Filho do Plano

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2592 palavras 2026-02-09 14:19:06

Ficou provado que Micaela era, de fato, digna de ser sua aluna.

Tinha um olhar apurado, coincidente com o seu; ambos escolheram a técnica das Seis Lâminas das Quatro Constelações. Esta arte de combate era considerada comum entre os transeuntes. Não era nem especialmente forte, nem particularmente fraca; assemelhava-se ao Sabre das Cinco Feras, mas com diferenças marcantes. O Sabre das Cinco Feras valorizava o ímpeto e a ferocidade, cada movimento era como o ataque de um tigre faminto, intenso e implacável. Já as Seis Lâminas das Quatro Constelações primavam pela ordem e regularidade, impregnadas de mudanças inspiradas no Bagua, tornando tudo meticulosamente organizado. Caso o Sabre das Cinco Feras fosse combinado com esta técnica, seria como uma besta selvagem aprendendo estratégias de batalha, e assim seu poder cresceria exponencialmente.

Após mais de um mês de estudo das artes marciais no Palácio da Águia Celeste, Ye Chen preparou-se para regressar à aldeia.

Descontando o tempo das idas e vindas, o início das aulas estava próximo. Embora agora houvesse muitos professores na escola e sua ausência não fosse fatal, depois de tantos anos, ele ainda sentia um apego especial por aquele grupo de pequenos. Acostumara-se à vida de diretor e professor; estar longe das crianças lhe parecia sempre faltar algo, mas, por outro lado, depois de muito tempo com elas, sentia vontade de mandá-las todas de volta para casa.

— Mestre, não disse que queria ir ao Templo Shaolin ver o monge varredor? — Ao ver Ye Chen prestes a voltar à aldeia, Zhang Yuan não tentou detê-lo; sabia que, mesmo que o fizesse, seria em vão.

— Pensei melhor, acho um pouco longe, e afinal, um velho monge não tem nada de especial para se ver — respondeu Ye Chen calmamente. — Por mais profunda que seja a prática budista, ninguém escapa da colheita do tempo.

— Encontrá-lo ou não, tanto faz. Além disso, não tenho muito interesse nas coisas do budismo, então, se ele é ou não um mestre profundo, pouco me importa.

— Já sabia que o mestre responderia assim.

Ao ouvir Ye Chen, Zhang Yuan balançou a cabeça, admirada:

— Mas talvez seja melhor assim. O mundo está caótico demais; se na aldeia não houver o senhor, sempre ficarei um pouco preocupada.

Embora Ye Chen fosse apenas um homem, e por mais forte que fosse, sempre haveria limites. Porém, para Zhang Yuan e os outros, bastava a sua presença para sentirem-se tranquilos.

— Já chega de despedidas, estou indo — disse Ye Chen, acenando, e partiu com Wang Min de volta à aldeia de Kaoshan.

Wang Min, que há cinco anos substituíra Micaela como representante da Seita do Tigre na aldeia, fora quem guiara Ye Chen pela primeira vez até as Montanhas Celestes; sem ele, Ye Chen, que nunca estivera lá, teria tido dificuldades para encontrar o caminho.

No retorno, Wang Min, de poucas palavras, manteve-se em silêncio durante todo o trajeto.

Somente ao pararem para descansar em uma tenda de chá, ao observar de longe os mendigos e refugiados errantes, Wang Min falou subitamente:

— Mestre, acha que, se nos levantarmos, teremos sucesso?

Ye Chen lançou-lhe um olhar de soslaio. Enquanto bebia o chá rústico, observava o caos do fim da dinastia, e respondeu serenamente:

— Vocês têm uma base sólida.

— Embora eu não tenha perguntado, vejo claramente que centenas de quilômetros ao redor das Montanhas Celestes estão sob seu controle, várias cidades grandes e pelo menos dezenas de milhares de pessoas. Mais adiante, parece que muitos outros lugares também estão sob sua influência.

— Mas se conseguirão ou não realizar algo, não sei. Só posso lhes aconselhar: não tenham pressa.

Quando uma força chega a esse ponto, diante de tal cenário, seria ingenuidade fingir que não têm planos. No entanto, essas coisas não dependem apenas de preparo; fatores como tempo, lugar e pessoas certas são imponderáveis.

— Por que essa pergunta repentina? — indagou Ye Chen.

