiro.

Ele aprendera esse método com Xie Jin durante as filmagens de “A Cidade das Lótus”. Não era para todo mundo sair mudando o roteiro — nada disso. Os roteiros de Jiang Wen eram revisados incessantemente, desde a versão final até o próprio dia das gravações. Mas essas alterações, basicamente, eram uma performance solo dele. O grupo de direção, parte da equipe e alguns dos principais atores se reuniam para ler o roteiro juntos, apenas para alcançar uma compreensão mais profunda da obra.

A razão principal era que os filmes de Jiang Wen eram bastante herméticos; muitas falas tinham significados ocultos, ele gostava de deixar espaços em branco para o público, insinuar sem revelar, sempre com um véu de mistério. Contudo, o que funciona para o público não serve para os atores. Se eles não compreendem minimamente o texto, como poderiam atuar? Quando se ouve que, em certas campanhas de divulgação, os atores dizem não saber o que estavam interpretando, é porque estão subestimando a inteligência do público.

Diziam que o roteiro de “Procurando a Arma” já tinha sido reescrito nove vezes. Hao Yun podia atestar isso — só as grandes mudanças que ele presenciou ultrapassavam esse número. O mais curioso é que o principal responsável pelas alterações não era Lu Yuan, o diretor e roteirista, mas sim Jiang Wen! E não eram apenas detalhes; até o desfecho principal podia ser modificado.

A versão de Lu Yuan era mais próxima do romance original — uma história crua e realista sobre um policial que perde a arma e, no fim, encontra tanto a arma quanto o culpado. O criminoso, na história, era o “Velho Espírito da Árvore”: um homem mutilado em combate, perseguido e marginalizado pela sociedade, ao mesmo tempo digno de pena e repulsa. É claro que isso não agradava Jiang Wen. Mudou tudo.

O assassino tornou-se Liu, o Gago, um vendedor de sopa de carneiro, personagem quase irrelevante, típico “suspeito menos provável” dos romances policiais. Ele alegava que sua família fora destruída pelo álcool falsificado vendido por Zhou Xiaogang, e que roubara a arma apenas por vingança. No final do filme, Liu é capturado por Ma Shan, mas acidentalmente mata o policial ao disparar a arma. Ma Shan, por sua vez, morre como herói, realizando um feito grandioso ao custo da própria vida. Seu espírito então sai do corpo, recupera a arma perdida, pune o verdadeiro criminoso e se liberta de seu fardo, cumprindo sua missão.

O resultado era uma verdadeira tragédia épica, um hino heroico do homem comum. Mas mesmo assim, o roteiro corria o risco de se tornar trivial, então Jiang Wen começou a transformar o estilo da narrativa, convertendo “Procurando a Arma” de um suspense convencional em uma obra surrealista, onde o mundo imaginário do protagonista se sobrepunha à realidade, tudo envolto numa atmosfera de mistério e ilusão.

Ninguém em sã consciência receberia esse roteiro e não ficaria confuso. Jiang Wen queria uma leitura coletiva, então assim seria.

— Ainda não dá, precisa raspar a cabeça — comentou Jiang Wen, olhando para Lu Yuan.

— O quê? Raspar a cabeça? — Lu Yuan sentiu a vida perder o sentido, achando que era só uma brincadeira. Ele cultivara aquele cabelo comprido por anos, sempre com um cigarro na boca, encostado descontraído na porta, exalando um ar artístico. E agora queriam que ele virasse um ovo careca? De jeito nenhum! Sabia lá quanto tempo levou para o cabelo ficar assim. Nem morto cortaria.

Mas Jiang Wen se manteve irredutível; sem a cabeça raspada, não haveria leitura do roteiro, e o trabalho do grupo ficou parado dois dias inteiros. O chefe de produção ainda conversou com Lu Yuan, explicando que em toda gravação Jiang Wen exigia que a equipe principal raspasse a cabeça, e alguns atores e técnicos acabavam aderindo. Não era nada pessoal, que ele não se sentisse perseguido. Já era setembro e as filmagens começariam no dia dez.

