Adeus

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2791 palavras 2026-02-09 14:19:16

Condado de Pedra.

—Irmão mais velho, ainda tem algo a dizer?

Diante do leito, observando o irmão mais velho Zhao Shan à sua frente, Ye Chen cumpria o acordo feito décadas atrás, vindo prestar-lhe as últimas homenagens.

—O que haveria para dizer?

Zhao Shan balançou a cabeça levemente, fitando Ye Chen que permanecia igual ao passado.

—Irmão mais novo, seja sincero comigo: você é imortal?

—Irmão, acho que você não puxou nada ao nosso mestre.

Ye Chen fez uma careta, dizendo:

—Lembre-se de como nosso mestre partiu, tão desprendido.

—Olhe para você agora, prestes a morrer, ainda se prendendo a essas bobagens?

—Diga o que quiser.

Já à beira da morte, Zhao Shan não tinha ânimo para discutir com Ye Chen.

—De todo modo, você ainda deve viver por muitos anos. O mundo está ficando perigoso. Cuide dos meus filhos para mim. Não peço muito, apenas que tenham o que comer e sobrevivam.

—Que mundano.

Lançando um olhar aos filhos e filhas ajoelhados ao lado, assim como netos e bisnetos, Ye Chen não pôde deixar de admitir: seu irmão realmente multiplicara a família.

Pensando bem, talvez fosse mérito daquele afrodisíaco que lhe dera anos atrás.

—Vou pedir à Seita do Tigre para cuidar deles. Quanto ao futuro, dependerá da sorte de cada um.

Ye Chen não era babá, não poderia zelar por cada descendente; um pouco de atenção era o máximo que faria.

—Já é o suficiente. Além disso, quero ser enterrado ao lado do mestre.

Zhao Shan suspirou, com dificuldade.

—Nasci órfão. Tudo o que conquistei devo ao mestre. Na morte, quero permanecer junto a ele.

—Sem problemas.

Ye Chen assentiu.

—Mais alguma coisa?

—Sim!

Zhao Shan falou:

—Não quero cerimônias grandiosas no meu funeral. Mas queimar duas montarias para mim; quanto ao dinheiro, que seja o que acharem conveniente. Só que...

Murmurando sem parar, ele parecia querer aproveitar cada fôlego com palavras.

Falava de coisas aparentemente insignificantes, mas de valor para certos costumes.

Para Ye Chen, era difícil não se sentir constrangido.

Após um longo tempo ouvindo, Zhao Shan perguntou, com um tom quase magoado:

—Irmão, está me ouvindo?

—Não.

Ye Chen respondeu sem rodeios:

—Seus filhos e netos ouviram, isso basta. Não precisam de mim para isso.

—E você, não tem nada a me dizer?

—Não me faça esperar muito junto do mestre. Venha logo.

Com essas palavras, expirou o último suspiro.

Apertando a mão envelhecida, Ye Chen coçou de leve o canto da boca. Esse sujeito...

Essa última frase realmente lembrava o velho mestre.

Mas...

—Irmão, temo que se decepcionará.

Olhando para Zhao Shan, que partira com expressão serena, Ye Chen não chorou, apenas soltou um longo suspiro. Nos últimos anos, as pessoas próximas começaram a partir, e isso só aumentaria. Não era que tivesse se acostumado, mas aprendera a aceitar a perda.

Esse era também um dos motivos pelos quais decidira partir. Viver tantas despedidas era doloroso.

—Pai!

—Vovô!

...

O choro irrompeu no quarto. Era claro que os descendentes estavam verdadeiramente tristes pela morte do pai e avô, não era fingimento.

—Vocês ouviram o que ele pediu, não ouviram?

—Montarias, prata, concubinas... queimem o que for preciso.

Ye Chen acenou com a mão e falou calmamente:

—Se é verdade ou não, não importa. Atendam ao último desejo.

—Até concubinas, prestes a morrer e ainda tão galanteador...

Balançando a cabeça, Ye Chen deixou o quarto.

Na porta, ergueu o olhar para o céu, nuvens fugazes em um belo dia.

—Isto é o caminho do céu...

Um sentimento indizível trouxe subitamente uma revelação, e Ye Chen murmurou em voz alta.

A juventude e os cabelos brancos passam num instante, só o caminho do céu permanece!

