Capítulo Quarenta e Oito: Quebrem a perna dele!
Um grupo de cordeiros. As ovelhas mais velhas os ensinam a pastar, a fugir e se esconder dos predadores. Se há brigas entre os cordeiros, as ovelhas adultas imediatamente os afastam.
Um grupo de filhotes de leão. Seus pais lhes ensinam a caçar. Se os pequenos leões lutam e se mordem por comida, os leões adultos apenas observam, ou até incentivam o confronto. Mesmo que um deles seja morto, nada fazem.
Esta é a lei da selva, e também a lei do Continente das Almas Divinas.
As ovelhas são os guerreiros de origem humilde, o povo comum. Os leões são os guerreiros das famílias poderosas, os herdeiros dos clãs. Por mais rápido que corram, as ovelhas sempre serão presas dos carnívoros, geração após geração escravizadas e caçadas. Os filhotes de leão, através de lutas constantes, crescem, abrem caminho por entre sangue e mortes, tornando-se reis das feras, no topo da cadeia alimentar.
Essas coisas, Xiaoqing sempre falava para Xiaolang desde pequeno. Nas famílias poderosas do Continente das Almas Divinas, ninguém interfere nas disputas entre os próprios herdeiros, ao contrário, incentivam o confronto. Se venceres, ganharás mais recursos, mais poder, a atenção da família e terás todo o apoio para teu crescimento. Se perderes, ou afundas de uma vez ou te escondes para te fortalecer e buscar tua glória de volta no futuro.
Xiaolang não sabia de quem era filho ou neto aquele jovem vestido de finas roupas diante dele. Mas sabia que era um dos melhores entre os filhotes de leão, representando o grupo, e viera mostrar quem mandava ali.
— Jovem Jin, estes são Xiaolang e Xiaodao, que acabam de retornar à família! —
O velho Chan sorriu, dando ênfase ao “acabam de” para lembrar ao jovem Jin que não causasse problemas. Só então se voltou para Xiaolang com gentileza: — Jovem Lang, jovem Dao, este é o sexto filho do patriarca, vosso primo Xiaojin! —
O velho Chan não apresentou os jovens atrás de Xiaojin, pois eram parentes distantes, sem status de jovens senhores. Xiaolang percebeu o olhar sutil do velho, sugerindo que evitasse conflitos.
— Saudações, primo! —
Xiaolang sorriu amistoso; recém-chegado, ainda não conhecia bem a situação da família. E, acima de tudo, não queria criar problemas para a tia; por isso, cedeu e também olhou para Xiaodao, pedindo que fosse cortês.
Xiaodao, rindo de forma simples, coçou a cabeça e seguiu: — Saudações, primo! —
O velho Chan suspirou aliviado e passou a simpatizar ainda mais com Xiaolang e Xiaodao. Crianças que sabem se portar sempre agradam, não?
— Primo? Quem te deu tal intimidade? Quem disse que sou teu primo? —
Para surpresa de todos, o rosto de Xiaojin escureceu, e ele lançou um olhar de desdém para Xiaodao, repreendendo-o. Um dos parentes, vestindo túnica branca e abanando um leque, aproveitou para zombar: — Pelo que sei, o tio Imperador Verde só tem um filho, não é? Quem é esse bastardo que apareceu de repente? Desde quando virou jovem senhor da família Xia? —
— Maldição... vieram mesmo arrumar confusão! —
Xiaolang praguejou por dentro, semicerrando os olhos, o rosto tornando-se sombrio. Xiaodao parecia não perceber e continuava sorrindo. O velho Chan apenas balançou a cabeça, sem intervir. Sabia que, apesar do aviso, Xiaojin continuava insolente porque devia ter o apoio de algum ancião da família. A postura de Xiaoqing ao entrar no salão principal claramente irritara alguns.
— Vamos embora! —
Xiaolang fechou os olhos e soltou o ar, contendo a fúria e recuando mais uma vez. Virou-se e chamou Xiaodao para saírem.
— Hahaha, são mesmo uns covardes! —
Xiaojin não falou nada, mas o parente de branco voltou a provocar, olhando Xiaolang com desdém e dizendo em voz alta para os demais: — O tio Imperador Verde é tão belo, elegante e charmoso, mas o jovem Lang é tão sem graça... Será que a tia Qing se confundiu? Será que ele também é bastardo? Ou será que a tia Qing... —
Xiaolang parou abruptamente!
