Capítulo 0054 – Seleção de elenco para "Poço Cego"
— O aluguel por lá é caro? Consegue guardar dinheiro?
— Quando cheguei, aluguei uma cama, sessenta reais. O ambiente… era aceitável, mas não dava pra guardar quase nada. Por que você quer ir para a Cidade dos Estúdios? A capital não é boa pra tentar a vida?
Atualmente, de fato, Hélio conseguiu juntar um pouco de dinheiro, mas só depois de conseguir o sistema.
— Pois é, já estou há uns dois, três anos aqui, moro no pior lugar, como o pior tipo de comida, e mesmo assim não consigo guardar dinheiro. Acho que não tenho chance de vencer aqui. Ouvi dizer que na Cidade dos Estúdios é possível ganhar bem, queria tentar a sorte lá.
— E como você define sucesso? — Hélio não se considerava bem-sucedido.
Apesar de já ter atuado em alguns papéis e conhecido bastante gente, a distância entre ele e o sucesso que imaginava era imensa.
— Pra mim, sucesso é aparecer na TV, correr pro banheiro rapidinho, e quando voltar ainda estar lá. Isso já é sucesso — disse o rapaz, sério, com uma simplicidade comovente.
Hélio ficou surpreso.
Aquilo era exatamente como ele se sentia quando chegou à Cidade dos Estúdios.
No início, queria apenas que sua família pudesse vê-lo na televisão.
— Meu amigo, se você realmente decidir ir, pode me ligar. Talvez eu não possa ajudar muito, mas posso te mostrar o lugar, sem problemas.
Hélio realmente não se importava em ajudar.
Não era alguém que saía ajudando qualquer um, mas também não era indiferente.
Se algum de seus antigos colegas de quarto tivesse sido tão educado assim, ele teria feito o possível para ajudá-los também.
— Obrigado, irmão. Meu nome é Vítor Simplório. Não tenho celular, só um pager. Vou anotar seu número — disse o jovem, olhando para o telefone de Hélio com inveja.
Ele também queria ter um, mas não tinha condições.
Aquele aparelho custava pelo menos três mil reais. Se ele tivesse esse dinheiro, mandaria imediatamente para casa, para ajudar a pagar as dívidas.
— Tudo bem, eu sou Hélio Fortuna.
— Irmão, não tenho dinheiro agora, mas quando ganhar, faço questão de te pagar um almoço — Vítor Simplório disse envergonhado. Encontrara um amigo agradável, mas não podia sequer oferecer uma refeição decente.
Vinte anos de idade, e sentia-se um fracasso.
— Não se preocupe com isso.
Hélio não deu importância. Antes, outro chamado Leonardo Longo também prometeu pagar-lhe um almoço, e no fim, foi ele quem pagou.
Já dava pra ver que Vítor Simplório era pobre de dar dó, e Hélio não teria coragem de deixá-lo gastar com ele.
Porém, ao apertar a mão de Vítor Simplório, ficou espantado.
[Propriedade absorvível detectada!
Habilidade de atuação +90 (em decréscimo contínuo)
Duração: 5 minutos
Tempo de armazenamento: 24 horas]
Mas que brincadeira era aquela? Conseguiu absorver uma propriedade, e ainda por cima, noventa pontos!
Estaria o rapaz fingindo ser fraco para surpreender?
Seria um mestre oculto? O escolhido do destino?
Hélio olhou ao redor e, de repente, sentiu que aquele hotelzinho caindo aos pedaços na periferia era um verdadeiro santuário de talentos ocultos.
— Irmão, se você conseguir o papel na entrevista, vai ter que terminar as gravações antes de voltar pra Cidade dos Estúdios, né? — Vítor Simplório anotava o número com atenção.
Com Hélio ali, claramente com aparência e presença muito superiores aos demais, o resultado parecia decidido.
Dois candidatos até desistiram na hora, sem nem tentar a entrevista.
— Ainda nem fiz o teste, vai saber se consigo o papel… Mas não sei quando volto pra Cidade dos Estúdios. Se eu não estiver lá, posso pedir pra um amigo te mostrar o lugar — Hélio observou Vítor Simplório com atenção.
Percebeu que ele não fingia ser menos do que era, mesmo com uma habilidade de atuação superior à dele, capaz de entregar noventa pontos de uma só vez.
— Não tem problema, se eu me firmar, quando você for pra lá, vai ser meu convidado para um almoço — disse Vítor Simplório sinceramente.
