Capítulo Setenta e Quatro: Um Meio Amigo

O Rei dos Demônios Noite Demoníaca 2376 palavras 2026-02-07 12:37:33

Xiao Lang descansou um pouco, comeu duas pernas de corça e retornou diretamente à tenda para repousar. Seu semblante permaneceu fechado, sem demonstrar qualquer gentileza a Dongfang Hongdou e Yun Zishan. Para ele, não importava o que elas pensassem, pois aquelas duas deusas adoradas por todos os jovens não lhe despertavam interesse algum, tampouco se preocupava com as consequências de contrariá-las. Se fosse preciso, partiria sem olhar para trás; tanto a Cidade Imperial quanto a família Xiao, para alguém de espírito livre e indomável como ele, mais pareciam uma prisão.

Se não fosse pela afeição que sentia por Xiao Busi e Xiao Futu, já teria convencido a tia a levar Xiaodao para bem longe, vivendo uma vida sem amarras, ao sabor do vento. Crescera nos campos e florestas, sob a tutela relaxada de Xiao Qingyi, e seu temperamento selvagem era difícil de domar. De repente, fora lançado nesse lugar estranho, onde cada gesto era calculado e todos sorriam com segundas intenções. Tudo aquilo o exauria.

Por isso, naquele dia, escolheu uma postura arrogante e intransigente, isolando-se propositalmente apenas para mostrar a todos o quanto se sentia reprimido e insatisfeito. Xiaodao, após ver Xiao Lang entrar na tenda, coçou a cabeça e, com um sorriso bobo, foi também descansar em sua própria barraca. Cha Mu, ao notar o mau humor de Yun Zishan e Dongfang Hongdou, não hesitou em sair de fininho; não queria servir de alvo para o descontentamento delas — não tinha a bravura de Xiao Lang, e, para falar a verdade, não ousava enfrentar nem Yun Zishan, quanto mais Dongfang Hongdou.

“Que se acha, não é? Só porque venceu Zuo Ming já pensa que é o melhor do mundo!” murmurou Dongfang Hongdou junto à tenda de Xiao Lang. Sempre acostumada a ser bajulada, rodeada pelos jovens mais ilustres, sentia-se ultrajada por ser alvo das provocações e até repreensões de Xiao Lang. Em outros tempos, já teria explodido de raiva, mas aquele rapaz dois anos mais novo parecia exercer um estranho encanto que a impedia de perder o controle, mesmo sendo ela famosa por seu gênio difícil na Cidade Imperial.

“Ele tem motivos para ser arrogante”, respondeu Yun Zishan, surpreendentemente calma, apenas um pouco desconfortável. Pegou um galho e começou a mexer no fogo, mergulhando em silêncio, sem que ninguém soubesse o que se passava em sua mente.

Mais de uma dezena de guardas imperiais vigiavam os arredores. Tinham assistido à batalha anterior, mas não ousavam demonstrar qualquer reação. Quando Xiao Lang conseguiu aquela virada milagrosa, todos esboçaram um leve sorriso de admiração, logo disfarçado — afinal, cada um dos jovens ali presentes era alguém influente, impossível de se ofender.

A noite tornou-se cada vez mais fria. Dongfang Hongdou e Yun Zishan conversaram por algum tempo, mas logo cederam ao cansaço e foram descansar, deixando a princesa de vestes lilases sozinha, sentada sob a luz do luar. Naquele cenário, sua beleza era tão etérea que parecia uma fada, distante do mundo.

Enquanto a montanha repousava em silêncio, a base lá embaixo fervilhava de agitação.

Zuo Ming fora carregado morro abaixo, seu grupo retirando-se da competição, enquanto Xiao Kuang e os demais acamparam entre o terceiro e o quarto picos para passar a noite. No caminho, Zuo Xi, a mais bela das damas da família Zuo, foi alertada sobre o ocorrido. Ao ver Zuo Ming inconsciente, com cinco perfurações sangrentas no abdômen, e saber que fora ferido por Xiao Lang num duelo, tremeu de raiva. Sem ânimo para continuar socializando com os jovens, apressou-se em descer a montanha acompanhada das outras damas da família.

No acampamento da família Zuo, o pânico foi geral. Os anciãos da família, com os semblantes sombrios, imediatamente solicitaram a ajuda de um guerreiro espiritual dos guardas imperiais, dotado de poderes curativos, para tratar Zuo Ming. A notícia se espalhou rapidamente, deixando inúmeros poderosos perplexos, enquanto do acampamento da família Xiao ecoavam gargalhadas indisfarçáveis de Xiao Futu.

