Capítulo 0089: Criando um Gênio
Já passava das oito da noite quando o anfitrião apareceu, avisando que o serviço estava concluído. Entregou-lhes oito mil reais em dinheiro, serviu o terceiro jantar do dia e, depois de elogiá-los, permitiu que fossem embora.
A distância até o local onde moravam na capital era de três horas de carro, e agora só lhes restava enfrentar a estrada à noite.
Mas ninguém parecia temer.
Se uma fantasma quisesse me perseguir, desde que fosse bonita, eu finalmente deixaria de ser solteiro.
Os oito mil reais foram distribuídos já durante o caminho de volta.
“Isso é dinheiro demais... pode me dar só duzentos,” murmurou Vítor Suplício, ainda incrédulo. Sua principal função fora tocar tambor — e ser pisado. Os pés já estavam quase inchados de tanto apanhar. Mas diante do que havia lucrado, essas dores nem importavam.
“Eu disse que era pra você, então aceite. Quando chegarmos, compre algo bom pra comer.”
Para alguém que lhe permitia absorver noventa pontos de atributos, Aurélio não duvidava nem um pouco do potencial de Vítor.
Há muitos figurantes, tanto em Hengdian quanto na capital, milhares e milhares; mas com a habilidade de Vítor, só mesmo um em dez mil.
Aurélio antes achava que era o topo entre os figurantes, mas depois percebeu que era apenas o topo da beleza.
Vítor, você nasceu pra ser ator.
“Guarde logo isso, sem enrolação,” disse Roberto Amarelo, direto. Aurélio estava em ascensão e podia ajudá-los. Ele era o benfeitor do grupo.
Não há lógica em afastar um benfeitor.
Com São Gonçalo por cima, eu sou Dom Pedro... São Gonçalo... São João...
“Então eu aceito. Bem... não vou agradecer, um favor grande dispensa palavras.” Vítor finalmente ficou com os dois mil.
Pensando bem, era irônico.
Gravou cenas por meses, só no subsolo da mina passou mais de vinte dias, uma vez quase morreu soterrado, e no fim só recebeu dois mil pelo trabalho.
“Trabalho fácil assim é raro, é pura sorte encontrá-lo,” alertou o velho Luís, percebendo o tom do grupo. “Não aceitem qualquer serviço. O que fazemos é apresentação comercial lucrativa; se espalharem conteúdo vulgar ou obsceno em público, podem ser investigados por ilegalidade.”
“Jamais faria isso,” respondeu Vítor, abandonando a ideia.
Além disso, Aurélio toca e canta, Roberto também canta, e ele só serve pra apanhar.
De volta à capital, Aurélio logo começou a gravar as cenas da delegacia em “Carla é Um Cachorro”.
Essa parte era muito difícil.
Só com seu talento, Aurélio não conseguia agradar o diretor Lu Chang.
Por sorte, a insatisfação do diretor nem sempre era ruim.
Neste momento, o crescimento de Aurélio era o mais importante.
Diretores diferentes possuem visões distintas sobre cinema e atuação; ao trabalhar com eles, o ator é constantemente moldado e transformado.
Lu Chang buscava naturalidade.
Não se pareça com ninguém — nem com Gregório, nem com Diana, nem sequer com você mesmo. Você é simplesmente Lian.
O que mais atormentava Aurélio era que o diretor gostava que os atores aprendessem por si.
Você tem problemas, mas como representar, depende de você — dizem que assim a atuação fica mais natural, até mesmo livre do pensamento do diretor.
De fato, o resultado obtido com esse método era muito satisfatório.
“Você está muito bem assim, continue. Trate cada papel com seriedade, seja ele do seu gosto ou não, fácil ou difícil, até mesmo numa produção ruim que você aceitou por necessidade; faça bem e poderá ser o próximo Gregório.”
Lu Chang não falava muito sobre o personagem, mas sabia dar conselhos profundos.
Aurélio só podia ouvir com atenção.
Nestes meses desde que entrou na carreira, conheceu muita gente e deixou uma impressão positiva, não só por sua habilidade de imitar os outros, mas também pela dedicação ao ofício.