— Vai depender da sorte. Se você ficar famoso, lembre de puxar o irmão aqui pra cima — Hélio sentiu um forte baque e deixou de lado qualquer arrogância.
Prudência era a principal virtude do povo de sua cidade natal.
Logo depois, chegou a vez de Vítor Simplório ser chamado. Seu teste demorou mais do que o dos outros.
Era sinal de que realmente tinha talento.
Não foi imaginação de Hélio, nem um erro do sistema.
Talvez aquele rapaz fosse, de fato, extremamente dedicado. Afinal, já estava há dois ou três anos como figurante.
Nesse meio, esforço raramente era suficiente. Todos sonhavam em ser astros, mas a maioria só tinha sonhos. Quando faltava dinheiro, faziam uns bicos como figurantes e depois se entregavam aos prazeres efêmeros.
Quando Vítor Simplório saiu, ainda fez questão de se despedir de Hélio.
— Irmão, vou indo. Tenho um bico pra fazer.
— Vai lá, quando puder, entre em contato.
Hélio não sabia se ele realmente tinha um trabalho ou se era só uma desculpa por não ter dinheiro para convidá-lo para comer.
Hélio estava entre os últimos a serem chamados.
O filme “Poço Cego” era, segundo diziam, o primeiro longa-metragem do diretor Leonel Yang. Hélio imaginou que fosse um jovem, mas deparou-se com um homem de mais de quarenta anos.
Não havia outros avaliadores, apenas o diretor Leonel Yang.
Ele largou a caneta, olhou Hélio atentamente por um momento, depois voltou a examinar o currículo dele.
— Você já atuou em várias produções. Por que veio tentar esse papel?
Leonel Yang evitou mencionar o cachê de apenas dois mil reais.
Não era algo a ser elogiado.
— Pela força do personagem. Eu venho do campo, me sinto à vontade para interpretar um papel tão popular… — respondeu Hélio.
— Mas é preciso descer à mina de carvão — observou Leonel Yang, não querendo duvidar de Hélio, mas a aparência dele destoava completamente do que buscava. No currículo, tudo estava claro: “A Flecha e o Falcão”, “Busca Fatal”, “Herói”, “Só Você”. Só grandes produções, grandes diretores. O caso mais modesto era “Busca Fatal”, de Lucas Rui, mas com João Geng como produtor, qualquer um do meio sabia do peso.
— Não tenho medo, admiro o personagem, a história — disse Hélio com seriedade —. Um colega de infância teve o pai que saiu para trabalhar e nunca mais voltou. Três, quatro anos sem notícias. Achamos que foi levado para trabalhar numa mina de carvão clandestina…
— Isso era comum onde você morava? — Leonel Yang se animou.
— Não muito. Lá tem poucos morros, muita planície. Cada família tem uns dois ou três hectares de terra, então, sem grandes dívidas, dá pra viver do que a terra produz — respondeu Hélio, sem exagerar.
Conversaram mais um pouco, numa troca agradável.
Mas, por fim, Leonel Yang foi direto ao assunto:
— Vou ser honesto, já escolhi alguém para o papel. E, no seu caso, a aparência é boa demais. Mesmo com maquiagem e talento, não condiz com o que imagino para o filme.
— Entendo, obrigado, diretor — Hélio não se sentiu muito abalado.
Afinal, não foi recusado por falta de talento.
Foi por ser bonito demais.
A culpa era dele, impossível não perdoar o diretor.
— Espero que possamos trabalhar juntos no futuro — disse Leonel Yang com cortesia.
— Foi aquele rapaz, Vítor Simplório, que conseguiu o papel? — perguntou Hélio ao se levantar, curioso.
Afinal, só alguém com talento suficiente para que ele absorvesse pontos poderia ser a escolha certa para o papel.
Era ele que estava errado. Não precisava mais ir para a Cidade dos Estúdios, sua vida estava prestes a mudar.
E, claro, o almoço prometido seria cobrado, e seria de comer até chorar.
— Sim, ele encaixa melhor no perfil do personagem — admitiu Leonel Yang.
Pediu que Vítor Simplório aguardasse o contato, mas já havia decidido o papel em sua mente.
A aparência de Hélio não combinava, era bonito demais.
Não conseguia enxergar nele o personagem que havia imaginado, por isso nem chegou a lhe dar a chance de testar o papel.
Quanto à “recomendação” do assistente de direção, não deu a menor importância.