Capítulo Cinquenta e Nove: Armadilhas e os Enganados

O Rei dos Demônios Noite Demoníaca 2843 palavras 2026-02-07 12:37:10

O pavilhão oriental da família Xiao era vasto, abrigando inúmeros anciãos, cada qual responsável por diferentes assuntos da família. Com tamanho patrimônio, sem contar as forças ocultas como o Pavilhão das Chuvas e Névoas, apenas as propriedades declaradas na capital imperial e nas grandes cidades já eram incontáveis. A imensidão dos negócios internos e externos da família Xiao exigia muitos para administrá-los.

As quatro grandes famílias assemelhavam-se a colossos, enraizadas no Império da Guerra há quase mil anos, com tentáculos estendidos por todo o reino. Seja no comércio, na política, nas forças armadas ou em qualquer outro setor, a sombra dessas famílias era onipresente. Pode-se dizer que o Império da Guerra deu origem às quatro casas, e elas, por sua vez, sustentavam o império.

Há dez anos, o lendário guerreiro Sangue Carmesim do Império de Sangue declarou: enquanto as quatro grandes famílias existirem e o Deus da Guerra não for morto, o Império da Guerra jamais ruirá. Isso revela o assombroso status dessas famílias na dinastia.

Sob a orientação do velho Chan, Xiao Lang quase se perdeu de tantas voltas pelo pavilhão oriental antes de finalmente entrar em uma torre. Diante do portão, uma placa destacava-se: “Salão dos Assuntos Internos”.

No caminho, Chan já lhe explicara que este salão era o responsável pela administração e disciplina interna da casa. Com milhares de membros, apenas Xiao Imortal, Xiao Inabalável e Xiao Dragão Verde tinham autoridade absoluta; todos os demais, para obter até mesmo um artefato místico de baixo nível, precisavam da aprovação do Salão dos Assuntos Internos, detentor de grande poder.

O ancião que presidia este salão era Xiao Lobo Azul, quarto filho de Xiao Inabalável, cuja autoridade só ficava atrás do chefe da família, Xiao Dragão Verde, e do ancião do Salão da Batalha Sangrenta, Xiao Fútou.

Munido da insígnia de Xiao Imortal, Xiao Lang avançava destemido, a passos largos, até ser barrado ao entrar.

Dois guardas vigiavam a entrada do salão. Ao ver Xiao Lang entrar abruptamente, desembainharam suas armas místicas e gritaram, olhos em chamas:
– Pare! Quem ousa invadir o Salão dos Assuntos Internos?

Recém-retornado à família, Xiao Lang permanecera recluso no Pavilhão das Vestes Azuis, de modo que muitos guardas nem o conheciam. Ele, porém, julgou que era problema criado de propósito por Xiao Tigre Azul, ergueu a sobrancelha e retrucou friamente:
– Estão cegos? Não veem a insígnia presa à minha cintura?

Os guardas, é claro, notaram a insígnia, mas Xiao Lang não tinha dezoito anos e seu distintivo era de nível inferior. Entre tantos descendentes de terceira geração e estando ali o mais importante salão da casa, os guardas não se intimidaram, mantendo o olhar assassino:
– Que ousadia! Como se atreve a nos insultar? Um portador de insígnia amarela ousa se exaltar aqui? Sabe onde está?

Se não fosse pela presença do velho Chan, teriam arrastado Xiao Lang imediatamente ao salão disciplinar. Mas, dentro dos domínios da família, preferiram cautela.

– E esta insígnia, reconhecem? – disse Xiao Lang, sem mais paciência para discutir com aqueles guardas arrogantes, erguendo diante deles a insígnia de Xiao Imortal.

Ao vê-la, ambos empalideceram e caíram de joelhos, aterrados:
– Perdoe-nos, senhor! Cometemos um erro!

A insígnia negra com o ideograma dourado era superior até à de Xiao Vestes Azuis, símbolo máximo de autoridade, equivalente à presença do próprio patriarca.

Xiao Lang lançou um olhar ao velho Chan e ambos adentraram o salão.

O Salão dos Assuntos Internos era sumptuoso, recoberto por tapetes e de amplidão notável. No topo, atrás de uma mesa negra, estava Xiao Lobo Azul, homem de meia-idade trajando vestes refinadas e sombrias.

Ao ouvir o tumulto, Xiao Lobo Azul franziu o cenho, mas ao reconhecer Xiao Lang e o velho Chan, abriu um sorriso, levantou-se e veio recebê-los calorosamente:
– Ora, quem diria! É você, Lang, meu sobrinho. Que vento te trouxe até aqui, abrindo mão do conforto do Pavilhão das Vestes Azuis para visitar este seu quarto tio?

Xiao Lang, apesar de relutante, esboçou um sorriso, fez uma reverência com os punhos juntos e saudou:
– Xiao Lang saúda o quarto tio!

O velho Chan também cumprimentou. Xiao Lobo Azul, sorridente, puxou Xiao Lang pelo braço e o conduziu a um assento:
– Nada de formalidades, somos família! Sirvam o chá!

