Fazer Negócios
A Montanha do Sul era marcada por rochas disformes e árvores retorcidas, envolta por uma névoa venenosa que pairava densamente no ar, tornando o lugar manifestamente inóspito. Normalmente, Ye Chen jamais se aventuraria por ali, pois tudo naquele ambiente exalava uma aura sombria.
Contudo, a presença de muita gente ao redor dissipava um pouco daquela atmosfera opressiva.
— Irmão Tigre, você também veio?
Com algumas pílulas antídoto em mãos, Ye Chen distribuía-as para os voluntários, até que uma delas chegou às mãos de Wang Hu.
— Senhor?
Seus olhares se cruzaram e Wang Hu sorriu.
— Vim tentar a sorte. Se realmente encontrarmos a Pedra das Cores, economizaremos uma boa soma quando formos vender nossos couros.
Até mesmo a remota vila de Aoshan fora mobilizada; ao que parece, a busca pela Pedra das Cores já se espalhara por todos os rincões do condado de Shi.
— Não se apresse, espere um pouco — advertiu Ye Chen, segurando Wang Hu pelo braço. — O efeito do antídoto ainda é incerto, deixe que outros experimentem primeiro. Você é o único da nossa vila aqui?
— Só eu. — Wang Hu assentiu. — Diferente desses agricultores, nós estamos acostumados a entrar nas matas e conhecemos os perigos daqui. Ninguém quer buscar a própria morte.
— Já estive aqui antes, tenho alguma experiência, por isso resolvi arriscar.
— Irmão Tigre, volte e traga mais gente, uns cinco ou seis bastam. Montaremos uma tenda de chá, serviremos comida e bebida por aqui — sugeriu Ye Chen. — Pelo movimento, este lugar atrairá cada vez mais gente. Procurar pedras é perigoso; melhor atuarmos nos arredores.
— Boa ideia!
Wang Hu partiu logo, enquanto Ye Chen perambulava sozinho pela névoa, observando os dez que haviam tomado seu antídoto.
O que dizer? O antídoto não garantia imunidade total, mas realmente ajudava a resistir ao veneno da névoa, permitindo àqueles dez homens permanecerem quase metade do dia ali dentro. Normalmente, a maioria aguentaria apenas alguns minutos.
— Doutor Ye, ainda tem antídoto?
O proprietário de um grande restaurante do condado de Shi aproximou-se, sorridente, ansioso por adquirir mais das pílulas.
Ye Chen sacudiu o pequeno saco de pano vazio e respondeu, sorrindo:
— Senhores, ainda resta antídoto, mas está todo na clínica. Quem quiser, deve procurá-lo diretamente com meu mestre.
Os assuntos da clínica não interessavam a Ye Chen. Seu mestre, experiente no ramo, sabia lidar com esses ricos sem dificuldade.
Com o foco em outros negócios, Ye Chen e o grupo trazido por Wang Hu ergueram a tenda de chá ao cair da noite.
A especialidade era o chá: embora não tivesse o efeito do antídoto, prometia clareza mental e evitava que a pessoa desmaiasse imediatamente por causa da névoa. Na verdade, era apenas um grande balde de água com algumas gotas de sangue.
Uma versão simples do antídoto: o mestre fazia os pães, Ye Chen preparava a sopa — o princípio era o mesmo. O mestre lucrava com os nobres, Ye Chen ficava com o público popular.
O chá era o destaque, mas havia também carnes assadas e outras iguarias, todas de acompanhamento. Não se podia subestimar esses produtos; com tanta gente circulando, o lucro era garantido.
Além disso, a tenda oferecia peles e mercadorias de montanha acumuladas pela vila de Aoshan. Ye Chen trouxera até as roupas dos moradores para vender, determinado a transformar o local num grande mercado atacadista. Não queria enriquecer, mas sim fazer o nome das peles da vila ser conhecido.
Seu objetivo era abrir uma loja de peles no condado de Shi, consolidando um negócio estável, passando de fornecedor de matéria-prima a processador e vendedor direto ao mercado.
