Capítulo 0013: O Novo Filme de Lu Aon
O mês de julho passou silenciosamente, trazendo consigo muitos acontecimentos dignos de nota.
Neste mês, uma cantora com fama de esperteza canina ganhou o prêmio de Cantora Mais Popular do Ano no continente, na terceira edição da Festa da Música CCTV-MTV. Tian Zhen, que teve quatro mil votos a mais e mesmo assim não levou o prêmio, protestou furiosamente contra a injustiça dos organizadores durante a cerimônia. Alguns diziam que a música chinesa estava entrando em sua era mais sombria.
Na mesma época, Zeng Zhiwei foi atacado por vários brutamontes em um bar e, após ser levado ao hospital, precisou de vinte e nove pontos. Ninguém sabia ao certo onde.
O filme "Shaolin Futebol", de Zhou Xingxing, estreou e foi um sucesso estrondoso. Ainda mais grandioso foi o êxito da candidatura olímpica da China. Em comparação, o anúncio de Qu Ying sobre seus planos de casamento com Li Guanpeng à imprensa parecia brincadeira de criança no mundo do entretenimento.
Antes de partir, Hao Yun resolveu visitar mais uma vez o velho Zhang Xianchun, que lhe emprestara livros. Em dois dias, leu o "Manual de Artes Cênicas", escrito por Lin Hongtong, e anotou várias dúvidas. Decidiu aproveitar o tempo restante para pedir conselhos ao mestre. Queria também pegar mais um livro emprestado, pois sabia que, ao ir para as vastas campinas da Mongólia, poderia demorar semanas para voltar e apenas um livro não seria suficiente para ocupar seu tempo.
Quase ao meio-dia, Hao Yun arrumou suas coisas. Devolveu o quarto que alugara. O proprietário, acostumado com o vaivém dos figurantes, não dificultou e devolveu metade dos sessenta yuan de caução.
Com a mochila nas costas e uma mala na mão, Hao Yun bateu à porta da casa de Zhang Xianchun. No caminho, comprou frutas que um idoso pudesse mastigar e algumas tigelas de wantan, pois chegou cedo e os dois velhos certamente ainda não haviam almoçado.
— O que veio fazer? — perguntou o velho gordo, Zhang Xianchun, ao abrir a porta.
— Entreguei o quarto, vou filmar na Mongólia e queria emprestar mais alguns livros. Trouxe um pouco de wantan.
— Que sorte, assim nem preciso sair pra comprar comida — respondeu o velho satisfeito, levando Hao Yun para dentro.
O velho magro estava consertando o ventilador na sala e, ao ver Hao Yun, perguntou surpreso:
— Veio se mudar pra nossa casa?
— Não, vou viajar para filmar — repetiu Hao Yun.
— Sabe consertar ventilador? — quis saber o magro.
— Deixe comigo — disse Hao Yun, largou as coisas e rapidamente ajustou o ventilador, que voltou a funcionar. Não era questão de habilidade, mas de sorte: era só um mau contato. Com um chute, talvez também funcionasse.
— Se quiser morar aqui, pode ficar no quartinho perto da entrada — disse o velho gordo, satisfeito.
— Isso mesmo, não se importar, pode ficar lá — apoiou o magro.
A casa tinha três quartos principais, os dois laterais eram dormitórios e o central, a sala. No quintal, havia duas dependências e um banheiro. Uma era a cozinha, a outra, um antigo celeiro, agora depósito.
— Que ótimo! Posso pagar aluguel — alegrou-se Hao Yun, pois não encontrara ambiente melhor em Hengdian.
— Não precisa pagar. Só ajude com a limpeza quando puder, nós dois não somos muito diligentes — disse o gordo.
Hao Yun, feliz, levou suas coisas para o quartinho. Apesar de pequeno, era amplo e reformado, bem melhor que o cômodo rústico que alugara antes.
Ao voltar para a sala, almoçou com os dois idosos. Depois, abriu o livro e começou a tirar dúvidas:
— O livro diz que a arte de atuar envolve dualidade: o ator molda o personagem e o personagem molda o ator. A fusão dos dois seria a arte completa. Mas se o ator é moldado pelo personagem, não acaba sempre interpretando a si mesmo?
