077 Ame-o
No topo do precipício, Xiao Feng pôs fim à própria vida, e Ziyu, tomada por um amor profundo, seguiu-o na morte.
Observando de longe essa cena, Ye Chen não interveio; naquele instante, uma sensação estranha tomou conta de seu coração, como se por um momento tivesse alcançado o estado de um sábio, contemplando pessoas, coisas e o próprio céu e terra, sentindo quase como se o caminho celestial estivesse sobre ele. Tão rapidamente como veio, essa sensação única se dissipou, sem trazer qualquer benefício concreto para Ye Chen.
Contudo!
Ye Chen sabia que a sorte destinada a Xiao Feng já fora por ele recolhida.
“Aparentemente, basta estar ao alcance dos olhos.” Lembrava-se de que, quando atravessou para este mundo, aquela voz lhe dissera que precisava estar ao lado da pessoa para obter sua sorte; agora percebia que o conceito de ‘ao lado’ era bem mais amplo do que imaginara.
“Senhor, todos já morreram e ainda assim não vai lá recolher os despojos?” Zhang Yuan olhava para Ye Chen, imóvel, intrigada.
Não viemos aqui justamente para isso?
Agora que todos estão mortos, por que ele não se mexe?
“Não é mais necessário, vamos para casa.” Ye Chen balançou levemente a cabeça, dizendo num tom sereno.
“Já vamos embora?” Zhang Yuan achou tudo aquilo meio sem sentido.
“Ou preferes que fiquemos para chorar ao morto Xiao Feng?” Ye Chen perguntou.
Zhang Yuan apenas silenciou.
“Senhor, conseguiu colher a sorte de Xiao Feng? Já pode invocar o Dragão Sagrado?” No caminho de volta, Zhang Yuan não resistiu à curiosidade e continuou a perguntar.
Ela não acreditava muito nessas coisas.
Mas, diante de certos fatos, era difícil não acreditar—como Ye Chen ter previsto que Xiao Feng morreria ali, o que realmente aconteceu.
Por isso, Zhang Yuan pensava que as palavras de Ye Chen não eram totalmente desprovidas de fundamento.
“A sorte de uma só pessoa, Xiao Feng, ainda não é suficiente; preciso também da sorte de Duan Yu e Xu Zhu.” Ye Chen suspirou. “Com o poder que ambos possuem, creio que levará uns cem, oitenta anos até que morram.”
“Cem, oitenta anos?”
Zhang Yuan balançou a cabeça, duvidando que sequer viveria tanto tempo.
“Senhor, se realmente precisamos disso, podemos agir.” Wang Min sugeriu, tomando a palavra.
“Não é preciso.” Ye Chen recusou, balançando a cabeça. “Não os provoquem. Com a sorte ao seu favor, personagens principais são absurdamente difíceis de lidar; enfrentá-los pode facilmente se virar contra nós. Melhor esperar. Um dia, eles morrerão de velhice.”
“Morrer de velhice?”
Zhang Yuan sorriu, resignada. “Acho que eu mesma não viveria tanto, senhor. E o senhor, acredita que pode?”
“Vamos ver,” Ye Chen respondeu com um sorriso.
“A propósito, nesta jornada, ao ver com os próprios olhos exércitos intermináveis partindo em perseguição, fui tocado de alguma forma.” No pátio dos fundos da hospedaria, Ye Chen comentou com Zhang Yuan, “Venha, pratique um pouco de boxe comigo.”
“Com prazer!”
Zhang Yuan assentiu, curiosa para saber a que nível o boxe de Ye Chen havia chegado; fazia tempo que não treinava com seu mestre e ouvira que ele progredira muito.
“Eu começo.”
Sem cerimônias, Ye Chen iniciou o ataque. A energia vital corria em seu corpo—embora ainda pouco tempo de treino, a longevidade e rejuvenescimento proporcionados pela técnica de cultivo eterno já lhe traziam ganhos consideráveis: seu espírito estava aguçado, a mente inspirada, e ao menor comando mental, a energia fluía imediatamente.
Desferiu um soco, lento como o crescimento das árvores numa floresta; não era veloz nem extremamente poderoso, mas continha uma sensação de onipresença, como se se espalhasse em todas as direções, interminável.
“Que soco magnífico!”
Sentindo a força que vinha ao seu encontro, vendo as incontáveis sombras do punho, Zhang Yuan exclamou de coração, “Senhor, veja como desfarei essa sua força de floresta.”
“O sol poente ilumina o caminho de volta, avante!”
