Capítulo 0031: Você já viu um tolo na vida real?
Velho Wu já havia entendido todo o processo de inscrição na Academia de Cinema de Pequim.
Entre novembro e dezembro deste ano, teria que ir ao departamento de educação local para se inscrever no vestibular, declarando-se como estudante de artes.
Em fevereiro ou março do ano seguinte, participaria das provas profissionais de atuação nas principais instituições artísticas.
Se passasse nessas provas, por volta de abril receberia o certificado de aprovação, com as notas e a classificação obtidas.
Também seria preciso fazer o vestibular, alcançando a pontuação exigida. Normalmente, a exigência para o curso de atuação era baixa, algo em torno de duzentos e oitenta, duzentos e noventa pontos por ano.
Atingindo a pontuação mínima do curso, a seleção final era feita com base na classificação da prova profissional.
Ultimamente, Hao Yun vinha estudando bastante, sentindo-se confiante e com grande vantagem.
— Aqui é o Estúdio de Cinema de Pequim? Parece tão vazio — comentou, ao chegar na Academia de Cinema. Claro, precisava visitar o famoso estúdio ao lado; parado na entrada, sentiu que aquele lugar, reverenciado por tantos figurantes, estava inevitavelmente envolto por uma atmosfera de melancolia.
— De manhã aparece mais gente, jovens esperando por uma oportunidade. Agora, com a fusão com a Companhia Nacional de Cinema, não é mais como antigamente — explicou Velho Wu, que estava habituado àquele local. Há pouco, até trocara um cigarro e algumas palavras com o porteiro, que o reconhecera.
— Será que eu também poderia vir procurar trabalho aqui, caso tenha tempo? — Hao Yun ficou curioso sobre as diferenças entre os migrantes de Pequim e os do sul.
Talvez pudesse até trocar experiências técnicas.
— Nosso local de filmagem é um pouco longe daqui, a não ser que você pegue táxi todo dia — ponderou Velho Wu, achando inviável.
— Certo — resignou-se Hao Yun.
Em 2001, a capital já era bastante desenvolvida; o fluxo de veículos na esquina da Rua Zhongguancun e da Avenida Oeste do Quarto Anel era intenso.
Mas ainda se sentia o calor humano, especialmente ao passear pelos becos.
Via-se grupos de crianças jogando bolinhas de vidro e barbeiros cortando cabelo à beira da rua.
Ao meio-dia, comer uma tigela de macarrão com molho de feijão na Rua Sul Pequena era tradição. No restaurante, havia um pôster de Leslie Cheung na parede, o astro mais famoso de Hong Kong.
Diversos slogans expressavam a alegria pela conquista da candidatura olímpica.
Mas isso já era passado; o assunto mais quente do momento era a Copa do Mundo.
No quiosque, o jornal mais destacado exibia, em letras vermelhas, a manchete: “Classificados”.
A seleção chinesa, graças ao gol de Yu Genwei, vencera Omã por 1 a 0, garantindo a vaga na Copa do Mundo com duas rodadas de antecedência, realizando o sonho do futebol chinês.
Agradecimentos à equipe nacional e ao técnico Milu!
Antes disso, nos jogos contra as Maldivas, venceram fora por 1 a 0 e em casa por 10 a 1, mas sofreram um gol, o que deixou os torcedores insatisfeitos, gritando pela demissão de Milu.
Claro, havia também um herói chamado Zhang Jilong, dirigente da federação, cuja habilidade diplomática e sorte extraordinária foram decisivas no sorteio da fase final, evitando as equipes fortes do Irã e da Arábia Saudita.
Todos aguardavam ansiosamente por novos feitos.
Depois de um dia inteiro de passeio, ainda havia vontade de explorar mais, mas o ônibus verde não esperava ninguém.
Então, os dois apressaram-se de volta.
As cenas de Hao Yun estavam concentradas em um único lugar.
Hospital!
Psiquiatria.
A equipe de filmagem isolou uma área do hospital para as gravações, focando-se ali.
