Capítulo Setenta e Sete: Resplandecente como Flores
Quando retornaram ao acampamento, já era noite. Mais de dez soldados da Guarda Imperial haviam acendido uma fogueira, cujas chamas alaranjadas iluminavam o outono frio, tornando o ambiente ainda mais solitário.
Assim que chegou, Faca Pequena apressou-se a acender o fogo e assar a carne, enquanto Xiao Lang, como um verdadeiro senhor, entrou na tenda e sentou-se para descansar. Chá de Madeira ajudava Faca Pequena a preparar a comida; os soldados da Guarda Imperial até tentaram ajudar, mas Yun Roxa os enxotou.
Feijão Vermelho do Oriente, que na noite anterior havia experimentado a comida dos dois e achado deliciosa, aproximou-se curiosa de Faca Pequena, abraçando os joelhos e piscando seus grandes olhos: “Senhor Faca, a carne que vocês preparam é uma delícia, quem lhes ensinou?”
Faca Pequena, mesmo tendo sofrido uma lesão interna à tarde, parecia estar bem. Habilidosamente, espetava pedaços de carne de cervo em varas de bambu e, sorrindo de forma simples, respondeu: “Ninguém nos ensinou, aprendi sozinho. Aliás, sei preparar muitos pratos saborosos, e quase tudo que sei foi meu irmão que me ensinou!”
“Hm…”
Feijão Vermelho do Oriente e Yun Roxa, como se tivessem combinado, lançaram um olhar em direção à tenda onde estava Xiao Lang. Feijão Vermelho ficou ainda mais interessada: “Seu irmão sabe mesmo de muita coisa, hein? A propósito… Vocês realmente já estiveram nas Montanhas da Morte?”
“Claro que já! Inúmeras vezes. Aliás, foi lá que meu irmão me encontrou. Se não fosse por ele, eu já estaria morto faz tempo!” O sorriso de Faca Pequena era radiante, puro como o de uma criança.
“Você foi encontrado por Xiao Lang?”
Dessa vez, não só Feijão Vermelho e Yun Roxa se surpreenderam, mas até Chá de Madeira se admirou. Faca Pequena, que conseguia se transformar e tinha uma defesa assustadora, já havia chamado a atenção das três. Pensavam em investigar sua origem ao retornarem, mas não esperavam que ele tivesse sido encontrado por Xiao Lang.
Feijão Vermelho, como quem descobre um novo mundo, perguntou entusiasmada: “Como você foi parar nas Montanhas da Morte? Quantos anos tinha quando seu irmão lhe encontrou?”
Faca Pequena lançou um olhar a Xiao Lang, hesitou e disse: “Eu tinha sete anos naquela época. Quanto a como fui parar lá, não sei. Não tenho lembranças de antes dos sete anos.”
“Ah!”
O instinto maternal de Feijão Vermelho do Oriente aflorou, e ela passou a olhar Faca Pequena com ternura, dizendo, um pouco penalizada: “Você é mesmo muito desafortunado, seus pais foram cruéis demais!”
“Não sou desafortunado!”
Faca Pequena balançou a cabeça teimosamente e declarou, cheio de convicção: “Tenho meu irmão e minha tia, eles cuidam muito bem de mim. Posso ser bobo, mas sei ser grato. A dívida para com eles, nunca poderei pagar nesta vida! Por isso, preciso treinar com afinco, para um dia poder proteger meu irmão e minha tia.”
Todos se calaram, até Yun Roxa olhava para Faca Pequena com doçura, comovida com a difícil origem daquele garoto e ainda mais tocada pela pureza do laço entre os irmãos.
Vivendo na capital imperial e pertencendo a famílias poderosas, elas também tinham irmãos, mas desde cedo aprenderam a usar máscaras, a disfarçar, e por trás de aparências afetuosas, travavam disputas constantes. Irmãos de sangue podiam se tornar inimigos mortais; imagine então entre primos e parentes distantes.
Chá de Madeira deu um tapinha no ombro de Faca Pequena e disse sinceramente: “Faca, tenho certeza de que você será um grande guerreiro. Seu irmão também. Os nomes de vocês dois ainda ecoarão por todo o continente!”
“Haha, minha tia sempre diz isso. Ela acredita que despertaremos almas divinas poderosas e nos tornaremos guerreiros como o tio Futuo!”
Faca Pequena sorriu, enquanto preparava a carne com destreza. Após um momento de silêncio, virou-se para Chá de Madeira e disse, com honestidade: “Chá de Madeira, meu irmão disse que você é gente boa. Considere-me seu amigo!”
Chá de Madeira ficou surpreso, mas em seguida abriu um sorriso largo, sentindo-se extremamente feliz. Concordou com firmeza: “Sim, amigos para a vida toda!”
