Capítulo Quarenta e Seis: Xiao Imortal
O Reino da Guerra possui uma história longa e imponente, erguendo-se no Continente das Almas há mais de mil anos! Ao longo desses séculos, incontáveis vezes o Reino do Sangue no Norte cobiçou estas terras férteis, tentando tomá-las para si, mas todas as investidas terminaram em fracasso.
Nos últimos cem anos, a família real do reino enfraqueceu, especialmente nesta geração, cujo imperador se tornou notório por seu desregramento e inércia. Ainda assim, o Reino da Guerra permanece firme no Oriente; jamais os exércitos inimigos pisaram sequer um passo em seu território.
A razão disso reside nos quatro grandes clãs supremos e em um Deus da Guerra!
Clã Esquerdo, Clã Nível, Clã Oriental e Clã Xiao!
Um soberano do Reino do Sangue já dissera: “Enquanto os Quatro Grandes Clãs existirem e o Deus da Guerra viver, o Reino da Guerra jamais cairá!” Tal declaração revela a importância vital dessas famílias para o reino.
Hoje, o Clã Xiao encontra-se em festa.
O vasto solar da família ocupa milhares de hectares e, entre descendentes, servos e criadas, abriga quase dez mil pessoas. O portão principal está decorado com lanternas e faixas festivas; incontáveis servidores e guardas aguardam ansiosos. O patriarca, Xiao Qilong, ladeado pelos anciãos e figuras importantes da família, permanece à porta, erguendo os olhos para o céu ocidental.
O filho de Xiao Qingyi e de Xiao Qindi está prestes a regressar!
Normalmente, como chefe do clã, Xiao Qilong desfruta de imenso prestígio e poder, sendo também primo de Xiao Qingyi. Não deveria, portanto, receber pessoalmente alguém que há tantos anos se recusa a retornar ao seio da família.
Porém, hoje, Xiao Qilong não apenas se vê obrigado a fazê-lo, mas deve demonstrar alegria, como se estivesse sinceramente jubiloso com o retorno da prima.
O motivo é claro: Xiao Imortal!
Desde que Xiao Imortal foi aprisionado no Monte Dragão-Tigre, o clã Xiao passou a agir com extrema discrição. Nos últimos vinte anos, apenas Xiao Futuoso interveio algumas vezes, sempre com máxima cautela.
Mas após a batalha na Cidade da Fênix Flamejante, onde o poderoso Clã Fogo foi exterminado por Xiao Futuoso e um centena de Guardiões Sangrentos, o reino inteiro logo soube da façanha. O retorno de Xiao Imortal marcou uma virada: o Clã Xiao exibiu suas garras, impondo-se de modo tirânico para reafirmar ao mundo sua força e supremacia.
A recepção solene de hoje, liderada por Xiao Qilong, também serve para transmitir um recado de Xiao Imortal: ele se importa com sua filha e... com seu neto!
Um rugido de dragão ecoou, fazendo com que todos do Clã Xiao se retesassem, buscando a origem. No céu ocidental, uma nuvem negra aproximava-se velozmente: cem dragões demoníacos de asas duplas desciam, pousando diante do grande solar.
Xiao Qilong, de estatura imponente, vestia-se com elegância, sua compleição robusta e altiva exalando natural autoridade. Antes mesmo de os dragões tocarem o solo, avançou a passos largos para recebê-los, e ainda ao longe, usou um tom de leve censura, repleto de afeto:
— Haha! Qingyi, finalmente resolveu voltar? Sabes o quanto sofremos procurando por ti todos esses anos? Não poderias ser um pouco menos teimosa?
— Saudações, senhorita Qingyi!
Todos os altos membros do clã, sorridentes, curvaram-se em reverência atrás de Xiao Qilong.
Xiao Lang e Pequena Adaga estavam atrás de Xiao Qingyi, ajudando-a a descer do dragão demoníaco. Xiao Lang observava o entorno com curiosidade; antes, do alto, apenas vislumbrara a vastidão do solar, mas agora, diante do portão de três metros de altura e das muralhas majestosas, sentiu-se profundamente impressionado. Não à toa, são chamados de um dos quatro clãs supremos — tamanha imponência não encontra par sequer entre as maiores famílias da Cidade do Rei dos Remédios.
— Lang, empurre-me para dentro!
A voz suave de Xiao Qingyi trouxe Xiao Lang de volta à realidade. Ela lançou apenas um olhar impassível para Xiao Qilong e os demais, ignorando suas palavras como se não as tivesse ouvido.
Os poderosos atrás de Xiao Qilong sentiram-se constrangidos, alguns demonstrando visível desagrado. Xiao Qilong, porém, manteve o sorriso caloroso, voltando-se para Xiao Lang com afeto:
— Este é o filho de Qingdi, Xiao Lang, certo?