Ambos são indispensáveis.
Sem talento (ou trapaça), só atitude não basta — há muitos esforçados neste mundo.
Junho passou rápido.
Naquele mês, a Comissão Anticorrupção acusou formalmente Tiago Ouvirvento de “conspiração para obstruir a justiça”; o caso de encobrimento tornou-se o maior escândalo do entretenimento em 2002, arruinando a imagem de Tiago.
Claro, isso não prejudicou muito sua carreira.
Aurélio só podia invejar.
Seu pai não era João Imagem nem Carlos Gregório, ninguém para protegê-lo em caso de erro.
Só restava cautela.
E então, na Copa do Mundo, a seleção nacional perdeu de 0-2 para Costa Rica, depois 0-4 para o Brasil, e 0-3 para a Turquia, três derrotas, nenhum gol marcado, nove sofridos — despedindo-se da primeira participação.
Apesar da performance decepcionante, a experiência trouxe valiosas “lições” ao futebol nacional.
O time anfitrião, os Bastões, eliminou a Espanha nos pênaltis por 5-3, chegando historicamente à semifinal.
Subornos, árbitros corruptos, agressões... havia de tudo.
“Juiz Invencível”, “Xiao Onze”, “Imperador Han” foram sucessos de audiência em junho.
Lívia Sombras e João Filosofia lançaram álbuns, mas não superaram o sucesso de Pedro Vitor com “Amor Absoluto”.
No fim do mês, Aurélio deixou a capital, abandonando o brilho e o tumulto.
Como o tempo era curto e não queria distraí-lo, o velho Luís não levou Aurélio para casa, mas o acomodou diretamente no hotel reservado para o vestibular.
Faltavam vários dias para a prova, e já era possível ver slogans e faixas alusivas ao vestibular por toda aquela pequena cidade do norte.
O hotel, atencioso, o colocou num canto tranquilo.
Naturalmente, os preços subiram como era de esperar.
Depois de instalado, o velho Luís foi procurar um professor particular temporário.
Na verdade, ele não sabia qual era o nível de Aurélio, já que sempre que perguntava, Aurélio demonstrava insegurança.
O velho Luís não era contra contratar um professor particular de última hora.
Na hora do aperto, qualquer preparo ajuda.
Só não entendia por que precisava ser um gênio formado em universidade de prestígio, achava que bastava um universitário para ajudar no vestibular.
E ainda diziam que três mil por semana não era problema.
Hoje em dia, nem professores universitários ganham tanto assim.
No ano 2000, professores da Universidade de Xangai tinham média de quatro mil por mês, e numa cidadezinha como Huai Norte, um professor universitário ficava feliz com vinte mil por ano.
Três mil para um gênio não era nada difícil.
Aurélio dormiu à tarde e, ao acordar, encontrou o tal professor.
Era um rapaz de aparência comum, porém simpático.
Apresentou-se como Estêvão Pequeno.
Contou que, no vestibular em AH, foi terceiro colocado e entrou na Universidade Normal de Pequim.
Graduou-se lá, bacharel e mestre, e aceitou uma vaga na faculdade da terra natal.
“Caramba, pensei que fosse um otário qualquer, mas é você,” disse Estêvão logo ao chegar, de um jeito pouco confortável.
“Você me conhece?” Aurélio apertou-lhe a mão.
[Detectado atributo absorvível!
Língua afiada +40 (decrescendo)
Duração: 3 minutos.
Retenção: 24 horas]
Droga, um gênio sem atributo de inteligência; só língua afiada — com esse veneno na boca, não sei como não apanha dos alunos.
Mesmo sendo Estêvão Pequeno, acabaria morto.
“Filme, né? O novo de João Ver, você fez o ladrão de bolsa, atuou tão bem que parecia real, aposto que roubava quando era pequeno; pera, veio pedir aula pra vestibular, quer dizer que só agora está no último ano...”
Estêvão falava sem parar, deixando Aurélio com vontade de matá-lo.
Será que devia trocar?
Nesse lugar, dificilmente encontraria outro professor com ranking tão alto no vestibular.