— Bom dia, diretor, bom dia professora Yang Xue... —
Hoje Hao Yun conheceu o diretor e a protagonista, cumprimentando-os educadamente. Eles apenas acenaram, sem demonstrar vontade de conversar.
O assistente do diretor era responsável por explicar as cenas a Hao Yun.
No seriado, Hao Yun interpretava, quase sempre, cenas de cama.
Não se engane, não era com Yang Xue ou Lin Xinru. Ele apenas tinha que ficar deitado, atuando.
— O personagem “Público” sofreu uma lesão cerebral durante uma agressão e ficou com deficiência mental. Você já viu alguém assim? — perguntou o assistente, preocupado com sua atuação.
— Já sim! — respondeu Hao Yun, com firmeza.
— Daqui a pouco ensaia a cena; faça bem feito. Mesmo sendo um personagem com deficiência, há muitos esperando por você — pressionou o assistente.
Hao Yun assentiu com seriedade.
Primeiro, trocou de roupa e se maquiou.
O figurino era um pijama listrado, típico de hospitais psiquiátricos.
Diziam que as listras acalmavam os pacientes, embora não se soubesse se era verdade.
A maquiagem era apenas um pouco de pó, para deixá-lo mais pálido.
Colocaram nele uma peruca — algo que Hao Yun achou estranho, pois os pacientes que conhecera tinham cabelo bem curto, mais fácil de cuidar.
Contudo, com a peruca, ele parecia ainda mais ingênuo.
O assistente marcou a cena, o diretor de produção deu início.
Hao Yun sentou-se na cama, brincando com uma flor recebida de alguém.
Uma pétala, duas pétalas...
Ama-me, não me ama, ama-me, não me ama... algo assim.
Sua atuação era extremamente ingênua, não fingida, mas genuinamente tola, com um toque de nervosismo.
— Corta, ótima atuação! —
Teng Huatao pretendia repreender Hao Yun, dar-lhe um susto para facilitar o controle nas cenas seguintes, mas surpreendeu-se com o desempenho.
— Obrigado, diretor! — Hao Yun virou-se lentamente, respondendo de maneira simples, totalmente imerso no personagem.
Sem perceber, Hao Yun não precisou recorrer a nenhum atributo especial; foi apenas sua habilidade natural que conquistou a admiração do diretor Teng Huatao.
O ensaio servia como teste; já que Hao Yun apresentou o resultado desejado, era hora de iniciar as gravações oficiais.
Primeiro, as cenas com Yang Xue.
Bem, não era exatamente uma interação, pois Yang Xue apenas falava ao lado — Hao Yun continuava em seu papel de paciente ou dormia.
O cenário era simples: um quarto, uma cama, dois personagens.
As falas eram quase todas de Yang Xue; Hao Yun apenas precisava seguir atuando, sem responder demais.
— OK, cena! — gritou o diretor, indicando que Hao Yun e Yang Xue terminaram em meio dia o que estava previsto para um dia inteiro.
— Atuou maravilhosamente! — Velho Wu estava ainda mais empolgado que Hao Yun.
Embora soubesse que Hao Yun havia conseguido um papel em “Setas do Gavião” e decidira trabalhar com ele, hoje era a primeira vez que presenciava sua atuação.
— Obrigado, obrigado! — Hao Yun também estava entusiasmado.
Antes, ele só se atrevia a atuar quando ativava suas habilidades; caso contrário, era igual a qualquer figurante.
Agora, após aprimorar, usar e refinar seus atributos, seu desempenho melhorara muito.
E tudo isso em menos de três meses!
— Não se acomode — alertou Velho Wu, temendo que ele se deixasse levar. — Agora você está interpretando um paciente psiquiátrico, talvez haja grande afinidade com o papel, mas precisa continuar evoluindo para ampliar seus horizontes e ir mais longe.
— Pode deixar, irmão Wu!
Hao Yun concordava, mas de repente percebeu algo estranho. O que significava “grande afinidade com o papel”? Estava dizendo que interpretei um paciente psiquiátrico com naturalidade?
Isso não era exatamente um elogio... ou era?