O retorno à aldeia
De volta à aldeia de Kaoshan.
Ao observar as casas recém-reformadas e o majestoso salão ancestral no centro da aldeia, Ye Chen ficou impressionado com a eficiência de Wang Hu e dos demais.
— Senhor, finalmente o senhor voltou!
A alegria tomou conta de Wang Hu e dos outros ao verem Ye Chen regressar. Já haviam se acostumado a viver com ele, e sua ausência sempre trazia uma sensação de insegurança.
— Um mês sem vê-los, irmão Hu, vocês realmente foram muito eficientes! — Ye Chen sorriu, admirando a aldeia de Kaoshan, que havia mudado completamente, de bicicletas para motocicletas. — Leve-me para ver o salão ancestral!
O salão era amplo, cercado por muros, com uma construção alta ao centro. Na verdade, era apenas um pouco mais alto que as casas comuns de madeira ao redor e ainda estava longe das residências imponentes que Ye Chen vira no condado de Shi. Mas, de todo modo, o salão emanava uma atmosfera solene.
No grande salão, a luz do sol entrava pouco, tornando o ambiente escuro e austero. No centro havia uma longa mesa encostada numa parede branca, onde deveriam estar pendurados os retratos dos ancestrais. Porém, como a aldeia de Kaoshan não tinha ancestrais, tampouco havia retratos. Sobre a mesa repousava um incensário, com varetas de incenso ao lado, mas ninguém as havia acendido. Nas laterais, quatro cadeiras se alinhavam, deixando o salão amplo e vazio.
— Senhor, não sabemos ao certo quais são as regras aqui, então todos esperaram o senhor voltar para resolver — disse Wang Hu, ansioso.
— Não temos ancestrais, mas é preciso pendurar algo — respondeu Ye Chen. — Traga um rolo de pintura; vou escrever algumas palavras e você pendura ali. A árvore genealógica está pronta? Vou começar a escrevê-la.
Na verdade, Ye Chen não sabia exatamente como funcionava o ritual do salão ancestral, mas conhecia o suficiente para improvisar.
— Já está tudo preparado, senhor — apressou-se Wang Hu, entregando o rolo. Em seguida, chamou representantes de cada família, que foram anunciando seus nomes, enquanto Ye Chen os registrava, um a um, de cima a baixo.
— Senhor, agora que temos o salão ancestral, também precisamos de um chefe de clã, não acha? — Wang Hu olhou para Ye Chen com expectativa. — O senhor não quer ser o chefe da aldeia, mas tem que ser o chefe do clã!
— Caso contrário, ninguém vai aceitar outro — completou ele.
Diante dos olhares atentos de todos no salão, Ye Chen percebeu que não poderia recusar e assentiu.
— Sem regras, não há ordem. Hoje, estabelecemos nosso salão ancestral, onde honraremos nossos antepassados. Eles estarão sempre nos observando — declarou Ye Chen, como chefe do clã. — Doravante, qualquer morador de Kaoshan que cometa delitos será trazido aqui para receber punição. Quem glorificar a família também virá prestar homenagem e, após sua morte, terá o retrato pendurado no salão para que as gerações futuras possam admirar e aprender.
— Agora, vou ler para todos as regras do nosso clã. Não são muitas, apenas dez:
Primeira: Todos os membros do clã, sem distinção de sexo ou idade, são irmãos e parentes. Se um parente estiver em apuros, devemos agir sem hesitar;
Segunda: Todos os membros do clã devem ser justos e agir com retidão. Quem tramar maldades ou cometer crimes será excluído da árvore genealógica e punido segundo as leis da dinastia Song;
Terceira: Todos os membros do clã...
Assim, Ye Chen leu as dez regras, quase todas voltadas para a união, a virtude e o castigo dos maus, sem impor restrições à liberdade ou exigências excessivas. Por isso, todos respiraram aliviados em segredo.
Temiam que as regras fossem severas, mas perceberam que bastava serem eles mesmos.