Diante de tanta cortesia, Xiao Lang sentiu-se encabulado, coçou o nariz e disse:
– Não se preocupe com o chá, tio. Vim te pedir um favor…

Xiao Lobo Azul sentou-se ao lado dele, com semblante afável:
– Diga, meu rapaz. Se estiver ao meu alcance, não negarei!

– Bem… – Xiao Lang olhou para o velho Chan e foi direto ao ponto:
– Gostaria de solicitar algumas pílulas e manuais para Qianxun. Parece que o senhor disse que seria difícil conceder isso…

– Ah! Então era sobre isso! – exclamou Xiao Lobo Azul, como se subitamente entendesse, mas logo franziu a testa, bastante constrangido:
– Qianxun, na Cidade do Rei das Ervas, não protegeu você devidamente e o deixou em perigo. Segundo as regras, deveria ser executado. Mas, por sua causa e pela intercessão de Xiao Ba, a família considerou os méritos dele e permitiu sua permanência no pavilhão principal, em sua consideração. Conceder-lhe mais pílulas e manuais seria uma grave violação das normas. Xiao Lang, uma família desse porte precisa de disciplina. Se hoje cedemos a você, amanhã será outro, e logo o caos se instaurará…

Falava pausadamente, com tom alternando entre firmeza e pesar, argumentando com tal razão que Xiao Lang ficou sem saber como responder.

Após um instante, Xiao Lang pensou em sua promessa a Qianxun e não quis decepcioná-lo. Cerrou os dentes e pediu:
– Tio, não poderia abrir uma exceção? Serei eternamente grato por sua bondade!

Xiao Lobo Azul hesitou, até que finalmente se voltou para o velho Chan:
– Chan, espere lá fora um instante. Preciso conversar algo em particular com meu sobrinho.

Xiao Lang estreitou os olhos, buscando o olhar do velho Chan, que, resignado, lançou-lhe um olhar de alerta antes de sair.

Só então Xiao Lobo Azul suspirou profundamente, e falou sério:
– Meu rapaz, esta questão é realmente delicada. O conselho de anciãos decretou que tudo siga rigorosamente o regimento; qualquer desvio será punido. Se eu for denunciado, posso perder o cargo ou até ser preso. Que tal se eu desse parte do meu estoque pessoal ao Qianxun?

Surpreso com tamanha gravidade, Xiao Lang sentiu-se envergonhado por sua má impressão anterior e disse:
– Não posso aceitar isso, tio. Se for impossível, buscarei outra solução.

O semblante de Xiao Lobo Azul ficou ainda mais tenso. Suspirou:
– Bem, talvez haja um jeito, mas…

– Mas o quê? – apressou-se Xiao Lang.

– Ah, esqueça – hesitou ele, antes de ceder:
– Posso aprovar seu pedido, mas se for descoberto, serei deposto. Mas, afinal, eu e Xiao Imperador Verde somos irmãos de sangue, lutamos juntos nas fronteiras do norte. Deixe apenas um bilhete registrando seu pedido; assim, se o conselho de anciãos questionar, terei como me justificar. Eles podem ousar mexer comigo, mas jamais afrontariam o patriarca. Escreva algo simples e eu aprovo, podendo retirar os itens imediatamente.

Xiao Lang estreitou mais uma vez o olhar, mas manteve a expressão inalterada, agradecendo com fingida sinceridade:
– Assim, tio, não estaria assumindo riscos?

Xiao Lobo Azul sorriu amargamente, mas afetuoso:
– Se fosse outro, não me arriscaria tanto. Mas você é filho do Imperador Verde, meu sobrinho do coração; esse risco não pesa.

– Certo, eu escrevo! – respondeu Xiao Lang, decisivo. O tio logo lhe trouxe pincel e papel:
– Escreva qualquer coisa simples, só para formalizar. Depois é só pôr o dedo e retiro a autorização.

Xiao Lang, atrapalhado, segurou o pincel e, envergonhado, coçou a cabeça:
– Tio, não sei escrever. Cresci no campo, minha tia não me ensinou. Poderia escrever por mim? Eu só ponho o dedo.

Xiao Lobo Azul olhou fundo nos olhos do rapaz, certificando-se de que não mentia, e, resignado, tomou o pincel, escreveu rapidamente e virou-se para Xiao Lang:
– Pronto, basta sua impressão digital.

No bilhete lia-se: “Xiao Lang solicita expressamente cinco pílulas sagradas e cinco manuais de nível celestial para Qianxun, conforme registrado.”

Xiao Lang, ao ler, estreitou os olhos, mas logo esboçou um sorriso sarcástico, fitando o tio com frieza:
– Xiao Lobo Azul, acha que sou ingênuo e pode me enganar? Armando uma cilada para mim? Jamais imaginei que um ancião da família Xiao pudesse ser tão tolo. Com esse bilhete, se cair nas mãos do conselho, sua posição… estará realmente perdida!