Capítulo Trinta e Um: Meu Neto
Com um único sinalizador disparado por Xiao Lang, uma confusão tomou conta dos arredores do Monte Xumi. Ao mesmo tempo, um brado estrondoso de Huo Lie sacudiu toda a Cidade da Fênix de Fogo!
O jovem mestre da Fênix de Fogo fora vítima de uma emboscada e caíra em um abismo sem fundo?
A notícia se espalhou pela cidade como uma nevasca, atingindo todos os cantos. Incontáveis guerreiros das famílias correram desesperados em direção ao Monte Xumi. Muitos amaldiçoavam Xiao Lang, um jovem até então desconhecido, e, antevendo a fúria do Senhor da Cidade quando retornasse, desejavam despedaçá-lo sem piedade.
O Senhor da Cidade da Fênix de Fogo, que já possuía um temperamento explosivo, tivera um filho em idade avançada. Agora, com o único herdeiro em perigo, o caos estava instaurado; era certo que dias de paz não voltariam tão cedo àquela cidade.
Situ Zhantian, Bu Xiaosha e mais dois foram imediatamente capturados pelo exército da Fênix de Fogo. Madame Ya, que os acompanhara, também foi detida ao descer a montanha. Mu Long, com expressão sombria, desceu e ordenou discretamente que alguém enviasse uma mensagem ao Rei dos Remédios, pedindo que este retornasse para assumir o controle da situação.
Um círculo secreto de comunicação foi ativado no interior da cidade; um feixe de luz branca atravessou o céu, levando a notícia ao Senhor da Cidade. O clima era de temor e ansiedade, todos aguardando com receio a fúria devastadora que viria com o seu retorno.
Todos os alunos das academias de artes marciais do Monte Xumi foram levados para a base da montanha e o torneio foi cancelado. O abismo sem fundo estava completamente cercado pelo exército, enquanto Huo Lie, com o rosto lívido, comandava pessoalmente a preparação de longas cordas para descer ao abismo e verificar se o jovem mestre ainda estava vivo ou, ao menos, recuperar seu corpo.
Contudo, ele não sabia ao certo a profundidade daquele abismo e, temendo precipitar-se, pediu que trouxessem ainda mais cordas da cidade, além de reforçar a equipe para, em caso de ataque de feras místicas, poderem se apoiar mutuamente.
Na estrada entre a Cidade da Fênix de Fogo e a Cidade do Rei dos Remédios, uma figura avançava em desabalada carreira, numa velocidade assustadora. Quem a visse de longe mal tinha tempo de distinguir uma sombra antes que ela desaparecesse como um fantasma à luz do dia, causando pavor entre os passantes.
— Depressa, depressa, depressa!
As pernas de Qianxun tremiam, seu coração sangrava, mas ele nada podia fazer ou dizer. Empregando cada gota de energia e cada fio de poder místico, corria sem cessar.
A distância entre a Cidade da Fênix de Fogo e a Cidade do Rei dos Remédios não era grande, mas Xiao Lang e seus companheiros, em ritmo normal, levaram dois dias e meio para percorrê-la.
No entanto—
Qianxun precisou de apenas meio dia para chegar ao seu destino, tamanho era o seu desespero e velocidade.
— Pequena Cicatriz!
Após horas de corrida incessante, Qianxun sentia a garganta seca e a voz rouca, mas ainda assim reuniu forças e, ainda distante da Mansão Névoa e Chuva, gritou com todas as suas forças.
Um silvo cortou o ar.
O Senhor Cicatriz saiu correndo da arena de combate. Os guerreiros que haviam ficado para proteger a mansão também foram alarmados e correram de todas as direções, com expressões severas, prontos para enfrentar quem ousasse fazer tanto barulho diante da Mansão Névoa e Chuva.
— Mestre Qian!
Senhor Cicatriz e os guardas, ao verem o estado deplorável de Qianxun, ficaram alarmados. Cicatriz, com sua atitude bajuladora, apressou-se a recebê-lo.
— Ative imediatamente o círculo secreto e avise o Oitavo Mestre: o jovem mestre Xiao Lang caiu no abismo sem fundo!
Assim que terminou de falar, Qianxun tombou no chão, espumando pela boca e desmaiando. O sorriso bajulador de Cicatriz desapareceu, dando lugar a uma expressão de puro pavor.
Os outros guardas, sem conhecer a real identidade de Xiao Lang, não entenderam a gravidade, mas Cicatriz sabia muito bem. Ainda que não soubesse ao certo o que era aquele abismo, sabia que algo grave acontecera a Xiao Lang. O Oitavo Mestre já havia advertido: se algo acontecesse a Xiao Lang, ele seria despedaçado vivo.
— Depressa, ativem o círculo secreto, avisem o Oitavo Mestre!