Como um dos quatro jovens mestres da capital, Chá de Madeira tinha muitos amigos, mas as palavras simples de Faca Pequena o emocionaram profundamente. Sabia que, ao contrário dos companheiros de farra, que poderiam traí-lo a qualquer momento, Xiao Lang e Faca Pequena eram verdadeiros em suas palavras e gestos.
Feijão Vermelho também sorriu, seu rosto belo como uma flor. Yun Roxa, raramente deixando de lado o orgulho e a altivez, também esboçou um leve sorriso, a pequena pinta em sua testa tremulando suavemente, tornando-a ainda mais deslumbrante.
Logo, Feijão Vermelho voltou a tagarelar, fazendo perguntas sem parar, todas sobre as histórias de Xiao Lang. Faca Pequena respondeu a tudo que sabia, contando como Xiao Qingyi os jogara nas Montanhas da Morte e na Montanha dos Demônios, narrando os episódios na Cidade do Rei dos Remédios e na Cidade da Fênix de Fogo. Claro, omitiu as partes sobre perseguições e outros segredos, pois, apesar de parecer inocente, não era tolo.
As três ficaram impressionadas, admiradas com os métodos de Xiao Qingyi ao educá-los e com a infância que tiveram. Surpreendiam-se com a determinação de Xiao Futuo e a dureza de Xiao Lang. Até Yun Roxa, sempre silenciosa, intercalava comentários, seu rosto orgulhoso e belo radiante de emoção.
Não muito depois, Xiao Lang saiu da tenda e, ao ver o grupo animado, sorriu levemente: “Sobre o que estão conversando? Por que tantos risos?”
As três voltaram-se para ele, observando aquela figura não muito alta e o rosto comum. Por um instante, sentiram que algo havia mudado. Yun Roxa e Chá de Madeira se lembraram de Xiao Lang no banquete do palácio, antes do duelo com Zuo Ming. Na época, pensaram que ele estava se exibindo, mas agora viam aquilo como uma aura especial, própria de quem viveu muito e traz em si a maturidade de um homem com histórias para contar.
Um jovem de dezessete anos com o temperamento de um adulto, isso realmente causava estranheza, e facilmente se pensava que ele tentava parecer profundo. Mas, após algumas interações, perceberam que aquela qualidade era rara, e não se comparava ao fingimento dos jovens nobres como Xiao Kuang.
As três sempre se perguntaram como aquele jovem de dezessete anos se tornara, quase sem perceber, o capitão do grupo. Agora entendiam: era por causa daquele carisma.
Feijão Vermelho sorriu docemente, inclinou a cabeça e disse: “Estamos conversando sobre sua infância, Xiao Lang. Então é verdade que você esteve nas Montanhas da Morte. As cicatrizes em seu corpo foram deixadas lá, não?”
Xiao Lang sorriu de leve, pegou um pedaço de carne assada das mãos de Faca Pequena e deu uma grande mordida, respondendo de modo despreocupado: “Não há nada de surpreendente nisso. Vocês, filhos e filhas das famílias nobres, jamais entenderão o sofrimento dos plebeus. Olhem para qualquer plebeu com um pouco de talento: qual deles não tem cicatrizes no corpo? O mundo é cruel, quem quer ficar forte precisa pagar o preço.”
Os três ficaram em silêncio, mas seus olhos brilhavam, evidenciando a decisão de treinar com afinco. Que guerreiro não deseja tornar-se poderoso e respeitado? Especialmente Chá de Madeira, sobre quem pesavam grandes expectativas.
De repente, a conversa perdeu a graça. Após comerem rapidamente, Chá de Madeira foi o primeiro a se desculpar e voltar para treinar. Feijão Vermelho também estava cansada e se recolheu, restando apenas Yun Roxa, que ficou sentada, absorta em seus pensamentos.
Faca Pequena, satisfeito com a comida, saiu sorrindo. Xiao Lang estava prestes a se retirar para descansar quando percebeu Yun Roxa olhando fixamente para ele. Surpreso, parou.
Yun Roxa encarou Xiao Lang por um longo tempo, até que, mordendo levemente o lábio e corando, murmurou: “Xiao Lang... desculpe-me!”
Xiao Lang lançou-lhe um olhar surpreso, mas logo sorriu e respondeu, com indiferença: “Receber um pedido de desculpas de Vossa Alteza é uma honra para mim.”
Yun Roxa baixou a cabeça, o pescoço alvo tingido de rosa, e repetiu em voz baixa: “Falo sério, sobre o que aconteceu ontem à noite... desculpe-me.”
O sorriso de Xiao Lang se desfez. Ele a fitou, seus olhos cintilando, e respondeu suavemente: “Aconteceu algo ontem à noite? Já esqueci.”
“Obrigada!”
Yun Roxa levantou o rosto e olhou nos olhos de Xiao Lang. Seus olhos, límpidos como águas de outono, brilhavam intensamente. Ela sorriu, doce e radiante como uma flor.
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