O suspiro de Wu Yazi
Passou-se um ano num piscar de olhos.
— Vocês finalmente decidiram voltar para casa? — perguntou Ye Chen, olhando para os jovens à sua frente, que haviam passado um ano fora, e para aqueles que os acompanhavam, como Wu Yazi e Sun Hua, sem esconder seu espanto.
— Mestre, por que deixou de ser médico imperial em uma cidade tão grande para se tornar curandeiro de uma pequena seita? — Ye Chen realmente não imaginava que aqueles quatro garotos tivessem conseguido persuadir Sun Hua a retornar.
— Minha Seita da Liberdade não é uma seita insignificante — respondeu Xue Muhua, que empurrava Wu Yazi, antes mesmo que Sun Hua pudesse dizer algo. Sua expressão era repleta de desagrado, deixando claro que não gostava do modo como Ye Chen se dirigia a eles.
— Como fala com o mestre desse jeito? — Zhang Yuan, de rosto redondo, com olhos bem abertos, sem sinais de experiências ou dificuldades no mundo, olhou para Xue Muhua com reprovação.
Xue Muhua ficou sem palavras.
— Perdão, líder da seita — respondeu ele, simples e sincero, fazendo uma reverência a Zhang Yuan.
— Chega, Muhua. A Seita da Liberdade já não existe, agora somos apenas o Portão do Tigre Feroz — disse Wu Yazi, desleixado na cadeira de rodas, vestindo branco, cabelos grisalhos, o tronco envolto em arames, sorrindo para Ye Chen. — Sempre quis saber que tipo de talento seria capaz de ensinar quatro gênios tão distintos, mas igualmente brilhantes. Hoje vejo que não é por acaso.
Ye Chen lançou-lhe um sorriso protocolar.
— Nem eu sei qual é o meu mérito, como você percebeu? — pensou. — Até mesmo para uma cortesia, isso parece exagerado.
— Vocês vieram de longe, são convidados. Não importa, já que estão aqui, entrem e descansem — disse Ye Chen, acenando para os garotos. — Vocês passaram mais de um ano fora, seus pais estão aflitos, vão vê-los. Eu fico por aqui.
Os quatro assentiram com entusiasmo, cheios de saudade dos pais.
— Parece que o irmãozinho não está muito feliz com nossa chegada — comentou Wu Yazi, sorrindo.
— Não é bem isso, apenas acho que a presença de vocês pode trazer muitos problemas — respondeu Ye Chen, com franqueza. — Wu Yazi, líder da Seita da Liberdade, se Ding Chunqiu e Wu Xingyun souberem que está aqui, seja por bem ou por mal, nosso vilarejo perderá a paz.
— Embora tenha deixado Su Xinghe no Vale dos Surdos e Mudos como distração, Xue Muhua é um famoso médico, e onde ele permanece por muito tempo, não passará despercebido.
— Mesmo que Ding Chunqiu não perceba, muitos que buscam tratamento virão atrás de nós.
— Então devemos partir? — disse Wu Yazi, sorrindo.
Ye Chen olhou para aquele rosto sempre sorridente e sentiu vontade de lhe dar um tapa. Parecia mesmo alguém disposto a ir embora?
Esse sujeito... com sua cara de pau, não se parecia nada com o personagem original.
— Já que vieram, como posso deixá-los partir? — respondeu Ye Chen, irritado. — Se eu os expulsar agora, Yuan Yuan vai aparecer aqui todos os dias para causar confusão. Seria insuportável.
Sem dar mais atenção a Wu Yazi, Ye Chen voltou seu olhar para Sun Hua.
— Mestre, aposentou-se, não quer descansar em casa? Por que decidiu voltar a circular pelo mundo?
— Velho como sou, quis reviver um pouco a juventude — Sun Hua acariciou a barba, sorrindo.
Ye Chen ficou sem palavras.
— Que tal mostrar ao discípulo um pouco dessa juventude então?
— Não se preocupe, não vou lhe trazer problemas. Mas você, ao enviar Xue’er com uma fruta vermelha para me encontrar, me causou bastante dificuldade — disse Sun Hua, com um olhar de admiração para Ye Chen. — Por quê, rapaz?
