105 Futuro
Após uma conversa profunda, Ye Chen obteve a técnica budista da decadência e da prosperidade, bem como os ensinamentos de cultivo do mestre Chan da decadência e da prosperidade.
Mas ele não pretendia cultivá-los. Era sofisticado demais, esse desprendimento do mundo mundano e afins, e não lhe parecia interessante.
Claro, o significado de decadência e prosperidade, o controle sobre as forças geradas pelos desejos e assim por diante, ainda eram bastante dignos de referência.
Em suma, essa troca aprofundada foi muito proveitosa.
— O benfeitor já vai partir? — perguntou o mestre Chan da decadência e da prosperidade, ao ver Ye Chen mencionar a partida. — Por que não espera até amanhã, quando o sermão terminar? Talvez, ao fim do ensinamento, tenha uma sensação diferente.
O chamado sermão consistia em propagar, antes da morte, as próprias compreensões e experiências.
Era uma forma de usar as próprias ideias para influenciar os outros; mas também uma maneira de emprestar a sabedoria de todos os seres vivos para que pudesse sair daquele estado semidecadente, semiprospero.
Depois de tantos anos reprimindo tudo sozinho, sem conseguir avançar, o mestre Chan da decadência e da prosperidade, à beira da morte, queria tentar outro método.
— Eu ouvirei o mestre pregar lá embaixo — disse Ye Chen, sorrindo. Ele não se incomodava em assistir à movimentação, mas não gostava muito de ficar no centro dela.
— Ainda tenho uma coisa a perguntar ao mestre. Além da técnica budista da decadência e da prosperidade, também tenho muito interesse no dedo de um só golpe de Dali e na espada dos seis canais. Não sei se o mestre estaria disposto a trocar? — disse Ye Chen. — Aqui comigo há ainda muitos manuais de técnicas divinas, como o clássico do fortalecimento dos tendões da Montanha Shaolin, as setenta e duas artes supremos, e também a técnica sem forma do livre e desimpedido, entre outras. Contanto que o mestre diga, posso trocar por qualquer uma delas.
Ao ouvir isso, o mestre Chan da decadência e da prosperidade balançou levemente a cabeça.
— Amitabha, benfeitor, está demasiadamente apegado.
Ye Chen deu de ombros. Parecia que não haveria negócio, então se virou para partir.
— Sendo assim, mestre, que nos encontremos de novo por destino!
Acenando com a mão, Ye Chen deixou o Salão da Decadência e da Prosperidade com Ye Huan.
— Nunca ouvi dizer que havia alguém assim no mundo marcial. — Observando sua partida, o olhar de Jiumo Zhi reluziu com certa dúvida. — Tão jovem, tão forte, tão experiente... e ainda assim alguém assim permanece sem fama alguma. A terra central realmente abriga dragões ocultos e tigres adormecidos!
Jiumo Zhi não pôde deixar de recordar o que sofrera quando, anos atrás, vagueara pela terra central, e acabou balançando a cabeça.
— Essa pessoa... talvez não seja de todo desconhecida.
Diante de Jiumo Zhi, Wangchen, o antigo chefe dos quatro grandes perversos, Duan Yanqing, falou lentamente.
Mas, quando o olhar de Jiumo Zhi se voltou para ele, aquele sujeito voltou a calar-se.
Jiumo Zhi ficou descontente por dentro; os cantos da boca se moveram levemente, e se estava xingando alguém, só ele mesmo sabia.
Não importava o que fosse dito, a discussão de hoje fizera o velho monge sentir bastante inspiração. Raro, de fato! — disse o mestre Chan da decadência e da prosperidade, sorrindo. — Quanto a saber quem é este benfeitor, isso não é importante, nem vale a pena se apegar a isso.
[Você, que está prestes a morrer, é claro que não acha nada importante.]
Jiumo Zhi zombou em seu íntimo e, em seguida, ergueu um pouco os cantos da boca, exibindo um sorriso de quem foi instruído.
— As palavras do mestre são absolutamente corretas. Fui eu quem se apegou demais.
— Papai, para onde vamos agora? — Sem ânimo para se preocupar com os três velhos monges, cada um com sua própria disposição no salão, Ye Chen saiu lentamente do Templo do Dragão Celestial com Ye Huan ao seu lado, segurando sua mão, e a pequena perguntou com curiosidade.
— Para a hospedaria. Comer.
Depois de passar a maior parte do dia discutindo com os três velhos monges, o céu já escurecia, e Ye Chen há muito estava faminto. Embora a refeição vegetariana do Templo do Dragão Celestial fosse deliciosa, ele ainda preferia carne.
— Oh, oh.
A menina assentiu obedientemente; ela também já estava com fome.
— Papai, que tipo de artes marciais são o dedo de um só golpe e a espada dos seis canais que o senhor mencionou há pouco?
— São técnicas muito poderosas — disse Ye Chen, sorrindo.
— Quando eu crescer, eu vou buscá-las para o senhor. — Naquele salão, as discussões de meio dia eram como ouvir escritura celeste para Ye Huan, mas, no fim, as palavras de Ye Chen ficaram profundamente gravadas em seu coração.
