044 Protegendo o alimento

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2505 palavras 2026-02-09 14:18:04

Flores brancas, frutos vermelhos. O processo de florescer e frutificar, que deveria ser longo e gradual, agora se desenrolava diante dos olhos com velocidade quase sobrenatural. Nos galhos pendentes da Árvore do Fruto Rubro, os pequenos tomates vermelhos desapareceram por completo; até mesmo o verde dos ramos tornara-se sombrio, dando à árvore um aspecto de agonia, como se estivesse prestes a morrer.

No entanto, as seis flores brancas no topo da copa, junto aos frutos rubros, reluzentes e sem vestígio de impureza, destacavam-se com um brilho incomparável.

De repente, um grito estridente cortou o céu; o grande abutre, que até então permanecera oculto, surgiu num redemoinho de vento, suas garras afiadas lançando-se diretamente sobre dois frutos rubros.

— Seu abutre tolo, não pense que pode fazer o que quiser só por estar no céu!

Folha da Manhã não podia permitir que o abutre levasse os frutos, ainda mais dois de uma vez. Usando o Tigre Branco como trampolim e aproveitando o impulso da pata do felino, lançou-se ao ar, disparando uma flecha previamente preparada.

A flecha cortou o vento, veloz como um raio. Se o abutre insistisse em pegar os frutos, certamente seria perfurado. Sentindo o perigo iminente, a ave soltou um grito furioso, batendo suas enormes asas com violência, levantando rajadas de vento na tentativa de desviar a flecha.

— Não será tão fácil!

A flecha, disparada de baixo para cima, enfrentava maior resistência. Somado ao vento gerado pelo abutre, o projétil perdeu força, desviando-se e perdendo potência. Se atingisse o abutre, provavelmente não causaria grande dano.

O abutre respondeu de forma inesperada, e Folha da Manhã não contava com isso, mas sabia que não seria simples afugentar a criatura de imediato. Por isso, tinha um plano reserva.

Retirou de suas costas uma lança reta, arremessando-a com força. No ar, sem apoio, mas com a energia vital pulsando após longos períodos de treinamento, o golpe tornou-se devastador.

A lança, diferente da flecha, tinha poder de penetração e dano muito superiores. Além disso, o ataque súbito após a flecha pegou o abutre desprevenido. Em momento crítico, a ave desviou-se, elevando o corpo, escapando da lança, mas perdendo a chance de colher os frutos.

Enquanto Folha da Manhã e o abutre se enfrentavam, o Tigre Branco saltou sobre a enorme árvore do Fruto Rubro, usando toda sua força para derrubar uma grande parte dos galhos com um só golpe.

Seis frutos caíram ao chão junto com os galhos.

No solo, era o soberano; ninguém ousaria tomar-lhe o prêmio.

Mostrando os dentes, o Tigre Branco protegeu os frutos atrás de si, encarando com fúria o Urso da Lua Crescente, que se aproximava.

O urso rosnou baixinho, relutante em desistir. Embora tivesse algum grau de inteligência, não queria enfrentar a dupla formada por Folha da Manhã e Tigre Branco. Seu rosnado ocultava um tom de concessão.

— Só quero um.

O Tigre Branco, porém, não se contentaria em dividir; seu instinto de proteger o alimento, intensificado pela tentação dos frutos, tornava-o ainda mais feroz.

O Urso da Lua Crescente também era guiado por seus instintos, que lhe ordenavam conquistar os frutos a qualquer custo.

Erguendo-se sobre as patas traseiras, o urso golpeou o próprio peito como um gorila, soltando um rugido selvagem e lançando-se à luta. Os dois animais iniciaram um combate brutal.

Folha da Manhã, já de volta ao solo e atento ao abutre que se mantinha acima, observou a cena com resignação.

— Grande Branco, dê um para ele!

Folha da Manhã julgava que, com seis frutos, não seria problema conceder um ao urso, ficando ele e o Tigre Branco com dois cada, e deixando o abutre de fora.

Sua voz se perdeu no tumulto do combate; o Tigre Branco não lhe deu atenção, ou talvez nem tenha ouvido.

Pois bem, se querem lutar, que lutem! Folha da Manhã não se iludia achando que poderia intervir no duelo entre duas feras; sem força suficiente, seria apenas presa.

Embora já tenha sido presa do tigre, não desejava repetir a experiência.

Empunhando a lança, manteve-se a postos contra o abutre, que oscilava ao alto, relutante em desistir. Enquanto se ocupava com a ave, Folha da Manhã avançava em direção aos frutos caídos.

Felizmente, o Tigre Branco não se deixou consumir totalmente pela fúria; ao ver Folha da Manhã se aproximar dos frutos, não o atacou, apenas rosnou e continuou enfrentando o urso.

Mas, ao perceber Folha da Manhã pegando os frutos, tanto o Urso da Lua Crescente quanto o abutre ficaram alvoroçados.

O urso, já ferido, lutava sem se importar com as próprias lesões, olhos em brasa, completamente insano. A fúria e a loucura são distintas; movido pelo desespero, o urso arriscava tudo, enquanto o Tigre Branco relutava em seguir até o limite.

Assim, começou a perder terreno.

No céu, o abutre, antes recuado pela lança, também se tornou audaz; encarando a arma de Folha da Manhã, tentou agarrá-la com as garras e, numa sequência rápida, bicá-lo até a morte.

Era uma técnica familiar para o abutre; em outros tempos, Folha da Manhã não teria como resistir à velocidade e força da ave. Mas agora, com sentidos aprimorados, não seria fácil ser derrotado.

Ainda assim...

Folha da Manhã não se esquivou, mas enfrentou diretamente o ataque do abutre.

A ave, pairando acima, seria um incômodo se não fosse eliminada. Assim, deixou-se atingir: as garras seguraram a lança, o bico perfurou sua testa, matando a presa. O abutre tentou soltar as garras para pegar os frutos, mas...

O que deveria ser uma vítima indefesa, subitamente sacou uma adaga da cintura, segurou firmemente a asa da ave e cravou a lâmina em seu peito.

Com um corte rápido, sangue jorrou e vísceras caíram em desordem.

O abutre tentou voar, Folha da Manhã não o impediu, mas após dois metros, soltou um lamento e caiu ao chão.

O soberano dos céus, assim, encontrou seu fim.

A queda do abutre mudou o rumo da disputa. Por mais insano que fosse, o Urso da Lua Crescente sabia preservar a própria vida; ao ver a morte do abutre, o sangue lançado sobre ele trouxe-lhe sobriedade.

Um rugido de frustração, mas sem alternativa, o urso fugiu.

No momento decisivo, a razão venceu o impulso.

O Tigre Branco, contemplando a fuga do urso, soltou um brado de vitória, seu rugido ecoando pelas florestas, assustando aves e bestas, impondo respeito a todos os animais.

— Chega, pare de gritar, venha comer!

Folha da Manhã chamou o tigre.

Embora inicialmente pensasse em dividir um fruto com o urso, agora que este partira, não havia por que ser generoso.

Mas, ao se preparar para saborear o Fruto Rubro, o Tigre Branco voltou-se, mostrando os dentes e soltando um rosnado baixo dirigido a ele.

Até esse ponto o tigre protegeria o alimento?

— O que foi, quer apanhar?

Folha da Manhã sorriu, apertando os punhos e aproximando-se do Tigre Branco que rosnava baixinho.