Capítulo 0087: Por que vocês não vão simplesmente roubar?
Zhang Yining olhou para a própria mão, que estava sendo segurada. Por sorte, não havia uma raquete nela, senão teria desferido um tapa. Pelo menos Hao Yun era bonito e tinha um sorriso sincero, fingindo ser um verdadeiro fã. Isso deixava Zhang Yining em apuros — esse tipo de rapaz, bonito mas sem habilidade, era difícil de enfrentar numa partida; nem conseguia dar vantagem para ele. Não sabia se, ao jogar com força demais, ele iria chorar. E se seria fácil de consolar.
Atributo Esportivo +300! Frieza +200! Dois atributos, estava claro que até jogando tênis de mesa, ele não esquecia de ser frio. Ao encarar o olhar impassível da campeã olímpica, Hao Yun sentiu um calafrio, como se tivesse sido totalmente desvendado.
“Veterana, só vim cumprimentar, sou seu fã, sabia?”
“Você também faz parte da turma do tênis de mesa? Hoje à tarde vai ter um amistoso com a turma, podemos jogar uma partida...”
“Veterana, tenho um compromisso, deixamos para a próxima!”
As pernas de Hao Yun quase cederam, por pouco não caiu de joelhos. Apesar de ser um figurão, também tinha seus limites; mesmo que amarrasse Zhang Yining e tirasse atributos dela todos os dias, não conseguiria vencer a Rainha apenas com isso.
“Caramba, como corre rápido.”
Depois desse episódio, Hao Yun passou a andar pelo campus da Escola de Esportes de Shishahai sentindo um calafrio nas costas, com medo que Zhang Yining, ou qualquer outro campeão olímpico, aparecesse do nada para desafiá-lo. Felizmente, a escola era grande e cheia de alunos; encontrar um campeão olímpico era difícil.
No entanto, Zhang Yining comentou sobre o ocorrido e ainda reclamou sobre o “caramba, como corre rápido”, virando piada popular entre os estudantes. Logo todos sabiam de quem se tratava. Afinal, Hao Yun era um dos mais bonitos da escola; bastou Zhang Yining fazer uma breve descrição para todos perceberem. Que vergonha. Mesmo sendo cara de pau, Hao Yun ficou um pouco sem graça.
Cantar para acumular atributos, resolver questões, decorar textos, treinar no centro esportivo... A rotina de Hao Yun não mudou muito com as brincadeiras dos colegas. Conforme ele começava a integrar o elenco de “Kara, o Cão”, “Em Busca da Arma” encerrava sua temporada nos cinemas.
O filme “Em Busca da Arma” arrecadou um total de nove milhões de yuans. Comparado ao orçamento de sete milhões, parecia um fracasso, mas as vendas internacionais já haviam rendido alguns milhões, e outros lucros ainda estavam por vir. A produtora Hua Ying e a Tia Hua já estavam comemorando.
“Kara, o Cão” começou a ser gravado no início de junho, mas Hao Yun só entrou na equipe na metade do mês. O diretor Lu Xuechang deu prioridade ao vestibular, dizendo que era um momento importante, e só chamou Hao Yun para gravar quando chegou sua vez nas cenas.
Ele levou Huang Bo e Wang Shunliu, arranjando para ambos papéis de figurantes.
Wang Shunliu interpretava um estudante, um papel que combinava com sua aparência. Huang Bo, nascido em 1974, tinha vinte e oito anos, mas poderia interpretar facilmente alguém de trinta e oito, ampliando seu leque de personagens.
No primeiro dia no set, Hao Yun gravou as cenas de sala de aula. O filme se passava em 1995, mas estavam em 2002 — uma diferença de seis ou sete anos. Escolheram uma escola com equipamentos mais antigos e convidaram alunos do ensino médio como figurantes, o que atendeu perfeitamente às exigências de Lu Xuechang. Só o texto exigia ensaio; o diretor gostava de gravar o som direto no set.
Hao Yun não era natural da capital. Apesar de já ter pegado o jeito nesses dias, ainda engasgava em algumas falas. Além disso, os diálogos, embora parecessem naturais, eram rigorosos quanto ao volume, ritmo e entonação, exigindo uma dicção clara e cheia de nuances.
Com Lu Xuechang, Hao Yun aprendia bastante. Por outro lado, não sentia pressão quanto à atuação — afinal, era só interpretar um jovem, praticamente sendo ele mesmo, sem precisar recorrer a atributos especiais.
O produtor do filme era Ma Dagang. Em vários dias de gravação, Hao Yun só o viu uma vez. Estava claro que a situação de Lu Xuechang era muito melhor do que a de Lu Yuan; Ma Dagang interferia pouco, ao contrário de Jiang Wen.