Com um brado suave, Zhang Yuan executou o último golpe da Palma das Seis Energias do Tianshan. Uma técnica de ataque em área: impulsionada por mais de cem anos de poder, era como uma tempestade de palmas, devastadoras como uma enchente, capazes de varrer qualquer exército em terra firme.
Cem anos de poder não são brincadeira; era uma força avassaladora. Após algum tempo resistindo, a técnica de Ye Chen começou a ceder, enquanto Zhang Yuan, sem dificuldades, mantinha a chuva de palmas incessante.
“Invasiva como fogo!”
“Rápida como o vento!”
“Violenta como um trovão!”
Diante do ataque avassalador de Zhang Yuan, Ye Chen não recuou nem se defendeu; pelo contrário, intensificou seu ataque. A força do punho, antes contida, agora explodia de forma insana.
As três posturas do boxe se fundiram: rápido como o vento, voraz como o fogo, estrondoso como o trovão!
De repente, tudo explodiu—o poder das palmas de Zhang Yuan foi dispersado num instante e ela recuou vários passos, surpresa.
“Isso… incrível.” Olhando para as próprias mãos, Zhang Yuan mostrava espanto; jamais esperava que seu golpe, dado com força total, fosse repelido de frente.
“Você tem cem anos de poder; isso te permite atacar sem parar. Porém, sua técnica é apenas uma sequência de movimentos, por mais habilidosa que seja falta-lhe intenção. Eu, por outro lado, treino o Boxe do Grande Ancestral há mais de uma década, dedico-me a ele por completo. Mesmo que não tenha alcançado sua essência, sempre há intenção no meu coração.”
Diante do espanto de Zhang Yuan, Ye Chen pensou que a jovem, embora poderosa, ainda precisava aprender. “Cem anos de poder são formidáveis, mas você não consegue liberar tudo de uma vez num só golpe. Seus meridianos, pontos de acupuntura e o próprio percurso da técnica limitam o potencial de cada ataque. Em geral, há duas formas de superar esse limite:
Primeira: aprimorar a pureza ou a natureza do seu qi, como Xu Zhu, que ao absorver o frio do bicho-da-seda de Tianshan, imprimiu um efeito gélido e devastador em seus golpes, mesmo usando a mesma técnica.
Segunda: elevar a compreensão do nível da técnica; as artes marciais partem da mente, o qi é apenas sua expressão exterior. Uma mente fortalecida potencializa as técnicas, como quando você, na escola, recebia uma recompensa para fazer a lição—o ânimo vinha e a eficiência disparava.”
“Entendo a teoria, mas aplicar é difícil.” Zhang Yuan assentiu, compreendendo as palavras de Ye Chen, mas ciente de quão árduo é encontrar sua própria intenção numa arte marcial.
Quanto à pureza do qi, isso leva ainda mais tempo e dedicação.
“Senhor, cada um de seus golpes carrega uma intenção única, ainda que não muito forte, mas com um potencial imenso. Como o senhor consegue isso?” Zhang Yuan perguntou sinceramente.
Antes, em seus duelos, não sentia isso tão claramente; mesmo sendo forte, havia uma diferença considerável entre eles. Mas agora, em tão pouco tempo e sem grandes avanços em poder, Ye Chen conseguiu aumentar em muito a força de seus golpes só através da intenção. Isso a deixava admirada.
“Como consigo isso? Não é fácil explicar.”
Ye Chen coçou o queixo, pensando em como transmitir sua compreensão a Zhang Yuan, até que uma ideia lhe ocorreu. “Lembra do jogo de mahjong que ensinei a vocês?”
“Quando tira uma mão ruim, como faz para vencer?”
“Amá-la, persistir, não desistir.” Zhang Yuan respondeu de pronto.
“Então, o que quero dizer é que a dedicação sincera pode romper qualquer barreira?”
“Com esforço contínuo e reflexão, a quantidade se transforma em qualidade?”
Era mesmo uma aluna brilhante—encontrou a resposta em um instante.
“Mas eu treino com muita dedicação!” Zhang Yuan lamentou.
“Sim, mas dedicação não significa amor verdadeiro pelo que faz.” Ye Chen sentia que a maior diferença entre ele e os outros era a concentração.
Quando treinava, só pensava em treinar.
Entregava-se de corpo e alma à arte marcial, sem se preocupar se era melhor ou pior do que outros, sem comparações.
Já Zhang Yuan e os demais, cercados por uma infinidade de técnicas na biblioteca, dificilmente conseguiam se dedicar a uma só arte; queriam sempre aprender mais, buscar o melhor de cada uma.
Não que fossem superficiais, mas em nenhuma técnica iam a fundo de verdade.