Capítulo 70: Uma câmera pode arruinar uma vida, e a fotografia empobrece três gerações
Na volta, Hao Yun sentou-se novamente ao lado de Chen Guanxi.
Dessa vez, Chen Guanxi não dormiu. Ele estava entretido com uma câmera profissional recém-adquirida, ainda com a embalagem, claramente comprada na recente viagem à Sião.
Hao Yun decidiu dar-lhe mais uma chance.
Tentar extrair mais alguma coisa dele.
Fotografia +120!
Muito bem, parece que, tirando fotografia, não há mais nada que você possa me oferecer.
— Sabe usar? — Chen Guanxi percebeu que Hao Yun entendia cantonês, afinal, ele passara o tempo todo conversando animadamente com Liu Furong até quase o embarque.
Alguém que agradasse a Liu Furong, ao menos era digno de uma conversa.
— Não! — Hao Yun ainda estava com o atributo de fotografia que absorvera no dia anterior, mas saber usar a câmera era outra história; precisava ao menos entender o funcionamento do aparelho para que o atributo surtisse efeito.
— Eu te ensino, olha só...
Como não tinha muito material para fotografar, Chen Guanxi, entediado, decidiu ajudar Hao Yun e mostrar as funcionalidades da câmera.
— Haha, muito bom, fotografia é mesmo divertida!
Durante toda a viagem, Hao Yun aprendeu as operações básicas e algumas técnicas avançadas, já estava quase um especialista. Bastava fazer uma prova e estaria apto ao ofício.
O tempo todo, ele absorvia o atributo de fotografia; quando acabava, bastava extrair mais de Chen Guanxi ao lado. Difícil seria não aprender assim.
No entanto, surgiram alguns problemas.
Um deles era a vontade incontrolável de apontar a câmera para as passageiras bonitas sempre que absorvia o atributo.
Outro era sua velocidade de aprendizado, que quase fez Chen Guanxi ter um colapso.
As pessoas admiram o que é superior; se não sentem inveja, sentem admiração.
Chen Guanxi tinha sentimentos conflitantes em relação a Hao Yun. Não admitia invejá-lo, afinal, ele era um mero desconhecido vindo do interior.
Contudo, os fatos estavam à sua frente, e não podia negar certa admiração.
Quando Hao Yun pegou a câmera pela primeira vez, nem sabia onde ficava o obturador; ao aterrissarem em Hong Kong, já conseguia tirar boas fotos.
— Tenho várias câmeras. Se quiser, posso te dar uma — ofereceu Chen Guanxi, que gostava tanto de câmeras quanto de namoradas. Oferecer uma a Hao Yun era sinal de grande apreço.
Hao Yun parecia um gênio da fotografia; quem sabe, teriam companhia nas futuras sessões.
— Não, obrigado — respondeu Hao Yun, rindo. — Minha mãe diz: “câmera profissional arruína a vida, fotografia empobrece três gerações”. Professor Chen, jogue menos com isso.
A mãe de Hao Yun era uma camponesa, nem sabia o que era uma câmera profissional. Obviamente, nunca dissera tal coisa.
Foi só uma desculpa. Hao Yun decidiu se afastar das câmeras.
Se ele não pudesse evitar apontar a câmera para mulheres bonitas, cedo ou tarde isso lhe traria problemas.
— Você é doido! — Chen Guanxi saiu irritado.
Depois de ter ensinado tudo e ainda se disposto a dar uma câmera, sentiu-se traído.
No fim, dedicou-se em vão!
O grupo voltou para Hong Kong e as filmagens começaram oficialmente.
O filme "Conflito Interno" conta a história de dois homens de identidades trocadas — um infiltrado na polícia e outro na máfia — que, após um intenso embate, decidem buscar sua verdadeira essência.
Hao Yun interpretava a juventude de Chen Yongren, o infiltrado na polícia. Não era um papel principal, mas tampouco irrelevante, ocupando um espaço de destaque entre os coadjuvantes.
O plano de filmagem previa trinta dias.
A primeira cena era de Han Shen em um templo, refletindo sobre o destino cruel do sucesso às custas de inúmeros sacrifícios, enquanto se despedia de seus comparsas. O templo era o Templo dos Dez Mil Budas, assim chamado porque em seu salão principal havia mais de doze mil imagens de Buda, todas meticulosamente esculpidas, além do corpo preservado do monge fundador, Yuexi.
Nada ali envolvia Hao Yun; na verdade, nos primeiros dias, ele não teria cenas. Primeiro gravariam no templo, depois na delegacia, no cinema...
Só depois de uma semana chegaria sua vez, pois as cenas iniciais eram centradas em Liu Furong, Chen Guanxi e Zeng Zhiwei.
Depois, viriam as interações desses personagens.
Mais adiante, suas próprias cenas e as de Liang Chaowei.
O cinema de Hong Kong tinha um método bastante ágil e científico; como aproveitavam muitos cenários reais, a velocidade das filmagens era surpreendente.
Hao Yun pegou um laptop emprestado para checar seus e-mails.
A produção de "PTU" já havia enviado uma mensagem.
No resumo do projeto, ele soube que o filme estava em pauta desde o ano 2000, mas, por motivos de elenco e orçamento, fora cancelado algumas vezes, até conseguirem agora um investimento de quatrocentos mil dólares de Hong Kong.
Quanta miséria, só isso...
O cachê de Hao Yun seria cinco mil dólares de Hong Kong.