Chegaram a convidar Jiang Wen para o papel de Xia Yu, mas ele estava ocupado gravando “Heróis do Céu e da Terra”. Caso contrário, o filme teria a participação de Jiang Wen e Ma Dagang juntos.
Após as cenas escolares, houve uma pausa de alguns dias, e Hao Yun foi chamado para gravar as cenas em casa, principalmente com a mãe do personagem, interpretada por Ding Jiali. Para ganhar tempo, Hao Yun resolveu usar seus atributos: absorveu habilidade de atuação diretamente de Ding Jiali, misturando com a de outros atores, de modo que parecia apenas estar sendo conduzido por ela, sem parecer uma imitação.
As gravações fluíram facilmente. Havia muitas cenas com cachorros, e o set mantinha uma casa cheia deles, com um funcionário responsável só por cuidar dos animais. Hao Yun gostava de cachorros e aproveitava para observá-los de perto. Não era segredo que ele já pensava em levar algum cachorro do set para casa.
Afinal, o filme se chamava “Kara, o Cão”; adotar um cachorro parecia uma ótima ideia. Poderia criá-lo no apartamento alugado por Wu Laoliu, e se ficassem muito ocupados, poderiam pedir a Huang Bo e Wang Shunliu para cuidarem, bastando passear com ele de vez em quando.
No entanto, um comentário do funcionário responsável pelos cachorros acabou com seu entusiasmo.
“Adotar cachorro? Tem que fazer registro, custa cinco mil yuans, e ainda há várias restrições. Se gosta de bichos, é melhor adotar um gato.”
“Cinco mil mesmo? Achei que era só para o filme...”
Ajoelhado diante dos filhotes, Hao Yun achou aquilo absurdo. Então, pobre não pode ter cachorro? Cinco mil yuans, por que não vão logo assaltar?
Sentiu-se igual ao personagem Lao Er do filme, privado do prazer de ter um cachorro por causa de cinco mil. O ditado era verdadeiro: às vezes, um centavo derruba um herói. Não que estivesse totalmente sem dinheiro. Desde o Ano Novo, trouxe vinte mil para a capital, fez dois filmes em Hong Kong e ganhou mais de dez mil. Tirando as despesas, ainda restavam menos de trinta mil. Metade disso teria que guardar para a universidade: matrícula, alojamento, treinamento militar, material de uso diário. No fim, sobrava só um pouco mais de dez mil para gastar como quisesse. Com esse orçamento, não teria coragem de gastar cinco mil só para criar um cachorro.
“A cena da discussão, você precisa compreender antes de interpretar”, disse-lhe Ge You.
“Eu nunca entendi meu pai, achava que ele não servia para nada. Mas depois que saí do campo e da escola, percebi que só estar vivo já era muito difícil.” Hao Yun estava sentado ao lado do senhor Ge, desabafando o que não teria coragem de dizer ao próprio pai.
“Seu pai moldou quem você é hoje. Sua insatisfação com ele é, na verdade, insatisfação com você mesmo”, respondeu Ge, mostrando-se um ótimo interlocutor. Apesar de sua família ser boa — ambos os pais trabalhavam no Estúdio de Cinema de Pequim —, ele não cresceu com eles. Não sabia como ser pai, por isso decidiu não ter filhos. Se tivesse tido, o filho agora teria uns catorze, quinze anos, entrando na fase da rebeldia. Nos últimos anos, andou bebendo demais, o coração andava fraco. Para ele, era sinal da meia-idade: antes dos quarenta, a pessoa procura doenças; depois dos quarenta, as doenças procuram a pessoa.
Conversar com Hao Yun lhe rendia muitas reflexões.
“Terminando sua cena hoje, vá embora logo”, disse Ge.
“Por quê? Eu queria assistir você e a professora Ding atuando, posso aprender muito.”
“Que nada! Que filho assiste os pais em momento íntimo? Vá embora!”
Ge You deu uma risada e o despachou. Ele e Ding Jiali gravariam uma cena romântica naquele dia. Como um homem de meia-idade desiludido, a harmonia conjugal do personagem dependia do humor da esposa. Havia uma cena de beijo: assim que entravam em casa, já começavam, correndo de um lado ao outro, se beijando até chegar ao quarto. Depois de conversar tanto com Hao Yun, Ge sentiu-se realmente como um pai e não queria o rapaz ali atrapalhando.
“Tudo bem, estou de saída. Nos vemos em alguns dias.”
Com as cenas em casa finalizadas, Hao Yun só teria mais uma grande cena: a parte em que seria preso na delegacia, onde atuaria ao lado de Ge You.