Capítulo 0023: O isolamento acústico do hotel é ruim
O céu escurecia gradualmente, e Hao Yun sentia uma fome tão intensa que seu estômago parecia colado às costas, além de suas reservas de energia já não serem suficientes. Jiang Wen finalmente se deu conta de que era hora de comer. Ele arrumou suas coisas de forma simples – claro, Hao Yun o ajudou – e então os dois saíram do quarto.
A porta do quarto ao lado estava bem fechada. Sem cerimônia, Jiang Wen bateu com força:
– Lu Xuan, levante-se para comer. Lu Xuan, sei que você está aí dentro, venha comer conosco.
Um jovem de cabelos desgrenhados e olhos inchados de sono abriu a porta. Era ninguém menos que Lu Xuan, o diretor e roteirista do filme “Em Busca da Arma”.
– Eu não estou com muita fome...
Sua voz soava meio anasalada, como se estivesse resfriado.
– Vamos, depois de um dia puxado você precisa comer. O ser humano é feito de ferro, e o arroz é aço – pular uma refeição só traz fome. – Jiang Wen puxou Lu Xuan, que quase tropeçou com o impulso.
Ele ainda olhou para Hao Yun:
– Quem é esse?
– Hao Yun, da família do velho Zhang Xianchun. Estou pensando em deixá-lo interpretar o ladrão; o que você acha? – Jiang Wen não esqueceu de consultar o diretor.
Essas decisões de elenco, como simples ator, ele “com certeza” não poderia tomar sozinho; precisava consultar o diretor.
– Ah... ah... está bem. – Lu Xuan claramente sabia quem era Zhang Xianchun.
Só não entendeu muito bem o que Jiang Wen queria dizer com “da família de Zhang Xianchun”.
Na verdade, era literal: Hao Yun alugava uma casa da família Zhang Xianchun, então era mesmo “da família Zhang Xianchun”.
Jiang Wen falava assim porque Lu Xuan, vindo do círculo fechado da Academia de Cinema de Pequim e cheio de autoestima, talvez nem desse atenção a um ator comum. Mas alguém “da família de Zhang Xianchun”, mesmo que fosse um parente distante, faria com que Lu Xuan olhasse com mais respeito.
Zhang Xianchun e seu irmão Zhang Xiande eram veteranos do Estúdio de Cinema de Pequim. Zhang Xiande nasceu em 1929, Zhang Xianchun em 1937 – ambos trabalharam com o pai de Chen Kaige, Chen Huaikai (1920-1994), como diretores de arte e responsáveis por adereços no filme “Adeus, Minha Concubina”, no qual Chen Huaikai foi o diretor artístico.
No set, Chen Kaige os chamava de “Tio De” e “Tio Chun”.
Enquanto conversavam, viraram a esquina do beco e chegaram ao centro histórico da cidade.
Já dentro do restaurante, Hao Yun ainda não havia se acalmado. Ele realmente não esperava que lhe dessem o papel do ladrão.
Era um papel com bastante destaque – para um filme, era um coadjuvante de peso.
Depois de passar a tarde inteira com Jiang Wen, já conhecia cada detalhe dos personagens.
– Peça o que quiser, dessa vez o orçamento está folgado, não precisa economizar.
Jiang Wen entregou o cardápio a Hao Yun. Lu Xuan não discordou, deixou Hao Yun escolher dois pratos, e eles próprios também pediram dois cada um.
Estavam em Guizhou, então a escolha da bebida era óbvia.
Durante a refeição, Lu Xuan não queria falar sobre “Em Busca da Arma”, então a conversa girou em torno das últimas fofocas do mundo do entretenimento e dos lançamentos de cinema.
O “Hora do Rush II” de Fang Long saiu de cartaz, arrecadando 141 milhões de dólares na bilheteria norte-americana.
– Foi um prejuízo enorme, ouvi dizer que o orçamento foi de 100 milhões – comentou Lu Xuan, com um tom quase de escárnio, pois não estava de bom humor.
– Vai estrear em outros países e regiões também, o prejuízo não será tão grande – ponderou Jiang Wen.
– Ouvi dizer que Zhang Ziyi deu um beijo em Fang Long, e que tanto ele quanto o filho estão atrás dela – Hao Yun não se interessava muito pelo valor de bilheteira, já que o filme nem seria exibido no continente.
– Deve ser só jogada de marketing... imagino – Jiang Wen duvidou.
– Fang Long é casado, mas vai saber. Pai e filho disputando uma mulher, aí já é demais; mesmo que seja publicidade, é de uma falta de vergonha absurda – Lu Xuan exclamou, indignado.
– Por mais sem vergonha que seja, nunca vai superar aquele cachorro, que ainda teve a ousadia de fazer reverência em público – Jiang Wen já não estava apenas criticando, era quase um insulto aberto.
Felizmente, estavam em uma sala reservada, senão já teriam chamado a atenção.
Hao Yun entendia; Jiang Wen idolatrava aquela pessoa e detestava os japoneses, tanto que resolveu fazer “Os Demônios Chegaram”.
– Cada um com sua posição... – Lu Xuan tentou argumentar.
Então, sob o olhar atônito de Hao Yun, Jiang Wen lançou sobre Lu Xuan uma enxurrada de críticas sem piedade, sem deixar um só ângulo sem atingir.