Pobreza leva à modéstia, riqueza leva à arrogância.
A penúria da equipe era tamanha que seria difícil disfarçar; esse dinheiro mal daria para os táxis.
Seu personagem nem nome tinha, era apenas um dos capangas do protagonista — algo comum nos filmes de Du Qifeng.
O roteiro, como de costume, era inexistente, muito menos biografia do personagem.
Em Hong Kong, o roteiro raramente era levado a sério. Wang Jiawei não tinha roteiro, e mesmo outros diretores só tinham poucas páginas.
Fora produções adaptadas, "Conflito Interno" era o primeiro filme com roteiro definido.
No entanto... a sinopse lhe soava estranhamente familiar.
"Em Busca da Arma"!
Ora, esse tal "PTU" era apenas a versão local do "Em Busca da Arma".
Recém-chegado ao mercado, Hao Yun já se via envolvido em duas produções sobre a busca de armas. Estava fadado a esse tema.
Respondeu ao e-mail, confirmando aceitação do papel e cachê, garantindo presença no set na data combinada.
Assim era suficiente.
Em Hong Kong, o e-mail tinha grande valor legal, mesmo sem contrato assinado.
Regras são regras.
"PTU" o queria no set em cinco dias, enquanto "Conflito Interno" só teria suas cenas após, pelo menos, uma semana.
O que fazer nesse intervalo?
Resolver problemas de matemática?
Restava ajudar a equipe com tarefas gerais.
Carregar equipamentos, transportar coisas, recolher lixo...
Talvez por sua boa disposição, a direção ficou satisfeita, e finalmente lembraram de incluí-lo, junto a Chen Guanxi, nos treinamentos preparatórios para o filme.
Primeiro, postura militar — diferente do padrão continental. Hao Yun achava menos elegante, mas como seriam poucas cenas, em meia hora já estava pronto.
Depois, código Morse. Não importava aprender ou não; no filme, bastava simular, pois ninguém do público entenderia o que estava sendo transmitido.
Mesmo assim, Hao Yun aprendeu, já que havia um professor gratuito contratado pela produção.
Treino de tiro — só precisava manusear armas cenográficas sob orientação profissional. No fim, nem sabia se seu personagem teria chance de atirar.
Mas havia um entusiasta de armas na equipe: Mai Zhaohui.
Nascido em família policial, pai e irmão eram ambos da força, crescendo em alojamentos policiais, sempre cercado por agentes.
Sua paixão por armamentos era antiga.
Por isso, atuara em "Rei das Armas" em 2000.
Agora, resolveu levar Chen Guanxi, Hao Yun e Lin Jiadong ao clube de tiro de um amigo.
Hao Yun ficou radiante — no continente, raramente teria acesso a armas.
No caminho, fez inúmeras perguntas a Mai Zhaohui sobre precauções e usos.
Lin Jiadong também tinha experiência, participando das conversas, enquanto Chen Guanxi olhava pela janela em silêncio.
Desde que fora rejeitado na proposta fotográfica, Chen Guanxi estava mais distante de Hao Yun.
Mas não era hostil; ao menos, não o desprezava.
Os dois já tinham dividido quarto algumas vezes.
O problema era que Chen Guanxi gostava de sair à noite e voltava de madrugada, quando Hao Yun já dormia; enquanto Hao Yun acordava cedo, e Chen Guanxi ainda estava na cama.
Ambos dormiam de roupa, atentos e prevenidos.
Naquele dia, acompanhados por Mai Zhaohui, Chen Guanxi não demonstrava interesse em conversar com Hao Yun.
— Anima-te, vamos brincar com armas! — disse Mai Zhaohui, olhando para os dois jovens no banco de trás, que realmente formavam uma bela dupla.
Ambos eram bonitos, mas de maneiras distintas.
Chen Guanxi tinha um charme frio e despojado.
Hao Yun parecia mais complexo, como se carregasse muitos fardos, mas ao sorrir, transmitia uma luz límpida e calorosa.
Hao Yun já conversara várias vezes com Mai Zhaohui e Zhuang Wenqiang sobre Chen Yongren.
Aos poucos, mergulhava no papel.
Tornava-se, cada vez mais, o jovem Chen Yongren.
Sim, ele poderia usar o atributo de atuação de Liang Chaowei e representar um Chen Yongren idêntico ao original, mas Jiang Wen já o aconselhara: não tente apenas imitar; tenha sua própria compreensão, assim sua atuação terá alma.
As flores podem renascer, mas a juventude não volta.
O Chen Yongren maduro era fruto de suas experiências; o jovem, vivido por Hao Yun, era diferente.
Por isso, ele preferia compreender por si mesmo, só então absorver o talento de Liang Chaowei, criando assim distinção entre ambos.
Ao chegar ao estande de tiro, Chen Guanxi voltou a sentir aquele temor de ser superado intelectualmente.
Apesar de criado no exterior, Chen Guanxi conhecia armas.
Já Hao Yun, precisava perguntar ao instrutor até como destravar a arma.
Contudo, bastou meio dia para Hao Yun dominar o uso das armas, tornando-se cada vez mais preciso.
Ele tinha certificação de instrutor de arco e flecha, o que lhe permitia acumular até trezentos pontos de atributo.
Já conquistara dez pontos permanentes em tiro; atributo permanente era como talento inato. Combinado com o que absorvera do instrutor e munição gratuita, não era de se estranhar que aprendesse rapidamente.
Contudo, dessa vez não ousou tirar uma nova certificação.