Wang Min balançou a cabeça e respondeu com voz grave:

— Sinto um certo receio. O senhor sabe o que Yuan está fazendo. Há coisas que, uma vez feitas, não têm retorno.

— Não é como fundar uma seita no passado; se fracassássemos, nada de grave aconteceria. Agora, porém, se falharmos... Como disse, centenas de quilômetros, dezenas de milhares de vidas dependem de nós!

— Meu coração pesa.

— Continua igual a antes, carregando tudo calado — disse Ye Chen, vendo a seriedade no rosto de Wang Min. — O que foi? Acha que é o provedor deles? Que sem você não podem viver?

— Ou pensa que é Deus?

Wang Min olhou para Ye Chen, com semblante sério:

— Mestre, já não sou mais uma criança. Não use essas palavras para me consolar.

— Seu... — Ye Chen pensou em bater nele, mas, após refletir, recolheu a mão e suspirou: — De repente, me arrependo de ter ensinado a vocês aquela máxima: quanto maior o poder, maior a responsabilidade.

— Mas, pensando bem, é bom. Ter um mundo próprio, independentemente do desfecho, torna a vida digna de ser vivida!

Com sentimentos contraditórios, Ye Chen fitou Wang Min e disse pausadamente:

— Já que me perguntou hoje, digo-lhe francamente: não sei se terão sucesso, mas creio que é possível. Não porque a ambição de vocês seja viável, mas porque, se puderem conter a invasão dos estrangeiros, é possível!

— Se não me engano, em poucos anos o Reino Dourado marchará para o sul, e o povo do Centro sofrerá horrores. Não acredito que a dinastia Song terá forças para salvá-los. Se vocês conseguirem, ficarei satisfeito.

Diante dessas palavras, Wang Min ficou surpreso e, com cautela, indagou:

— O mestre acha que pode se repetir a tragédia das Cinco Tribos devastando a China?

Para Wang Min, o Reino Dourado sempre fora semelhante ao de Liao ou Xixia, no máximo uma ameaça às fronteiras. Uma invasão em larga escala parecia impossível.

Agora, porém, ouvindo Ye Chen, percebia que não era tão simples.

— O futuro ainda não aconteceu, ninguém pode prever com certeza. Mas... creio que é bem possível — respondeu Ye Chen.

Essa parte da história não lhe era muito clara, mas os feitos heroicos dos imperadores Huizong e Qinzong eram conhecidos por todos. O imperador Gaozong, perseguido por Jin Wuzhu até o mar, era um caso único entre os monarcas da história — impossível de ignorar.

Se até o imperador sofreu tanto, imagine o povo...

Por isso, Ye Chen apoiava a ideia de Zhang Yuan: se a dinastia Song já não era digna de governar estas terras, que viesse outro!

Como ensinara a seus alunos: não é preciso amar este país chamado Song, mas esta terra, este povo, tudo aqui não deve ser profanado!

Não pelos ideais ilusórios, mas porque somos os verdadeiros donos, os legítimos senhores desta terra!

— Não se preocupe tanto — disse Ye Chen, vendo Wang Min subitamente tenso. — Já disse tudo a Yuan; confio que ela sabe o que faz.

— Imagino que sua volta à aldeia também faz parte do plano dela, não?

— Eu... — Wang Min ia responder, mas Ye Chen o interrompeu:

— Não me conte seus segredos, não quero saber. Para mim, basta proteger a aldeia como líder do clã.

— E quanto à diferença entre hoje e o tempo da fundação da seita, digo-lhe: não há diferença alguma!

— Mesmo que vocês fracassem, ainda têm a mim!

— Enquanto eu estiver aqui, o céu não desabará, está tudo bem!

Imortal e indestrutível, se o pior acontecesse, Ye Chen não hesitaria. Quem poderia detê-lo?

Sozinho contra exércitos — por que não?

— Mestre... — Wang Min, ao ver a firmeza de Ye Chen, sentiu uma onda de emoção e não soube o que dizer.

— Não se comova demais. Se chegar ao ponto de eu ter que intervir, é porque vocês são muito incompetentes. Deviam se envergonhar.

Ye Chen pensava que, como discípulos de um viajante do tempo, tendo aprendido tanto, se ainda assim fracassassem, seria realmente injustificável.

Claro, a não ser que encontrassem o protagonista deste mundo.