097 Cenário

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2627 palavras 2026-02-09 14:20:51

Quando Ye Chen realmente ficou sério, Yang Zaixing e He Yuanqing praticamente não tiveram forças para resistir. A técnica de força do Dragão e Elefante, no sexto nível, com centenas de quilos de potência, diante de Ye Chen, não fazia grande diferença.

— Você... A partir de agora, é você o capitão. — suspirou Yang Zaixing, abrindo mão da disputa.

— Já lhes disse, não vim para tomar o seu lugar. — Ye Chen sorriu, batendo de leve no ombro de Yang Zaixing. — Ser capitão não é só questão de força, é preciso experiência, e nisso você é quem melhor se encaixa.

— Sua lança é boa, muito agressiva, mas lhe falta um pouco de refinamento. Se conseguir deixar de lado esses floreios desnecessários, ficará ainda melhor.

— Quanto ao seu martelo, também é excelente, mas vejo que não o manuseia com tanta facilidade. Talvez devesse usar um pouco menor.

Sorrindo, Ye Chen se afastou.

— Senhor, não imaginei que fosse levar tão a sério. — Embora não tivesse presenciado o duelo durante o dia, Zhang Tao, comandante do exército, sabia exatamente o que acontecia entre seus subordinados.

Derrotar Yang Zaixing e He Yuanqing num piscar de olhos não era coisa que qualquer mestre das artes marciais conseguiria.

Imaginava que até mesmo Ye Chen precisaria se empenhar ao máximo.

Ao máximo?

Ye Chen não confirmou nem negou, limitando-se a dizer:

— Depois de tantos anos de treino, quase nunca lutei a sério. Agora, prestes a ir para o campo de batalha, não posso mais agir como antes. Usei os dois para aquecer. Senti o sangue ferver, foi bom.

— Senhor, vai mesmo continuar na tropa de choque? — Zhang Tao não se conformava, nem ficava tranquilo com Ye Chen ali.

A linha de frente era perigosíssima. Quando a guerra começasse, a tropa de choque sofreria uma pressão enorme. Um descuido e, mesmo o melhor dos guerreiros, poderia não sobreviver.

— O quê? Não gosta de me ver lá? — Ye Chen sorriu, olhando para Zhang Tao. — Comigo, ao menos a tropa de choque ganha uma lâmina afiada. Não garanto abrir todos os caminhos, mas ajudarei bastante.

— Se veio só para falar essas inutilidades, vou indo embora.

Zhang Tao ficou sem palavras.

No dia seguinte, o exército partiu.

Marcha forçada, rumo direto a Bianliang, capital imperial.

Quando estavam a cem li da cidade, o exército parou.

Não por encontrarem inimigos, nem por cansaço, mas porque... os jovens, que jamais haviam presenciado uma guerra real, ficaram estarrecidos diante do que viam.

Uma colina feita de corpos.

A maioria mulheres, muitas vestindo véus finos, adornadas como cortesãs e damas nobres.

Essas senhoras, que até pouco ocupavam altos postos, agora jaziam empilhadas como lixo, as vestes rasgadas, a última dignidade exposta, destroçada, apodrecida.

Braços e pernas misturavam-se em desordem; hematomas e cortes cruzavam as peles pálidas; os rostos congelados no terror derradeiro.

Rostos contorcidos, olhos arregalados, cabelos desgrenhados; o sangue escorria e formava riachos, moscas zuniam em nuvens, o fedor era insuportável.

Comparando com cenas de membros decepados, esta, embora menos sangrenta, era muito mais chocante.

Não era só a visão, era a alma que estremecia.

Os jurchéns haviam arrancado o último véu de pudor da dinastia Song, era uma afronta nua e crua à China.

Dez mil soldados fitavam a cena em silêncio. Ninguém falava, um silêncio sepulcral.

No campo de batalha, todos esperavam cenas de sangue, mas aquilo... fazia ranger os dentes, apertar as armas com raiva.