Diante disso, Lu Yuan logo cedeu. Saiu à noite e voltou com a cabeça brilhando. Hao Yun perguntou a Jiang Wen se ele também deveria cortar. Jiang Wen explicou que seu personagem era um reincidente, provavelmente já teria sido preso várias vezes, então fazia sentido raspar a cabeça agora; quando fosse gravar, o cabelo já teria crescido um pouco, ficando na medida. Hao Yun, sem hesitar, correu para raspar tudo.

Essa era uma qualidade que Jiang Wen apreciava em Hao Yun: nada de enrolação. Comparado a ele, Lu Yuan era um verdadeiro indeciso. Assim, uma trupe de cabeças raspadas trancou-se numa sala para dissecar o roteiro — como um bando de carneiros presos no curral. Era nesse ambiente que as faíscas das ideias surgiam com mais facilidade; a inteligência, ali, era colhida aos punhados, e Hao Yun não se furtava a aproveitar.

Durante o dia, ele absorvia tudo; à noite, estudava. A prova de aptidão para a Academia de Cinema era fundamental, mas as notas das matérias teóricas não podiam ser baixas. Imagina se, no futuro, ficasse famoso e descobrissem que só tirou duzentos pontos no vestibular? Viraria o “astro analfabeto”.

O filme começou a ser rodado em dez de setembro. A estreia das gravações foi ainda mais discreta que a de “O Herói Arqueiro”, que havia chamado uma legião de repórteres, alguns até caindo ao chão sem conseguir se levantar. Agora, ninguém da imprensa — só uma foto coletiva e o corte do bolo. Nesse tempo, oferecer bolo para todo o grupo já era um luxo, ainda que o elenco e a equipe fossem poucos.

— Hao Yun, Hao Yun, venha cá! — chamou Jiang Wen.

Quem mandava ali não era segredo: Jiang Wen trouxe o investimento, e com ele por perto, nem os produtores se preocupavam em enviar supervisores. A maioria dos atores vinha da Academia Central de Drama, ou eram colegas de classe ou irmãos de profissão de Jiang Wen. Aos olhos da equipe técnica, ele era uma estrela; ninguém sequer lembrava que o diretor era Lu Yuan, que olhava para Jiang Wen do lado, meio perdido.

Todos esperavam que Jiang Wen cortasse o bolo, mas, de repente, ele chamou Hao Yun, para espanto geral. Ninguém entendia por que escolher aquele rapaz desconhecido.

Depois da mudança de endereço da equipe, Hao Yun passou a ter um quarto só para ele, e os recém-chegados não sabiam que ele já havia dividido o quarto com Jiang Wen.

— Estou aqui — respondeu Hao Yun, que estava discretamente num canto, esperando sua fatia de bolo, sem imaginar que seria chamado.

— Seu nome é Hao Yun, não é? Venha cortar o bolo e nos traga sorte e paz — disse Jiang Wen, sem realmente acreditar nessas coisas, apenas querendo dar uma chance ao rapaz.

— Então vou cortar! — Hao Yun, já acostumado ao temperamento de Jiang Wen, sabia que ele detestava gente indecisa.

Lu Yuan, ao lado, não pôde evitar um semblante melancólico. Afinal, ele era o diretor!

Hao Yun pegou a longa faca de frutas, cortou o bolo em pedaços pequenos e, com a ajuda da equipe, distribuiu para todos. Só depois de terminar o serviço pôde, enfim, comer seu pedaço. Pensou que seria uma tarefa fácil, mas acabou servindo em pé, enquanto os outros comiam sentados — puro cansaço.

Jiang Wen — ou melhor, o diretor Lu Yuan — era rápido e eficiente. Assim que terminaram o bolo, começaram a gravação. Nada de fotos de divulgação, nada de provas de figurino. Hao Yun, sem cenas no início, aproveitava para estudar e, de quebra, absorver técnicas de atuação.

Já tinha aprendido muito com Jiang Wen, mas seu cartão de ator convidado só comportava 250 pontos de habilidade, e qualquer ponto que ficasse fora expirava em 24 horas.

