Capítulo 0032: Aprendendo Violão às Custas do Estado
As cenas de “cama” com Ana Neve foram finalizadas em cerca de dois dias. Além de o talento dela ser razoável e de Henrique não precisar de grandes habilidades de atuação, o padrão das novelas românticas era bastante flexível. Em alguns takes, Henrique chegou a questionar como o diretor havia aprovado aquilo. Provavelmente para acelerar o cronograma.
Já que o diretor aprovara, Henrique não tinha motivos para discordar. Se, naquela situação, resolvesse insistir numa interpretação mais rígida, seria certamente mandado embora. No terceiro dia, Henrique finalmente teve uma cena ao ar livre: sem camisa, parado no terraço sob o sol, como um investidor esperando bons resultados. Não exigia técnica alguma…
A experiência que Henrique acumulou naquele ano foi de grande ajuda; ele era capaz de interpretar um personagem com transtornos mentais de maneira tão profissional que até o diretor se impressionou. “Muito bom, muito bom. De que escola você se formou?” perguntou Teodoro Huatão, que não conseguia ignorá-lo facilmente.
Teodoro já conhecera muitos atores talentosos, mas poucos eram tão naturais e capazes de entregar mais do que o diretor pedia. Veja Ana Neve, por exemplo. Ela passou um tempo estagiando no principal hospital psiquiátrico da capital, estudou psicologia e patologia mental, mas sua atuação era apenas aceitável.
Em comparação, Teodoro admirava mais o talento genuíno de Henrique. “Estou me preparando para o vestibular da Academia Nacional de Cinema, até fui visitar a escola outro dia,” respondeu Henrique, agora decidido a prestar o exame. Apesar de preferir o estilo da Escola Central de Artes e, com os atributos extras, não teria dificuldade em ser aprovado, as restrições eram intoleráveis: só podia atuar a partir do segundo ano, e ainda dependia de autorização do professor. Henrique não conseguiria suportar isso.
“Quem sabe a gente vire colega de turma! Meu pai é da turma de 1964, eu da de 1991. Se passar, será da turma de 2002, hahah!” Teodoro estava de ótimo humor; normalmente, com seu orgulho de filho de diretor, não perderia tempo conversando com um ator tão iniciante.
“Só posso te chamar de veterano se eu passar, né?” Henrique coçou a cabeça e sorriu, um pouco constrangido.
“Facílimo, só ir lá e fazer a prova,” respondeu Teodoro com um gesto despreocupado, sem refletir sobre o motivo de Henrique querer cursar literatura ao invés da direção, como seu pai. Talvez a boa impressão tenha motivado Teodoro a convidar Henrique para jantar naquela noite.
Foram a uma churrascaria chamada Churrasco da Lívia, nada sofisticada, mas com movimento surpreendente; antes do anoitecer, todas as mesas já estavam ocupadas. Teodoro conduziu o grupo até um canto discreto. Com pouca luz, ninguém percebeu que eram atores conhecidos.
Era diferente do que Henrique imaginara; ele achava que celebridades só frequentavam restaurantes caros, no mínimo com salas reservadas.
No jantar estavam Teodoro, Ana Neve, Henrique, Cristina Cunha e Leopoldo Inverno. Leopoldo interpretava o velho Moisés na novela, com um papel pouco maior que o de Henrique. Com mais de quarenta anos, já tinha participado de muitos projetos como coadjuvante, além de ser ator de teatro, dublador e apresentador. Henrique já havia absorvido dele dois conjuntos de atributos: +40 em dicção e +30 em atuação, apenas por ter servido-lhe duas taças de vinho.
Não era necessário atuar para ganhar atributos de desempenho; há verdadeiros gênios da atuação na vida real, às vezes até crianças conseguem superar artistas renomados em autenticidade. De Ana Neve, Henrique não conseguiu absorver nada, mas de Cristina Cunha ganhou um bônus de +60 em canto. Cristina não só era atriz, mas também cantora, e chegou a ser solista no Grupo de Dança e Música do Oriente.