Aquelas damas nada tinham a ver com os soldados, muitos até nutriam desprezo por elas, mas... isso não justificava tamanha humilhação!

De repente, um choro infantil rompeu o silêncio, ecoando pelo campo.

Uma menininha, vestida com trapos vermelhos, surgiu por entre as frestas dos cadáveres, chorando em desespero.

Havia medo, pavor, tristeza...

O rostinho ingênuo jorrava lágrimas, a boca aberta em soluços, quase sem conseguir respirar.

Ye Chen se aproximou em silêncio, pressionou um ponto de acupuntura na garotinha, que adormeceu. O cheiro de sangue era pungente. Ao olhar para a mão manchada de vermelho, Ye Chen percebeu que a roupa da menina não era vermelha, mas estava tingida pelo sangue.

— Ela... — Yang Zaixing olhou para a menina nos braços de Ye Chen, querendo dizer algo, mas hesitou.

— Depois de presenciar tamanha atrocidade, o choque para ela é enorme. Melhor que durma um pouco. — respondeu Ye Chen, sério. — Não é permitido ter uma criança assim dentro do acampamento, mas não se preocupe, avisarei aos superiores, não lhe causarei problemas.

— Não é isso... — Yang Zaixing franziu a testa, negou com a cabeça, mas não insistiu. Olhou com ódio para a cena diante de si. — Esses jurchéns são verdadeiros animais. Se eu encontrar algum, vou arrancar-lhes a pele e os músculos!

— A guerra... é assim. — suspirou Ye Chen. Mesmo já tendo visto fotos e desenhos parecidos nos tempos modernos, ao presenciar com os próprios olhos, sentiu-se profundamente abalado.

— Capitão, ordens superiores: todo o exército deve enterrar essas irmãs agora! — He Yuanqing trouxe o comunicado.

— Não estávamos indo atacar Bianliang? Os jurchéns estão a cem li daqui, nem perto nem longe, mas parar agora não seria apropriado. — ponderou Yang Zaixing.

— O mensageiro acabou de chegar. Os jurchéns já não estão mais em Bianliang. Há cinco dias tomaram a cidade, capturaram os dois imperadores e arrastaram a maioria das mulheres da cidade. Essas irmãs, provavelmente, são parte delas. — informou He Yuanqing, sério.

Yang Zaixing assentiu:

— Então vamos ao trabalho.

Foram ao todo treze mil quinhentos e sessenta e dois corpos. Quando terminaram de enterrá-los, o crepúsculo já caía.

Diante de uma lápide comum, estava escrito: "Túmulo de nossas irmãs".

À frente da sepultura, Zhang Tao e os mais de dez mil soldados prestaram silêncio em luto.

Por um momento, depois virou-se para a tropa e bradou:

— Guerreiros, irmãos, vamos vingar-nos!

— Vingança!
— Vingança!
— Vingança!

As armas batiam no chão, o caos dos gritos tornou-se um só, a massa de soldados, até então calados, urrava para extravasar a fúria, para prometer aos mortos que não seriam esquecidos.

Para quem não se importa, pode parecer pouco. Mas para o exército de Zhang, já educado e desperto, era algo impossível de suportar!

Seguiram marcha durante toda a noite. Na manhã seguinte, chegaram a Bianliang.

Bianliang, ao amanhecer, com barracas de pão na névoa; à tarde, cortesãs lendo romances nas casas; à noite, jovens poetas embriagando-se com versos; de madrugada, o velho vigia caminhando diante dos palácios dos nobres. Cada dia era único, e quando as notícias das decisões do governo chegavam ao povo, era sempre em Bianliang que se espalhavam primeiro. Afinal, era uma cidade populosa e próspera.

Ye Chen nunca estivera ali, mas ouvia seus alunos falarem da cidade.

Mas agora...

Desolação, ruínas, corpos espalhados, sangue por toda parte, alguns recolhendo defuntos e fugindo ao ver Ye Chen e o grupo...

A imensa Bianliang parecia uma cidade fantasma, silenciosa e aterradora.