Possessão

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2463 palavras 2026-02-09 14:18:47

— Senhor, esse tipo de cultivo seu algum dia terá fim? — perguntou Mí Xué, brandindo sua pesada clava com espinhos, golpeando repetidamente o corpo de Ye Chen.

Antes, Mí Xué não tinha coragem nem de olhar. Mas, ao longo dos anos, ela já não era mais aquela jovem sensível; de garota que tapava os olhos para não presenciar a cena, havia se tornado uma mulher que, sem qualquer perturbação, aplicava os golpes ela mesma.

A cada pancada, os espinhos afiados da clava deixavam marcas claras e brancas sobre a pele de Ye Chen, mas não conseguiam perfurá-la. Outrora, tais golpes certamente teriam rasgado sua carne, mas, desde que sua pele fora endurecida pelo método da Areia de Ferro, o amortecimento proporcionado por essa técnica e a circulação do qi em seu corpo permitiam que sua carne resistisse.

— A Areia de Ferro está quase completa, mas a Camisa de Ferro ainda parece distante — disse Ye Chen, mantendo a postura, agachado, enquanto suportava os golpes de Mí Xué.

Segundo o manual da Camisa de Ferro, resistir a uma clava de ferro já era considerado o ápice da técnica. Se o corpo suportasse tal arma, o treinamento seria considerado perfeito. Contudo, na prática, Ye Chen percebeu que os limites estavam além disso.

No momento, Mí Xué apenas desferia golpes comuns, com uma força de pouco mais de cento e cinquenta quilos. Seu corpo podia aguentar, mas, se ela utilizasse todo seu qi, ultrapassando a marca de quinhentos quilos, seria impossível resistir. E mais: se o qi fosse expelido sobre a clava, formando pontas afiadas semelhantes à luz de uma espada, Ye Chen não teria chance alguma.

— Senhor, esse método de treino é desumano demais — comentou Mí Xué.

— Como assim? — Ye Chen olhou para ela.

— Como o senhor já me explicou, esse tipo de treinamento equivale ao estímulo do ambiente externo, que impulsiona a evolução dos símios em humanos. Da mesma forma, o impacto de armas pesadas estimula o corpo a evoluir para se adaptar, fortalecendo a resistência aos golpes.

— A teoria faz sentido, mas quanto tempo o senhor acha que levaria? Seu corpo realmente parece ficar mais resistente a cada batida, formando uma espécie de calo, mas, se faltar esse estímulo diário, ele desaparece. Quanto aos danos, como o senhor tem um corpo especial, nem vou comentar.

— Então você acha que minha Areia de Ferro é apenas um calo? — Ye Chen sorriu.

— Mas a Palma de Areia de Ferro é uma técnica consolidada, tem um ponto de perfeição definido; já a Camisa de Ferro não tem esse estágio. O manual termina na clava de espinhos. É claro que devemos buscar o conhecimento, mas o senhor mesmo nos ensinou: "Nossa vida é limitada, enquanto o saber é infinito. Buscar o infinito com o finito é fadiga."

Com um semblante sério, Mí Xué continuou: — O mais importante é que a pele e o tecido muscular interno são bem diferentes. O senhor acha que, só porque a Areia de Ferro funcionou, a Camisa de Ferro também funcionará?

Mí Xué, com seu vasto conhecimento médico, duvidava muito dessa possibilidade.

— E o que importa? — respondeu Ye Chen. Ele concordava com a lógica de Mí Xué, mas, e daí? Se a Camisa de Ferro poderia, ou não, passar por uma transformação como a Areia de Ferro, só tentando para saber; deduções teóricas não serviam de nada.

O pensamento de Mí Xué já havia cruzado a mente de Ye Chen antes, mas ele não se importava. Passar cem anos experimentando para ver se dava certo ou não? Cem anos não seriam nada para ele.

Aquela máxima sobre buscar o infinito com o finito servia para pessoas como Mí Xué, mas, para Ye Chen, talvez não se aplicasse. Com uma vida interminável, seria realmente impossível aprender tudo que o mundo tem a oferecer?

Ao ouvir isso e observar a expressão de Ye Chen, Mí Xué suspirou:

— Senhor, será que podemos, por uma vez, não discutir?

— Estou falando sério com o senhor.

— Eu também estou respondendo seriamente. Você está certa, mas não pretendo te ouvir.

Pum!

De repente, Mí Xué sentiu-se sufocada pela raiva, prendeu o ar, canalizou seu qi, e o golpe seguinte com a clava foi pelo menos o dobro mais forte.

— Ei, mocinha, está se vingando? — Ye Chen, fazendo careta, olhou de lado para Mí Xué.

— E se estiver? — respondeu ela com o mesmo olhar.

— Não faz diferença... Daqui a pouco, depois do almoço, vou tentar uma nova evolução na Técnica da Juventude Eterna, e não deixo você assistir.

— Ora, senhor... estava só brincando! — disse ela, mostrando um lado travesso, quase infantil, querendo até tocar os relevos que seus golpes haviam deixado na pele de Ye Chen.

— Não encosta, não! — Ye Chen se esquivou rapidamente, sério.

Mí Xué ficou indignada.

— Senhorrrr...

Vendo Mí Xué repentinamente sem vergonha, toda carinhosa, Ye Chen sentiu arrepios pelo corpo inteiro, apressou-se em vestir-se e afastou-se dela.

— Vá embora logo! Antes, você era normal; desde que virou mãe, ficou cada vez mais sem modos.

Mí Xué, é claro, não foi embora. Com alegria, preparou o almoço para Ye Chen e ficou ali, teimosa, sem arredar o pé.

Depois de comerem, ela ficou encarando Ye Chen sem parar. Incomodado com aquele olhar, Ye Chen se levantou:

— Fique aí quietinha e assista, se quiser. Vou tentar avançar. Nem sei por que tanto interesse, já que esse tipo de progresso não provoca fenômenos extraordinários no céu ou na terra.

Ye Chen sentou-se de pernas cruzadas sobre a cama, fechou os olhos e iniciou a Técnica da Juventude Eterna.

Guiado pela arte, a névoa espiritual em seu cérebro começou a se condensar, até que começou a chover, pingos caindo sobre o solo de sua carne.

Antes, Mí Xué dissera que a evolução humana era uma resposta passiva ao ambiente. Agora, porém, as mudanças em Ye Chen tinham algo de evolução ativa; o espírito, pleno e carregado de vontade, caía sobre o corpo físico. Durante essa concentração, o qi transformava-se: a semente interior começava a enraizar-se mais profundamente.

Esse enraizamento vinha, na verdade, da força espiritual, um desejo subjetivo. Quanto mais fundo enraizava, mais nutrientes o corpo fornecia à semente, e, por sua vez, a semente traria mais vigor à árvore da vida.

Um deserto e uma floresta: dois cenários absolutamente distintos!

— Ufa!

Depois de cerca de uma hora, Ye Chen soltou um longo suspiro e abriu os olhos. No instante em que o fez, seus olhos brilharam intensamente, como olhos de gato na escuridão.

Pegando Mí Xué de surpresa, aquele olhar atravessou-a, causando-lhe uma breve confusão mental. Felizmente, graças à sua força, ela logo se recuperou.

Então...

— Ai, meus olhos! Estou cega, dói tanto!

"O que foi que eu ensinei a essa garota?", pensou Ye Chen, vendo que Mí Xué já não tinha mais nada da elegância de sua juventude, parecendo estar possuída por Zhang Yuan.