Foi realmente impiedoso.
Lu Xuan só podia beber, o rosto vermelho, metade do copo era pura saliva de Jiang Wen.
Hao Yun se divertia. Finalmente entendeu por que o velho gordo e o magro disseram que o set de “Em Busca da Arma” seria interessante – nem começaram as filmagens e já estavam nesse nível de discussão.
Ao se lembrar do texto que Lu Xuan escreveu, “Encontrar Jiang Wen foi o maior milagre da minha vida”, Hao Yun achou tudo ainda mais ridículo.
Ele havia lido o texto.
Numa parte, dizia:
“Quando ouvi a voz de Jiang Wen pela primeira vez, meu coração disparou violentamente, então achei que era um sonho, pois só em sonhos me sentia assim.”
Meu Deus, esse texto, só trocando o nome, já dava para conquistar a garota mais bonita da turma e levá-la para um hotel de Audi A6.
– Chega, chega, vamos brindar! – Lu Xuan, muito constrangido, propôs um brinde.
O tom anasalado, que já havia passado, voltou, e ele sentiu um líquido escorrer por um lado do rosto.
– E você, que filmes viu ultimamente? – Jiang Wen perguntou a Hao Yun.
Não dava para continuar judiando de Lu Xuan. Se ele caísse, o filme ficaria sem diretor e roteirista, e Jiang Wen já estava proibido de atuar por cinco anos.
– Assisti ao novo filme de Xu Ke, a “Shaolin Soccer” de Zhou Xingxing e ao “Matador Profissional” de Liu Furong.
Hao Yun falava pouco; sabia seu lugar. Assim como Lu Xuan disse que sobre aquele “cachorro” cada um tinha sua posição, ele até queria argumentar, mas faltava-lhe eloquência.
Já Jiang Wen podia discursar por meia hora, enchendo o copo de Lu Xuan só com palavras.
– Xu Ke é realmente brilhante – Jiang Wen elogiou.
Desses três filmes, se houvesse um que ele realmente respeitasse, era “A Lenda da Montanha Shu” de Xu Ke.
“Shaolin Soccer” de Zhou Xingxing também era boa, só não fazia o estilo dele.
Quanto ao “Matador Profissional”, de Liu Furong, nem sequer assistiu.
– Jiang Wen, seu filme não perde em nada para esses, acho até que eles são comerciais demais – comentou Lu Xuan, sentindo-se seguro com a mudança de assunto.
Hao Yun quase se engasgou com a carne.
Amigo, você é muito contraditório.
Há pouco, ele te massacrou, pisoteou sua alma várias vezes, só faltou te bater, e agora você vira fã de novo?
Finalmente entendeu porque esses dois nunca brigaram de verdade.
Nos dias seguintes, Hao Yun acompanhou Jiang Wen e Lu Xuan, observando as discussões acaloradas sobre roteiro e filmagens.
Lu Xuan, com 29 anos, ainda era um pouco inexperiente, mas tinha talento e competência.
Só que, na maioria das vezes, Jiang Wen saía vencedor.
Quando Lu Xuan ficava muito irritado, se trancava no quarto para se recompor.
O isolamento acústico do hotel na cidade antiga era péssimo; às vezes Hao Yun conseguia ouvir o choro contido de Lu Xuan.
Como o único ator que chegou antes, Hao Yun era chamado para discutir o roteiro, ajudar com diálogos e até participar de ensaios com Jiang Wen.
Até que, com a chegada dos outros atores, o “curral” de Hao Yun foi se enchendo.
Nesse processo, Hao Yun também foi compreendendo melhor seu “cheat”.
Descobriu que, independentemente de sugar ou não do mesmo indivíduo, desde que as características fossem diferentes, podia acumulá-las indefinidamente – por exemplo, interpretação e dicção.
Já sugar duas vezes a mesma característica da mesma pessoa não acumulava, como pegar duas vezes a interpretação de Jiang Wen.
Agora, percebeu que características iguais vindas de pessoas diferentes podiam ser somadas: se tivesse +30 de interpretação de Jiang Wen e +20 de Ning Jing, podia usar ambas ao mesmo tempo.
O efeito não era exatamente 30+20=50, mas era claramente maior que 30.
Isso era importante.
Imagine só: duzentos pontos de interpretação de Leung Ka-fai numa mão, duzentos de Li Xuejian na outra, quem conseguiria superar?
Além disso, ao usar a característica de alguém, passava a parecer-se com essa pessoa – o que tinha prós e contras.
Misturando características de diferentes origens, podia diminuir essa estranheza.
Só que a soma tornava mais difícil de controlar, dando a Hao Yun uma sensação de estar dividido.
Ele sonhava com o dia em que não precisaria mais dos atributos dos outros para brilhar.
Antes do sistema, isso seria impossível – interpretação depende de talento; alguns jamais seriam grandes atores.
Mas Hao Yun era diferente agora.
Ele era um trapaceiro.
Sim, os atributos eram temporários, duravam pouco e se esgotavam rapidamente.
Mas, durante o uso, ele experimentava o que era interpretação verdadeira, assimilando diferentes entendimentos e formas de expressão.
Com o tempo, esse sentimento difuso, ao ser repetidamente trabalhado, acumulava em si a bagagem de cem, mil atores.
Um dia, isso o transformaria por completo.