“Adoro esses restaurantes simples. O nome é ótimo, todo mundo vem por causa dele,” comentou Teodoro, sorrindo. Os outros concordaram de bom grado.
Naquele ano, o diretor de “A Ilha Mortal”, Miguel Belo, lançou outro filme: “Porto da Pérola”, estrelado por Ben Affleck, Josh Hartnett, Kate Beckinsale e Cuba Gooding Jr. Estreou na América do Norte em 25 de maio e, em agosto, chegou ao país. Alguns trechos eram tão animados que combinavam perfeitamente com a música “Dias Felizes”.
Após um tempo de conversa, Teodoro apontou para Henrique e disse a Cristina Cunha: “Esse é Henrique, faz o personagem popular e planeja prestar nosso curso de atuação no ano que vem. Você é veterana, pode dar umas dicas?”
“Claro,” respondeu Cristina, sempre reservada, com um ar melancólico, mas simpática e sem hesitar. “Obrigado, Cristina, obrigado, diretor!” Henrique agradeceu sinceramente. Informações sobre a prova de aptidão e conselhos são fáceis de encontrar, mas ouvir a experiência de quem passou por isso é sempre diferente.
Ana Neve também era da Academia Nacional de Cinema, mas apenas do curso de especialização, não do bacharelado. Não porque preferisse, mas porque não conseguiu ser aprovada. Tanto experiências de sucesso quanto de fracasso eram valiosas para Henrique naquele momento.
O jantar foi realmente proveitoso. Após comerem, o diretor levou todos para um karaokê. Henrique tinha dois bônus de canto, mas não os ativou; cantou uma música usando apenas sua habilidade natural e logo passou o microfone para outro. No bar, cantar bem era uma forma de ganhar dinheiro.
Ali, a apresentação era apenas parte do convívio; era preciso saber lidar com as pessoas. “Na novela, você vai aparecer tocando teclado e violão. Mesmo que não saiba, tem que aprender pelo menos a postura,” disse Teodoro, após beber um pouco, organizando as próximas cenas. Os outros diminuíram o volume e escolheram músicas suaves.
Doce melodia, teu sorriso é doce melodia…
“Temos algum professor de música no elenco?” Henrique perguntou, aproveitando a oportunidade.
“Parece que não, mas posso arrumar um. É coisa simples,” Teodoro respondeu, admirando o empenho de Henrique.
“Obrigado, diretor. Quero ser mais profissional,” disse Henrique, satisfeito. Aula de equitação, aula de guitarra grátis, não podia ser melhor. Mais tarde, poderia fazer um certificado de instrumento musical e armazenar ali os atributos de canto e execução.
No dia seguinte, a produção realmente lhe arranjou um professor de música. Henrique já tinha lido livros de teoria musical e, com o conhecimento básico, e a aplicação ocasional de atributos, não tinha dificuldades. Seu objetivo era ambicioso: não só aprender a postura, mas realmente tocar, surpreendendo a professora.
Mas isso era apenas uma surpresa. Afinal, a produção pagava por hora; quanto mais Henrique aprendesse, mais ela ganhava.
Era dia 13 de outubro, aniversário de Henrique: 19 anos. Segundo o costume da sua vila, após essa data ele já era oficialmente considerado adulto, com 20 anos. Se fosse uma celebridade, o elenco certamente celebraria a data. Mas ninguém sabia que era seu aniversário.
No fim da tarde, Henrique comeu duas marmitas. O privilégio de ator era poder comer à vontade, ao contrário dos figurantes, limitados a uma só. Depois de comer, procurou um lugar tranquilo, tirou o celular e ligou para a vila.
Em casa, não havia telefone; apenas o chefe da vila e os mais ricos tinham. Primeiro falou com a esposa do chefe, pediu que chamasse sua mãe, e desligou para esperar.
Cinco minutos depois, ligou novamente e finalmente ouviu a voz da mãe no telefone.