Era raro ver Xiao Futu rir, ainda mais gargalhar daquele jeito — sinal inequívoco de seu regozijo interior. O rosto dos anciãos da família Zuo escureceu ainda mais, mas não ousaram protestar; afinal, poucos na Cidade Imperial tinham coragem de provocar aquele louco.

O nome de Xiao Lang voltou a ecoar por toda a Cidade Imperial. Com aquela vitória, consolidou-se como o principal jovem prodígio de sua geração — embora ele mesmo detestasse ser chamado de “senhor”, e menos ainda de “primeiro senhor”.

Na manhã seguinte, antes mesmo do amanhecer, Xiao Lang e Xiaodao despertaram pontualmente. Iniciaram sua rotina de treinamento diário, sentando-se em meditação por uma hora para cultivar o qi místico. Em seguida, com suas armas mágicas, derrubaram duas grandes árvores, retiraram os galhos e, carregando os troncos nas costas, começaram a correr sem parar pelo descampado.

O vigor físico de Xiao Lang era impressionante; os ferimentos da noite anterior, causados pelas lâminas de qi, já estavam quase totalmente curados. Embora ainda sentisse certo incômodo ao se mover, não parecia haver maiores problemas.

Cha Mu foi o primeiro a acordar, lançou um olhar de remorso aos dois e, em silêncio, sentou-se para cultivar seu próprio qi místico. Yun Zishan e Dongfang Hongdou logo foram despertadas pelo barulho e, ao verem os dois — um alto e um baixo — correndo com troncos nas costas, ficaram incrédulas.

Elas também cultivavam, mas não chegavam ao ponto de submeter o corpo àquele tipo de tortura diária. Naquele instante, uma compreensão lhes ocorreu: não era de se admirar que tantos jovens, embora aparentassem ter níveis elevados e exibissem técnicas vistosas, fossem facilmente derrotados por Xiao Lang.

O gelo de três palmos não se forma em um único dia.

O verdadeiro poder não vem da simples aprendizagem de técnicas; é fruto de trabalho árduo, batalhas sangrentas e dedicação incessante, dia após dia. Talento é importante, mas a diligência é condição indispensável para tornar-se forte.

Silenciosamente, as duas também se sentaram para cultivar, abandonando a intenção de relaxar durante a competição de caça, motivadas pelo exemplo de Xiao Lang e Xiaodao.

Com o sol já alto, os cinco comeram rapidamente a comida preparada pelos guardas imperiais e partiram para o quinto pico. Durante o trajeto, Xiao Lang não participou das lutas, deixando as tarefas para Cha Mu e Xiaodao, enquanto, vez ou outra, Dongfang Hongdou lançava suas técnicas espirituais em apoio. Yun Zishan, a prodígio de dezessete anos, jamais se envolveu, observando tudo com um silêncio orgulhoso — Xiao Lang tampouco se dava ao trabalho de chamá-la.

“Xiao Lang, sobre ontem… me desculpe”, disse Dongfang Hongdou, envergonhada, enquanto passavam por uma fera espiritual de quarto nível que Xiao Lang ordenara Xiaodao ajudar Cha Mu a derrotar. Ela acreditava que Xiao Lang estava irritado por ter sido usado por Yun Zishan, tornando-se alvo do ódio coletivo.

Desde que entraram no quinto pico, Xiao Lang mantinha um semblante distante, sem mais fazer piadas com Dongfang Hongdou. Inicialmente, ela também o ignorara por birra, mas agora, ao vê-lo tão frio, decidiu pedir desculpas, surpreendendo-o.

Xiao Lang, de fato, apreciava o jeito espontâneo e direto de Dongfang Hongdou e não guardava mágoas dela; só se sentia cansado e, por isso, não lhe dera atenção. Suspirou e respondeu com sinceridade: “Entre amigos não se pede desculpas, isso banaliza a amizade. Senhorita Hongdou, tenho poucos amigos — meu guarda Qianxun é um, Cha Mu é outro, e você… só conta como metade.”

“Metade só? Que mesquinharia!” — Dongfang Hongdou fez um bico, irritada. Custou a abrir mão do orgulho para pedir desculpas, e ainda assim recebeu essa resposta; claro que ficou aborrecida. Mas, ao se lembrar que Yun Zishan nem sequer contava como metade, não pôde evitar um sorrisinho satisfeito.

Xiao Lang lançou-lhe um olhar malicioso, aproximou-se e cochichou: “Se quiser ser minha amiga inteira, é fácil — basta me apresentar aquela sua prima ainda mais bonita que você, ou então, quem sabe, a gente forma um casal e vai conversar sobre sonhos da vida num lugar isolado?”

Dongfang Hongdou ficou boquiaberta e, em seguida, explodiu de raiva, gritando: “Vai embora!”