Que astúcia profunda e que rosto impenetrável!
Xiao Lang semicerrava os olhos, mas nada disse; Pequena Adaga, por sua vez, era ainda mais reservado. Vendo que Xiao Qingyi não demonstrava qualquer afeição por aqueles parentes, ambos permaneceram em silêncio, pouco importando quem fosse o anfitrião.
— Chamem-no de segundo tio. Estes são os anciãos do clã. Cumprimentem-nos, vocês dois!
Após um olhar de Xiao Qingyi, Xiao Lang e Pequena Adaga curvaram-se respeitosamente:
— Saudações, segundo tio. Saudações, veneráveis anciãos.
— Muito bem! Filho de tigre não nasce gato! O filho que Qingyi educou por tantos anos é, de fato, extraordinário!
Xiao Qilong soltou uma gargalhada, seus olhos tomados de admiração e o semblante afável. Até Xiao Lang teve de reconhecer: o chefe do clã possui mesmo uma presença notável.
— Vamos, entremos. O patriarca deve estar ansioso!
Xiao Qilong aproximou-se, tomou o braço de Xiao Lang e, empurrando a cadeira de rodas, guiou todos com um sorriso para dentro do solar.
Ao atravessar o jardim, Xiao Lang e Pequena Adaga sentiram-se como visitantes deslumbrados, tamanha a beleza do lugar. Logo na entrada, depararam-se com um jardim imenso, repleto de flores e plantas que Xiao Lang jamais vira. Ao longe, podiam-se ver pavilhões luxuosos; após alguns minutos de caminhada, chegaram a uma vasta praça onde centenas de jovens do Clã Xiao treinavam, lançando olhares curiosos para o grupo.
Sem deter-se, o cortejo atravessou a praça até um pátio nos fundos, onde finalmente pararam diante de uma residência privada.
Com respeito, Xiao Qilong anunciou à porta:
— Patriarca, Qingyi e o filho de Qingdi retornaram!
A porta rangeu e abriu-se sozinha, enquanto uma voz idosa soou:
— Deixem-nos entrar. Os demais, retirem-se!
— Pai...
O rosto de Xiao Qingyi, até então impassível, transfigurou-se de emoção ao ouvir aquela voz, lágrimas brilhando em seus olhos. Xiao Lang, empurrando a cadeira e acompanhado de Pequena Adaga, adentrou o pátio.
O lugar era simples, quase desolado: apenas um pequeno pavilhão e, diante de um túmulo solitário, erguia-se um ancião esguio de cabelos brancos e túnica negra, de costas para eles, a coluna reta como uma espada.
— Pai!
Xiao Qingyi, agora com a voz embargada, chamou novamente. O velho, então, virou-se devagar; seu rosto expressava carinho, mas os olhos estavam tomados de culpa.
— Minha pequena Qingyi voltou para casa? Sofreste muito nestes anos, não?
— Pai!
Xiao Qingyi já não pôde conter-se. As lágrimas jorraram. Seu poder espiritual brilhou e a cadeira de rodas avançou rapidamente; ela lançou-se nos braços do velho, chorando amargamente.
A temida Lâmina Sangrenta do reino, Xiao Qingyi, naquele instante parecia uma criança indefesa diante do pai.
— Pronto, pronto, já está em casa! Enquanto eu viver, ninguém mais te fará mal. Toda injustiça que sofreste, o pai irá reparar!
Xiao Imortal chorava copiosamente, afagando os ombros da filha enquanto, em seus olhos, lampejava um brilho mortal.
— Qingyi não sofreu, a inútil sou eu, que permiti que o pai sofresse no Monte Dragão-Tigre!
Xiao Qingyi ergueu o rosto, tomada de remorso, e então virou-se abruptamente, ordenando:
— Lang, Pequena Adaga, ajoelhem-se e cumprimentem seu avô!
Xiao Lang e Pequena Adaga ajoelharam-se pesadamente, tocando a testa no chão três vezes, exclamando com respeito:
— Vovô!
— Bom, bom, muito bom!
Xiao Imortal, sorrindo, repetiu o elogio três vezes, apressando-se em erguer os dois. Fixando os olhos em Xiao Lang, de súbito emanou uma aura de suprema autoridade e, com orgulho, declarou:
— Meu filho, voltaste para casa. A partir de hoje, ninguém mais poderá te humilhar! Se alguém ousar fazê-lo, quebre-lhe as pernas — o avô te protegerá!
Xiao Lang levou a mão ao nariz e sorriu:
— Qualquer um?
Xiao Imortal hesitou, então caiu na gargalhada:
— Sim, qualquer um!