— A licença do portão é questão de uma palavra, mas você me deu um presente tão grande que me deixou realmente envergonhado.
— Vim não tanto para retornar ao mundo, mas para orientar Xue’er. Ela tem um talento extraordinário, deixá-la se desenvolver por conta própria seria um desperdício.
— Mas ela não quer ficar na capital, então tive que segui-la.
Xue Muhua não gostou nada do que ouviu.
— Senhor Sun, apesar da sua experiência, eu fui o primeiro a conhecer Xue’er, ela deveria ser minha discípula.
— Conhecer primeiro não significa que ela aceite ser sua discípula — respondeu Sun Hua, com serenidade. — Além disso...
— Xue’er e Yuan Yuan são da mesma geração. Yuan Yuan é discípula de Wu Yazi, seu mestre mais velho. Você, como mais jovem, não deveria se intrometer.
— São coisas diferentes — rebateu Xue Muhua, barulhento. — O líder da seita é uma coisa, Xue’er é outra. O senhor está sendo injusto.
— Hum... será que poderia me ensinar também? — perguntou Ye Chen, observando a discussão. Seus conhecimentos médicos haviam chegado a um impasse e precisava de novos aprendizados.
— Você?
— Tanto faz!
— Não era você quem dizia que nossa presença só lhe traria problemas? — Xue Muhua respondeu, aborrecido.
— Então, ainda quer a fruta vermelha para curar seu mestre? — retrucou Ye Chen.
Wu Yazi veio ao vilarejo não para se aposentar, mas para se beneficiar daquela fruta milagrosa, como Zhang Yuan já explicara em carta. Ele precisava de sua cura.
Depois de solucionar o enigma do tabuleiro, Wu Yazi transmitiu seu poder a Zhang Yuan, que ficou grata, mas quando Wu Yazi sugeriu que ela se tornasse líder da Seita da Liberdade e vingasse-o matando Ding Chunqiu, ela recusou.
Ela tinha seus próprios sonhos; que seita poderia ser melhor que seu Portão do Tigre Feroz?
Além disso, Ding Chunqiu era perigoso, coberto de veneno, assassino; não queria se envolver em algo tão arriscado.
Ela não queria aceitar, quase devolveu o poder a Wu Yazi, afinal, não foi ela quem pediu, foi ele quem insistiu.
Apesar das dificuldades de Wu Yazi, ela não sentia obrigação de pagar por elas.
Depois de muita discussão, chegaram ao assunto da fruta vermelha, e Su Xinghe comentou que poderia curar Wu Yazi, resultando na cena atual.
No fundo, eram garotos de coração bondoso, pois, caso contrário...
— A fruta pode ser dispensada, mas a discípula não. Yuan Yuan não gosta de violência, não deseja confusão, ela pode ficar de fora — disse Wu Yazi, sorrindo. — Vim apenas para orientar Yuan Yuan e ajudá-la a crescer de verdade.
— Não diga isso! Esse discurso soa como chantagem moral, colocando-se acima dos outros e usando gentileza para criar dilemas em Yuan Yuan — respondeu Ye Chen, balançando a cabeça, sem gostar de relações ambíguas. Retirou de uma caixa um pequeno estojo. — Aqui está uma fruta vermelha madura.
— Seu poder é imenso, pode renovar seus ossos e limpar seu sangue, mas se conseguirá reconstruir sua essência, dependerá de você.
— Além disso, esta fruta compensa o poder transmitido. A partir de agora, você e Yuan Yuan convivem em igualdade, sem discursos de “é para o seu bem”, apenas o desejo de vê-la crescer.
Wu Yazi segurou a caixa de madeira, surpreso pela atitude direta de Ye Chen e pelas palavras que lhe dirigiu.
Sentiu uma vergonha inexplicável.
— Agora entendo por que nunca consegui formar discípulos como Yuan Yuan ou Xue’er — murmurou Wu Yazi, olhando para o céu, cheio de emoções.