Apesar de não serem rígidas, as regras não deixavam de servir de alerta. Quem as violasse seria expulso do clã e teria de deixar a aldeia de Kaoshan.
Sair dali significava enfrentar o mundo sozinho, sem a proteção do grupo — algo muito difícil naqueles tempos.
A questão do salão ancestral e das regras era tratada com seriedade. O processo poderia ser simples, mas jamais feito de qualquer jeito.
Do amanhecer até a noite, Ye Chen esteve ocupado com todos os detalhes: desde a árvore genealógica, os objetos decorativos, as regras e a escolha do chefe e dos anciãos do clã.
À noite, todos se reuniram para festejar a inauguração do salão.
— Senhor, um brinde ao senhor! — No pátio de Ye Chen, os copos se erguiam e tilintavam.
— Saúde!
Diante do brinde de Wang Hu, Ye Chen ergueu o copo e o esvaziou de uma vez.
— Irmão Hu, como está a busca pelas lojas no condado de Shi? — perguntou Ye Chen, colocando o copo na mesa.
— Já encontramos, mas não sabemos como organizar. Esperamos que o senhor cuide disso — respondeu Wang Hu, coçando a cabeça, envergonhado. Sempre achava que não sabia lidar com essas tarefas e, no fim, Ye Chen precisava decidir tudo.
— Organizar é fácil. Daqui a alguns dias, vamos arrumar tudo — disse Ye Chen.
Seu olhar voltou-se para Li Erhu. Se Wang Hu era o administrador, Li Erhu era o responsável pelas operações: criação de lebres e aquisição de animais estavam sob seu comando.
— Irmão Erhu, como está a reprodução dos coelhos?
Ao sentir-se observado por Ye Chen, Li Erhu coçou a cabeça, um tanto frustrado.
— Não muito bem...
— Há pouco mais de três meses, capturamos pouco mais de dez coelhos selvagens. Eles já tiveram duas crias. Mas alguns filhotes foram mortos pelas mães, outros esmagados, outros adoeceram. Enfim... agora, do maior ao menor, temos...
— Dos originais, dezessete ainda vivem. A primeira ninhada tem uns três meses, são vinte filhotes: sete machos e treze fêmeas, ainda não prontos para reproduzir. A segunda ninhada nasceu há menos de dez dias e quarenta sobreviveram. No total, temos setenta e sete coelhos — detalhou Tigrinha, filha de Li Erhu, que era a segunda responsável pela criação.
— Uma coelha costuma ter pelo menos cinco filhotes por vez. Segundo esses números, a sobrevivência da primeira ninhada foi de apenas vinte por cento, a da segunda passou dos quarenta por cento, mas ainda é baixa — estimou Ye Chen.
— Descobriram o motivo? — perguntou Ye Chen.
— Na primeira ninhada, as lebres ainda eram selvagens, não estavam adaptadas e acabaram matando muitos filhotes. Na segunda, o clima esquentou e, por falta de experiência, muitos morreram sufocados. Felizmente, percebemos a tempo e não tivemos uma perda total — explicou Tigrinha, com clareza de quem recebeu educação moderna.
— Se já sabem o motivo, ótimo. No começo, é normal haver problemas. O importante é identificar e corrigir — sorriu Ye Chen.
O que ele mais temia era o desconhecimento total, a falta de respostas.
— E os terraços? Como estão? — Como chefe do clã, Ye Chen precisava estar a par de tudo na aldeia. No futuro, não seria necessário cuidar de tudo, mas precisava saber dos principais pontos.
O jantar se estendeu do entardecer até a noite.
Ao final, todos estavam satisfeitos. Para um aldeão comum, comer até se fartar era motivo suficiente de contentamento.
Wang Hu e os outros relataram a Ye Chen tudo o que aconteceu em sua ausência nos últimos três meses, e, ao vê-lo a par de tudo, puderam, enfim, sentir-se tranquilos.