Capítulo 0027: Fingir ou não fingir a loucura
Depois de terminar as gravações de “Em Busca da Arma”, Hao Yun partiu imediatamente de volta para Hengdian. Wu Lao Liu ligou para ele, pedindo que voltasse ao trabalho, dando a entender que havia conseguido algum serviço para ele. Hao Yun sentia-se como se estivesse sendo forçado a vender seu talento, quase como uma cortesã obrigada a trabalhar.
Além disso, seus certificados de arco e flecha e equitação também haviam chegado pelo correio, e ele mal podia esperar para descobrir que vantagens esses títulos poderiam lhe trazer.
No final de setembro, em Jiangsu e Zhejiang, as noites já não eram mais tão quentes. Hao Yun havia recebido cinco mil yuans de cachê do grupo de filmagens de “Em Busca da Arma”, então pôde se dar ao luxo de pegar um táxi.
Em vez de voltar para a casa dos dois velhos, foi direto ao apartamento temporário alugado por Wu Lao Liu. Wu Lao Liu não era nenhum tolo: depois de flagrar sua mulher com outro homem, não deixou nem um centavo a mais para ela na partilha dos bens. Ainda tinha facilmente uns dez mil yuans. Em 2001, quando a renda média anual era de apenas dez mil, ele definitivamente não era considerado pobre.
Alugara um apartamento de um quarto e sala, pagando quatrocentos por mês. Se Hao Yun não tivesse um lugar melhor para ficar, poderia muito bem ter se mudado para lá.
— Aqui estão dois mil de volta para você — disse Hao Yun, tirando um maço de dinheiro. Era justo retribuir quando se ganha, mesmo que fosse o avô quem estivesse devendo.
— Fica com esse trocado, depois acerta. Me conta como foi a gravação — respondeu Wu Lao Liu, empurrando o dinheiro de volta sem dar importância.
Mais um dia sendo mimado por Liu, o magnata. Hao Yun guardou o dinheiro e contou como foi a experiência.
— Jiang Wen dormiu no mesmo quarto que você! — exclamou Wu Lao Liu.
— E ainda te deu uma cadeira de presente! — continuou ele, incrédulo.
— E te ensinou a atuar? — perguntou, pasmo.
— Não faz sentido, ouvi dizer que Jiang Wen é um cara durão, e você nem parece mulher para chamar a atenção dele… — Wu Lao Liu se espantava tanto que Hao Yun quase quis brigar com ele.
No fim das contas, tinha os certificados, mesmo que matasse alguém, talvez pegasse uma pena mais branda.
— Também conheci Han Sanping — comentou Hao Yun.
— Han Sanping? Caramba! Teve algum contato com ele? — Wu Lao Liu quase não acreditava.
Esse grupo de “Em Busca da Arma” era mesmo impressionante.
— Não, não consegui trocar uma palavra sequer com ele, forçar uma aproximação só me faria parecer ridículo — Hao Yun não se arrependia, tinha seu orgulho.
— Esquece, não vamos tentar voar alto, melhor ir devagar e com segurança — Wu Lao Liu se acalmou.
— Liu, você me mandou voltar dizendo que tinha trabalho, não é? — Se não fosse pela insistência de Wu Lao Liu, Hao Yun teria ficado mais um pouco, com tudo pago e ainda aprendendo atuação com Jiang Wen.
— Tenho sim, mas não é lá essas coisas — admitiu Wu Lao Liu, um pouco constrangido. Conhecia muita gente, mas os bem-sucedidos não o levavam a sério, e os fracassados não podiam ajudar. Quem está em ascensão não olha para trás.
— Não tem problema, desde que não tenha que vender meu corpo... Ou, se pagarem bem, até penso no caso — Hao Yun estava realmente sem dinheiro. Um homem sem dinheiro não passa de um fantasma.
— Um dos trabalhos é cantar num casamento. O noivo queria um cantor jovem e bonito para cantar três músicas, mas como a cerimônia é numa aldeia e eles só querem pagar dez mil, ninguém quis ir tão longe. Eu disse que você é ator e também canta num bar famoso, eles aceitaram. Agora, depende se você quer ou não — explicou Wu Lao Liu.