Essa era apenas uma das muitas confusões. Para ser sincero, o livro trouxe mais dúvidas que respostas a Hao Yun.
— Essa dualidade é uma relação entre domínio e submissão. É preciso dominar a inspiração e a intuição do "primeiro eu" (o eu do ator), para controlar e criar o "segundo eu" (o eu do personagem) — explicou prontamente o gordo.
Ambos eram claramente veteranos do cinema, cheios de conhecimento teórico e prático, e responderam rápido à questão de Hao Yun. Embora ainda confuso, pelo menos entendeu a relação entre os dois conceitos.
Fez muitas outras perguntas. Sem perceber, passaram-se duas ou três horas. Só ao notar que os dois senhores estavam cansados, Hao Yun guardou relutante o livro.
Os dois eram eruditos, mas não exatamente bons professores, embora fossem os únicos capazes de esclarecer suas dúvidas.
— Sugiro que você tente ingressar numa escola de arte ou num curso de teatro. O primeiro é mais trabalhoso, mas aprofunda o aprendizado; o segundo é rápido, mas superficial — aconselhou o gordo, tomando um gole de chá. Já passava dos setenta e, empolgado, sentia até dor na garganta.
— Estou pensando em prestar a Academia Central, mas não permitem que alunos dos primeiros anos atuem, o que complica um pouco — respondeu Hao Yun. Ainda não tinha certeza de qual escola tentar, nem garantia de passar de primeira. Estava disposto a tentar até três vezes; se não conseguisse, desistiria. Autodidatas também podem ter sucesso.
Na próxima produção de "O Arqueiro Heróico", a protagonista Zhou Xun era autodidata. No ano anterior, ganhara o prêmio de melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de Paris com "Rio Suzhou".
— A Central é rigorosa, tente a Academia de Pequim. Wang Fengsheng não liga tanto para regras — sugeriu o gordo.
Mas o magro discordou:
— Wang Fengsheng não é muito mais novo que você, deve se aposentar no ano que vem.
— Quem vai sucedê-lo, Zhang Jian, Wang Jinsong ou Zhang Huijun? — perguntou o gordo, com dificuldade de lembrar os nomes.
— Com certeza Zhang Huijun — disse o magro, mais velho, mas lúcido.
— Então tente a Academia de Pequim, é mais fácil entrar. Se dominar este livro, o exame será brincadeira para você — aconselhou o gordo.
Ele não insistiu na prioridade dos estudos para Hao Yun. A carreira de ator é mais prática que teórica. Muitas estrelas mirins desaparecem do entretenimento ao se dedicarem exclusivamente aos estudos.
Hao Yun ainda perguntou sobre detalhes das inscrições, mas os idosos não souberam responder com certeza. Olhou o relógio, percebeu que estava na hora de ir, ou perderia o ônibus, e despediu-se.
— Vá com Deus, não se esqueça do papel na peça de Lu Xun, em setembro — lembrou o gordo, levantando-se para acompanhar Hao Yun até a porta.
— Que peça? — estranhou Hao Yun.
— Não te contei? — O gordo arregalou os olhos.
— Não! — garantiu Hao Yun. Na situação em que estava, não esqueceria nenhuma oportunidade.
— Ah, era para ter te contado da última vez, mas esqueci. Quanto mais velho, pior a memória — lamentou o gordo, envergonhado.
— Não culpe só a idade, quando era jovem também esquecia as coisas — provocou o magro.
Acontece que, após ser aprovado como ator especial, o sindicato pretendia arranjar um pequeno papel para Hao Yun. O velho gordo se encarregou disso. Tudo corria bem, só faltava avisar o interessado.
— Lu Xun não é o roteirista de "Buraco Negro"? — arriscou Hao Yun.
— Sim, é o primeiro longa dele. Vão te arranjar um papel, mas qual será, só Lu Xun pode decidir — esclareceu o velho gordo, que, embora esquecesse nomes, tinha o raciocínio ainda muito claro.