Além disso, sempre que contracenava com Jiang Wen, precisava usar esses pontos — impossível acumular. Então, enquanto suas cenas não começavam, ele tratava de encher o cartão ao máximo.

Nesse filme, além de Jiang Wen e Ning Jing, havia muitos mestres da interpretação, pouco conhecidos do público em geral. Por exemplo, Wu Yujun, que fazia a esposa de Ma Shan, era formada na Academia Central de Drama e atriz de primeira linha do Teatro Nacional. Wei Xiaoping, intérprete do gago Liu, entrou na mesma academia em 1979, graduou-se em 1984 e ali permaneceu como professor do curso de direção. Liu Xiaoning, que fazia o papel de Chen Jun, também era da mesma escola. Shi Liang, o Zhou Xiaogang, era bacharel e mestre em Literatura Francesa pela Universidade de Línguas Estrangeiras e ainda se especializou em interpretação na Escola Franco-Americana de Teatro e Cinema.

Hao Yun tirava proveito de todos eles, acumulando atributos sem fim. Guardava alguns para uso posterior e gastava o excedente, pois ao usar aprendia ainda mais observando os mestres em cena.

Antes, Hao Yun era um figurante mediano; agora, destacava-se até demais. Mesmo sem os pontos extras, provavelmente conseguiria o papel de Yin Zhiping numa audição.

— Fique calmo, o romance original tem seus motivos, mas estamos fazendo arte cinematográfica, tudo precisa girar em torno da ideia central... — Hao Yun ouviu Jiang Wen aconselhando Lu Yuan com seriedade e percebeu que Lu Yuan logo cederia.

Naquela manhã, Hao Yun sem querer ouvira Lu Yuan falando com o pai ao telefone. Do outro lado, o homem ouvira Jiang Wen gritar “ação!” no set e, preocupado, perguntou por que não era o próprio filho dando as ordens. Lu Yuan, com a voz embargada, quase chorou. Segurando as lágrimas, garantiu ao pai que o “tio Jiang” cuidava dele, que todos o respeitavam, e que só estava ajudando os outros atores a ensaiar.

Não era verdade que Jiang Wen tinha tomado o cargo de diretor dele.

Um drama para quem ouvia, uma tristeza para quem via.

Mas Hao Yun não tinha paciência para sentir pena de Lu Yuan. Que sentido teria? Ele adaptou um romance alheio sem grandes mudanças, entregou o roteiro para Jiang Wen por um contato influente. Jiang Wen abraçou o projeto, garantiu o investimento, chamou atores de alto calibre. O roteiro foi reescrito ao menos nove vezes, já não lembrava em nada o original. Cuidava de cada cena, de cada enquadramento, e certamente se dedicaria à montagem final.

Sem roubar o título de diretor nem tomar o projeto para si, Jiang Wen trabalhava nos bastidores, sem alarde. Se Lu Yuan viesse de origem humilde, jamais teria sonhado com uma produção tão cheia de imaginação.

Além disso, ao olhar de Hao Yun, mesmo sem ser especialista, o nível de Jiang Wen era muito superior. Lu Yuan tinha certo talento, mas ainda era inexperiente.

Jiang Wen logo o convencia, ocupava o lugar de diretor, chamava os atores e alterava aquela cena que já haviam gravado várias vezes sem encontrar o tom certo.

Esse mesmo homem, quando trabalhou com Zhang Yimou em “Sorgo Vermelho”, nunca cedia. Irritou tanto Zhang Yimou que ele bebeu várias tigelas de licor de sorgo por puro nervosismo.

Agora, Lu Yuan só chorava, o que nem se comparava.

Ele chegou a ligar para Wang Zhongjun, chefe de Hua Yi, choramingando sobre o quanto Jiang Wen o “fazia sofrer”, e isso só o fez chorar ainda mais, sabe-se lá o que ouviu do outro lado. Hao Yun não testemunhou a cena, mas ouviu os boatos pela equipe.