— Muito bem.
Ye Chen acariciou a cabecinha da menina com carinho e disse, cheio de expectativa:
— Então este pai vai esperar por isso. Você precisa crescer depressa, ouviu?
Depois de comer e beber até se saciar, a noite caiu por completo. Quando Ye Huan adormeceu profundamente, Ye Chen sentou-se de pernas cruzadas no quarto e começou a meditar sobre o que conquistara naquele dia, ao mesmo tempo em que traçava planos para a vida e o cultivo futuros.
— Amanhã irei ouvir o mestre Chan da decadência e da prosperidade pregar; depois, voltarei para ver Duan Yu e descobrir por quantos anos ele ainda viverá. Em seguida, encontrarei um lugar tranquilo para me estabelecer e criar Huanhuan até crescer.
Ye Chen refletia consigo mesmo.
— Mas para que lugar devo ir morar? Fico aqui na capital de Dali ou procuro outro lugar?
A capital de Dali era boa, sem dúvida; o problema era que havia monges e escrituras budistas por toda parte, o que era um pouco irritante.
Escrituras budistas, de vez em quando, ainda podiam ser ouvidas. Mas ouvir demais as tornava sem graça.
Quando o coração passa a rejeitar algo, se todos os dias você precisa esbarrar nisso, acaba se sentindo muito desconfortável.
Ele lançou um olhar para o mapa de Dali que comprara antes e que estava ao lado. Nele, algumas cidades, rios e montanhas estavam desenhados de forma simples. Os olhos de Ye Chen brilharam, e seu dedo começou a se mover sem parar sobre os lugares assinalados.
Quem o franguinho apontar, eu escolho!
Murmurando sem parar, seu dedo ia e vinha sobre as marcações do mapa. De olhos fechados, acabou parando num ponto.
— Montanha Vasta sem Limites de Dali?
Olhando para o lugar indicado por seu dedo, Ye Chen achou que também não era mau. A paisagem da Montanha Vasta sem Limites era bela, tratava-se ainda de uma região relativamente próspera economicamente, com instalações de vida bastante completas — um bom local para viver em reclusão.
Só que a Seita da Espada Sem Limites da montanha também podia ser considerada subordinada de Zhang Yuan. Será que aqueles caras o descobririam?
Ye Chen coçou o queixo e logo balançou a cabeça. Não havia como ser tão coincidente assim. Naquela era antiga, encontrar alguém era um tormento, e ele também não estava misturado à Seita da Espada Sem Limites. O mais importante, o mais crucial, era que, em aparência, ele já estava morto. Salvo se esbarrasse face a face em Zhang Yuan e nos demais, quem imaginaria que uma pessoa morta apareceria a milhares de quilômetros dali?
Dito em voz alta, provavelmente ninguém acreditaria.
No escuro, havia arranjos próprios do destino. Já que o dedo apontou ali, então será esse lugar.
Ye Chen já havia tomado sua decisão.
A questão do local de moradia foi apenas uma pequena preocupação. Logo sua atenção se voltou para as artes marciais.
Depois de mais de vinte anos de acúmulo, já era hora de avançar um passo.
Primeiro, no aspecto do cultivo interno, a técnica da eterna primavera sem envelhecimento precisava ser aprimorada. Calculando desde o último avanço, essa técnica já estava no reino da longa duração havia vinte e cinco anos.
Quanto à técnica em si, vinte e cinco anos nesse reino eram perfeitamente normais; afinal, o próprio manual descrevia um prazo de quarenta anos. Mas, para Ye Chen, que em média morria duas vezes por dia, esses vinte e cinco anos de cultivo precisavam ser multiplicados por três. Ou seja, na prática, ele já estava nesse reino há mais de setenta anos.
A descrição do manual não estava errada. Quarenta anos eram o limite; ele já havia sentido isso antes. Seguindo o princípio de que o copo cheio transborda, ele continuara a polir lentamente até hoje. Originalmente, ainda teria de continuar por mais algum tempo, mas parecia que, por causa do estímulo dos combates em formação, a própria técnica dera inesperadamente um passo ousado adiante.
Em segundo lugar, quanto ao cultivo da camisa de ferro, essa técnica vulgarizada vinha avançando em ritmo de tartaruga ao longo dos anos; já havia décadas que não se via progresso algum. Mas, após tantas décadas de perseverança, ele de repente percebeu que, em comparação com o passado, ainda havia alguma diferença. Apenas, agora, de fato já era difícil prosseguir.
Felizmente, Ye Chen encontrara um método de cultivo mais profundo. Pretendia experimentá-lo.
Essa técnica vulgarizada em si não era nada, mas esse cultivo era uma das ambições de Ye Chen.
Treinar a pele, a carne, o sangue...
Ele queria ver se, além do caminho da energia verdadeira, poderia abrir uma grande via de cultivo do corpo físico.
Por fim, Ye Chen sentiu que já era hora de evoluir.