Sem se preocupar em ajudar Qianxun, a cicatriz no rosto de Cicatriz pareceu contorcer-se, enquanto ele corria aos berros para um pavilhão reservado nos fundos.
Momentos depois, um raio de luz branca atravessou o poente avermelhado, levando, em primeira mão, a notícia da tragédia de Xiao Lang até o Oitavo Mestre, distante na capital imperial.
...
Na capital imperial, a atmosfera também era de tensão.
Inúmeros poderosos do Império da Guerra chegaram durante a noite e dirigiram-se ao grande solar da família Xiao, no lado norte da cidade, para encontrar o Patriarca e congratulá-lo por destruir o selo do Monte Longhu e retornar são e salvo.
Carruagens luxuosas quase bloquearam por completo a entrada do solar; todos os nomes de destaque e figuras importantes do império lotavam o salão, mas o velho patriarca da família Xiao ainda não aparecera.
— Senhores, senhores!
A porta lateral do salão se abriu e um ancião de túnica azul, imponente e sorridente, entrou cumprimentando a todos.
— Senhor Buwei!
Os quarenta e cinco presentes se levantaram ao mesmo tempo, sorrindo respeitosamente e saudando o ancião. Que tamanha reverência por parte de tantos poderosos e normalmente altivos só podia indicar a posição elevada daquele homem na família Xiao.
O ancião, sempre cortês, agradeceu:
— Agradeço a todos pelo carinho. Tentei por diversas vezes chamar o velho patriarca, mas ele acabou de retornar e precisa repousar; disse que não receberá visitas hoje, mas sente profundamente a consideração de todos. Por favor, retornem às suas casas; um dia a família Xiao retribuirá tamanha gentileza!
Todos sentiram uma pontada de decepção, logo disfarçada. Embora lamentassem não ver a lendária fortaleza viva, não ousaram insistir após o recado do patriarca, despedindo-se cordialmente.
Entre eles estavam o Senhor da Cidade da Fênix de Fogo e o Rei dos Remédios, Mu Ding. Ambos saíram desapontados. Mal haviam deixado o solar, quando o medalhão do Senhor da Cidade da Fênix de Fogo vibrou em seu peito. Ao ver o conteúdo, sua expressão mudou, exalando uma aura assassina. Sem dar explicações, envolveu-se em energia mística, uma fênix flamejante surgiu atrás de si, asas escarlates irromperam em suas costas e, transformando-se numa estrela cadente, voou em direção à Cidade da Fênix de Fogo.
— Por que tanta pressa? Terá acontecido algo grave na Cidade da Fênix de Fogo? — murmurou o Rei dos Remédios, alisando a barba grisalha, o olhar turvo brilhando de preocupação. Após refletir, ordenou: — Muyu, retornaremos imediatamente à Cidade da Fênix de Fogo!
Assim que entrou na carruagem, Muyu lançou os chicotes, e os quatro cavalos magníficos dispararam pela estrada.
Do lado de fora do solar da família Xiao, os grandes personagens murmuravam, desconfiados de que algo muito sério havia ocorrido na Cidade da Fênix de Fogo, pois não era comum o seu senhor deixar a capital tão apressado.
O velho patriarca da família Xiao não estava repousando!
Nos fundos do solar, uma fileira de poderosos membros da família Xiao permanecia ajoelhada havia um dia e uma noite, em absoluto silêncio, os olhares ardentes fixos numa pequena e imponente figura à frente.
Aquela figura, de não mais que um metro e sessenta, transmitia a sensação de uma montanha colossal. Era um ancião de manto negro, coluna ereta como uma espada, cabelos brancos como neve e rosto de aparência jovem. Com as mãos cruzadas às costas, permanecia imóvel diante de um túmulo, expressão serena, pensamentos insondáveis.
Entre os ajoelhados estava o Oitavo Mestre, ansioso por relatar os acontecimentos envolvendo Xiao Qingyi e Xiao Lang. No entanto, desde que o patriarca retornara, não dissera uma palavra, apenas fitava o túmulo em silêncio. Enquanto não falasse, todos deveriam permanecer ajoelhados.
Essa cena insólita perdurou até o céu se tingir de vermelho e o crepúsculo cair. Por fim, o lendário patriarca da família Xiao, o mais poderoso do Império da Guerra, moveu-se.
Ergueu o rosto ao céu, suspirou baixinho e murmurou:
— Imperador Verde, meu filho, foste capaz de permitir que um velho de cabelos brancos enterrasse seu próprio filho? Ai de mim... Mas não te preocupes, todos que causaram a tua morte, eu os encontrarei e matarei com minhas próprias mãos!
As palavras eram suaves, mas todos os poderosos sentiram um frio cortante no âmago e a ameaça de uma matança sem fim.
Pela primeira vez, o patriarca voltou-se para eles, o olhar sereno varrendo o grupo, e perguntou em tom brando:
— Onde estão Qingyi e meu neto?