— Dez mil para cantar? Preciso ir vestido? — Hao Yun pensou que, por um mês gravando “Em Busca da Arma” a quase dois mil quilômetros de distância, só ganhara cinco mil.
— Ninguém pediu para você cantar pelado. Esse serviço já está fechado — Wu Lao Liu respondeu, sem paciência. — O outro é numa série de TV, dirigida por Teng Huatao, com Chen Kun, Yang Xue, Lin Xinru como protagonistas…
— Que oportunidade! Tem certeza de que posso participar? — Hao Yun ficou surpreso.
Teng Huatao era famoso, em parte por ser filho de um grande diretor, em parte pelas fofocas de seus romances com atores famosos. Chen Kun ficou conhecido no último ano da faculdade por sua participação em “Como Neblina, Como Chuva, Como Vento” de Zhao Baogang. Lin Xinru era a estrela de “A Princesa Porcina”. Yang Xue, embora só tivesse feito papéis secundários, era absurdamente bonita e agenciada por Wang Jinghua.
Com um elenco desses, se Wu Lao Liu conseguiu arranjar um papel para ele, nem que fosse de bobo, Hao Yun já se dava por satisfeito.
— Pode sim, só que o papel é meio complicado, é de um doente mental... — Wu Lao Liu evitou encará-lo.
Prometera fazer Hao Yun decolar, mas a dificuldade era muito maior do que imaginara.
— Um doente mental... — Hao Yun ficou atônito. Mas também não podia recusar, afinal, se aceitava papel de bobo, por que não de doente mental?
Com direção de Teng Huatao e um elenco desses, se não fosse um papel problemático, nunca teria chance.
— É um papel pequeno, as cenas são poucas, não leva nem um mês para gravar, termina em outubro e o cachê é de vinte mil! — Wu Lao Liu realmente queria que Hao Yun aceitasse.
Só pelo contato com Teng Huatao já valia. E ainda por cima poderia conhecer Chen Kun e Lin Xinru, todos jovens, quem sabe deixava uma boa impressão e era chamado de novo.
Mas não forçaria Hao Yun.
Afinal, interpretar um doente mental não é para qualquer um, muitos rejeitariam.
— Certo, aceito, vai ser meu terceiro papel oficial — Hao Yun foi direto, aceitou sem hesitar.
Já tinha passado um bom tempo num hospital psiquiátrico. No início do curso técnico, tinha trabalhado quase um ano como auxiliar, e depois participara de uma peça sobre doentes mentais.
Os dois combinaram a agenda. Hao Yun pretendia, nos próximos dias, tentar alguns papéis de figurante. Mesmo que pagassem só trinta por dia, ainda era dinheiro, além de servir para treinar atuação e desenvolver novas habilidades.
Wu Lao Liu achava desnecessário, mas como agente, apoiava o desejo de Hao Yun em trabalhar.
No dia seguinte, Hao Yun foi até a casa de Zhang Xianchun com a mochila nas costas.
O bom relacionamento com Jiang Wen e Lu Qiong devia-se em grande parte aos dois velhos, e Hao Yun era muito grato por isso. Levou vários presentes, simples, mas escolhidos com carinho.
Com a chave em mãos, entrou e viu o velho magro, Zhang Xiande, praticando tai chi no quintal. Os movimentos eram precisos, claramente influenciados por mestres.
A chegada de Hao Yun não o atrapalhou. Só depois de terminar os exercícios, o velho exalou fundo e parou.
O velho também estava de saída, e como o outro senhor não estava em casa, não conversaram muito.
Antes de sair, entregou a Hao Yun o pacote com os certificados de equitação e arco e flecha. O endereço estava correto, por isso o carteiro havia deixado ali.
Hao Yun levou o pacote para seu quarto e abriu com todo cuidado.
Primeiro, abriu o envelope com o certificado de arco e flecha. O endereço do remetente confirmava que era de uma instituição oficial.
Associação Nacional de Arco e Flecha.
Dentro, não havia apenas o “Certificado de Instrutor de Arco e Flecha – Nível Inicial”, mas também um distintivo. Por duzentos yuans, estava mais do que satisfeito.
No momento em que pegou o certificado, o aviso do sistema apareceu!