A vila era pobre, e Ye Chen não desperdiçava nenhuma oportunidade de ganhar dinheiro.
No dia seguinte, quando o povo retornou à Montanha do Sul, deparou-se com uma clareira aberta na floresta, onde uma singela tenda de chá fora instalada.
Wang Hu, que no dia anterior buscava a Pedra das Cores, agora estava diante da tenda, anunciando em alto e bom som:
— Senhores e senhoras, não percam a oportunidade! Nosso chá, embora não substitua o antídoto, clareia a mente e ajuda a resistir à névoa. Apenas duas moedas por copo, não tem erro nem engano!
Com sua voz potente e um discurso peculiar, Wang Hu logo atraiu uma multidão.
Curiosos, jovens e velhos se aproximaram, perguntando:
— Você é o Wang Hu, não é? Já te vi vendendo peles. Esse chá realmente ajuda contra a névoa?
— A névoa está logo ali; experimentem um copo, depois entrem. Se não servir para nada, podem destruir minha barraca!
— Filho, sirva o chá ao seu tio!
— Amigos, se me conhecem, sabem com o que trabalho. Tenho peles de primeira, vejam se gostam. Hoje está tudo em promoção!
Wang Hu não era dos mais eloquentes, mas, colocado naquela função, conseguia se virar e até desenvolver o discurso de vendedor. Aproveitando a menção às peles, já começava a promovê-las.
— Peles depois, agora me dê um copo de chá. Duas moedas, quero ver se tem mesmo algum efeito.
Duas moedas não faziam falta nem ao mais humilde; ninguém se importava em gastar. Negócio é assim: tendo um bom começo, como peças de dominó, os clientes se multiplicam e, num piscar de olhos, o balde de chá se esgota.
Pouco depois, os que haviam tomado o chá e entrado na névoa retornaram:
— Não é que funciona? Ontem, quase desmaiei logo na entrada, hoje fiquei bem mais alerta. Mas o efeito não dura muito, logo fiquei fraco de novo.
Com vários dias entrando na floresta envenenada, o povo já começava a perceber o padrão do veneno, saindo antes de sofrer danos maiores. Parecia não haver problemas, mas a toxina já começava a se acumular no corpo, ainda que sem sintomas imediatos.
O comentário do homem robusto inflamou ainda mais o ânimo dos presentes:
— Wang Hu, tem mais chá? Me sirva um copo!
Gritaria geral, e o negócio explodiu logo no início.
Wang Hu olhou para Ye Chen.
— Esperem um pouco, vou preparar mais para vocês — disse Ye Chen, retirando-se para colher mais sangue.
Após um dia inteiro, sentia-se até anêmico.
À noite, enquanto Wang Hu e os outros voltavam para a vila, Ye Chen regressou à clínica na cidade.
Lá, encontrou o mestre Wang Yang e o irmão de aprendizado, ambos lançando-lhe olhares de puro mercador astuto.
— Ora, mestre, irmão, não me olhem assim, chega a dar medo — Ye Chen tentou disfarçar o desconforto com um sorriso.
— Achava que sabia ganhar dinheiro, mas você é quem realmente entende do negócio — Wang Yang suspirou. — Duas moedas por um copo de água... só você mesmo.
— Mestre, é chá, e ainda leva meu sangue — corrigiu Ye Chen.
— Quantas gotas de sangue em cada balde? — perguntou Wang Yang.
— Nem dez. E como foram as vendas das pílulas, mestre?
— Tirando as que você levou, vendemos as cento e quarenta e três restantes. Rendeu quinhentas pratas — Wang Yang gargalhou. — E quantos copos você vendeu hoje?
— Não contei, mas quase enchi um balde de moedas — Ye Chen respondeu, sorrindo.
[Mercadores frios, mesmo...]
Ouvindo o diálogo entre o mestre e o aprendiz, Zhao Shan não pôde deixar de pensar que, perto deles, ele próprio era mesmo um homem de coração puro.