Após cuidar dos assuntos de Zhao Shan, Ye Chen deixou o condado de Pedra e seguiu para as montanhas profundas.

Auuuu...

Com sua chegada, a floresta se agitou de repente. Um enorme tigre com quase dois metros de altura atravessou a mata: era o Grande Branco.

Diante do animal, Ye Chen percebeu claramente o ar de velhice que o envolvia. O pelo estava seco, sem o brilho acetinado de outrora. Os olhos ainda mantinham autoridade, mas estavam turvos, a visão evidentemente debilitada. Ao rugir, via-se um dente faltando.

Como tigre, viver quarenta e cinco anos era uma longevidade extraordinária.

Mesmo com energia vital e tendo comido o fruto escarlate, isso não o permitiu romper os limites naturais da vida. Continuava forte, invencível na floresta, mas o tempo era curto.

O sinal mais claro: começou a grudar em Ye Chen.

Antes, se quisesse vir, vinha; se não, ignorava.

Agora, sempre que Ye Chen aparecia, bastava sentir seu cheiro para vir correndo.

Ye Chen montou habilmente no tigre, deu algumas palmadinhas em sua cabeça e sorriu:

—Vamos ver como está a árvore do fruto escarlate!

Com Ye Chen nas costas, o tigre percorreu veloz a mata. Logo, homem e fera chegaram ao lugar onde se encontraram pela primeira vez.

Naquela época, a árvore do fruto escarlate secou após dar seus frutos, mas aos poucos voltou a brotar. No entanto, apenas renovou as folhas, nunca mais produziu frutos, parecendo agora uma árvore comum.

—Segundo o que o mestre do nosso mestre disse, talvez ainda demore sessenta anos para frutificar de novo.

Erguendo o olhar para a copa, Ye Chen murmurou, depois acariciou o Grande Branco:

—Quando der frutos de novo, será que você ainda estará aqui?

O tigre balançou a cabeça, deitou-se calmo sob a árvore, fechou os olhos e aproveitou o carinho de Ye Chen.

Sem palavras, homem e tigre ficaram juntos, e o dia passou assim na floresta.

À noite, o Grande Branco trouxe uma presa.

Ye Chen assou a carne, ambos comeram juntos.

No dia seguinte, Ye Chen se despediu.

—Certo, volto outro dia. Você é um tigre, o rei da floresta, não fique tão manhoso quanto um gato.

Dando um tapinha na cabeça do animal, Ye Chen se afastou.

Com a morte de Zhao Shan, Ye Chen parecia impassível, mas por dentro estava abatido.

Sentia-se vazio.

Depois de um dia e uma noite com o Grande Branco, o contato com a natureza amenizou um pouco esse vazio.

Deixando a mata, Ye Chen voltou à vila de Kao Shan.

Ao retornar, encontrou alguém inesperado: Li Qiu Shui.

—Não imaginei que viria. Pelo visto, está prestes a morrer e quer ser enterrada ao lado de Wu Ya Zi?

Mesmo a metros de distância, Ye Chen já percebia em Li Qiu Shui o ar de ocaso.

Se o Grande Branco exalava apenas velhice, Li Qiu Shui agora parecia uma morta-viva.

—Todos esses anos e você não mudou nada. Sempre disseram que havia um imortal aqui. Parece que não era só lenda.

Ela fitou Ye Chen e falou.

—É apenas efeito da pílula da juventude.

Ye Chen respondeu com indiferença.

—Talvez.

Li Qiu Shui balançou a cabeça, sem concordar nem discordar.

—Você... perdeu toda a energia vital?

Antes, de longe, não notara. Agora, a um metro de distância, Ye Chen percebeu que ela não tinha mais nenhum resquício de energia.

—Para que serviria, se estou morrendo? Dei tudo àquela peste da Zhang Yuan.

Li Qiu Shui disse com serenidade:

—Em troca, depois de destruir Xi Xia, precisava deixar um descendente para a velha aqui.

—Você não se apega a nada, hein.

Ye Chen ficou surpreso, depois sorriu.

—Curioso... Mal terminei de acompanhar um ao outro mundo, agora é sua vez. Acho que deveria acrescentar ao meu currículo mais um ofício: coveiro da Grande Canção.

—Conto com você. Só peço que me enterre mais perto de Wu Ya Zi, pelo menos mais do que aquela víbora da Wu Xing Yun.