O rosto do velho Chan mudou, pois viu a expressão de Xiaolang se transformar. Aquela fisionomia antes gentil parecia a de outra pessoa, como se um cordeiro dócil se tornasse, num piscar de olhos, um lobo demoníaco sedento por sangue.
Xiaolang virou-se para Xiaodao e perguntou, sério: — Xiaodao, se alguém insulta a tia, o que devemos fazer? —
Xiaodao continuava sorrindo e respondeu: — Quebremos as pernas dele! —
— Vá em frente! —
Xiaolang falou calmamente, sem se mover, apenas girando o corpo com tranquilidade.
O sorriso bobo de Xiaodao desapareceu, dando lugar a uma expressão selvagem. Uma aura assassina, capaz de assustar até o velho Chan, explodiu de seu corpo. Cercado por energia mística, avançou como um tigre montanhês em direção a Xiaojin e seus companheiros.
— Ugh... —
Xiaojin estava acompanhado de sete ou oito pessoas, mas todos empalideceram de medo. O semblante feroz e os olhos gélidos de Xiaodao faziam parecer que enfrentavam uma besta selvagem, não um homem. Todos se sentiram gelados sob aquela aura assassina, algo que só haviam sentido antes nos Guerreiros Sangrentos da família Xia — homens que já haviam matado centenas.
— Atrevido! Quer morrer? —
Xiaojin, digno de ser chamado jovem senhor da família Xia, reagiu de imediato, envolto em energia e irradiando uma aura dominante, fruto de anos no topo da hierarquia.
Mas —
Para Xiaodao, habituado a lutar contra feras mágicas, que já dilacerara dezenas de pessoas na Vila da Chuva e da Névoa, aquela aura não era nada.
Como um rinoceronte enlouquecido de olhos vermelhos, Xiaodao investiu, focando nos passos pesados, e fixou o olhar gélido no jovem que insultara Xiaolang, fazendo-o tremer por inteiro.
— Ha! —
Xiaojin atacou, punho envolto em energia, desferindo um golpe feroz contra o avançar de Xiaodao.
Mas Xiaodao não esquivou, apenas inclinou o corpo e lançou um soco, grande como uma panela, na direção do parente assustado, não contra Xiaojin.
— Bum! —
— Bum! —
Dois sons surdos ressoaram: Xiaojin e Xiaodao acertaram seus respectivos alvos. A diferença era que Xiaodao apenas recuou três passos. O parente, por sua vez, voou longe, o peito afundando visivelmente, sangue escorrendo da boca; não se sabia quantas costelas havia quebrado.
— Como é possível? —
Xiaojin e os outros, que tentaram se esquivar, estavam incrédulos. Xiaojin, com apenas dezessete anos, já era um mestre guerreiro avançado. Mesmo agindo de surpresa, seu golpe tinha a força de sessenta ou setenta tigres.
O corpo daquele grandalhão era feito de ferro?
— Quebra a perna dele! —
Xiaolang ordenou em voz firme. Já estava acostumado à assustadora resistência de Xiaodao. Nem mesmo Xiaojin, ou ele próprio, poderia feri-lo facilmente sem que Xiaodao se transformasse.
— Hehe! —
Xiaodao sorriu, voltando a parecer inocente. Seu corpo forte avançou como um touro, e antes que Xiaojin reagisse, ultrapassou todos, levantou o pé grosso bem alto e... desceu com força sobre o pé esquerdo do parente inconsciente!
— Crack! —
O som seco do osso partindo fez todos sentirem um calafrio na espinha, especialmente ao verem o rosto ainda jovem e sorridente de Xiaodao.
— Desta vez foi só a perna. Na próxima, será a vida. Além disso... Xiaodao é meu irmão. Mais que irmão de sangue, entenderam? —
O semblante de Xiaolang voltou à calma, sua voz era leve, mas cheia de convicção. Seu olhar percorreu todos os presentes e por fim se deteve em Xiaojin: — Quando eu estava na Cidade do Rei dos Remédios, disse ao filho mais velho da família Situ que só queria viver em paz, que não tinha interesse nesses jogos de jovens senhores. Mas ele insistiu em me desafiar, e no fim... foi morto por mim. Um único golpe.