Capítulo Vinte e Três: Erros Repetidos

O Rei dos Demônios Noite Demoníaca 2620 palavras 2026-02-07 12:36:44

Em princípio, Xiao Lang considerava-se um homem reservado, pois lembrava-se de uma lição que ouvira em sua vida anterior: um homem deve ser contido, não pode permitir que qualquer mulher se deite em sua cama, pois isso seria imoral.

Por isso, mesmo com as investidas constantes de Madame Ya, que frequentemente tentava seduzi-lo, Xiao Lang mantinha-se impassível, tal qual Liu Xiáhuì, sempre detendo-se antes de ceder ao desejo. No entanto, naquele instante, a expressão de Madame Ya, tão delicada e fragilizada, seus olhos solitários e cheios de desamparo, tocaram algo suave no âmago de Xiao Lang.

Diz-se que todo aquele que desperta ódio contém em si algo digno de compaixão, mas nem todo digno de compaixão é merecedor de ódio.

Xiao Lang nada disse; apenas fechou a porta, serviu uma xícara de chá para Madame Ya e sentou-se diante dela, olhando-a em silêncio.

— Quer ouvir uma história? — perguntou ela, segurando a xícara com ambas as mãos, encarando-o com serenidade. Sob o luar, aquele rosto de beleza vulpina parecia ainda mais encantador.

Xiao Lang tomou um gole do chá, assentiu e respondeu:

— Conte, estou ouvindo.

Madame Ya era uma mulher com histórias para contar. Antes, Xiao Lang não tinha disposição para ouvi-las, mas naquela noite, envolto naquela quietude, sentiu vontade de conhecer o passado da mulher mais famosa da Cidade do Rei dos Remédios, saber que tristeza se ocultava sob sua fama.

— Era uma vez uma menina que nasceu em uma grande família. Os pais a mimavam, o irmão a protegia. Ela era inocente e sonhadora, acreditava que o mundo era maravilhoso e repleto de amor... Desde pequena era muito bonita, a mais bela da academia marcial, tantos a cortejavam que poderiam formar uma fila na rua. Mas ela não gostava daqueles jovens ricos, pois todos eram falsos. Seu coração foi conquistado por um rapaz humilde, filho do cocheiro da família, que colhia flores para ela todos os dias e, certa vez, a salvou de uma flecha. Os dois apaixonaram-se em segredo, juraram amor eterno. Mas... a família dela descobriu. O cocheiro e seu filho desapareceram misteriosamente, nunca mais foram vistos!

Ao chegar a este ponto, os olhos de Liu Ya mostraram uma sombra de tristeza. Xiao Lang suspirou, sabendo que o cocheiro e seu filho certamente tinham sido mortos ou expulsos.

Liu Ya fez uma pausa, depois continuou em tom melancólico:

— No início, a menina nada sabia. Procurou o rapaz desesperadamente pela cidade, pois ele havia prometido que, mesmo morto, não se separaria dela. Acabou encontrando-o, ou assim pensou: um jovem da academia disse tê-lo visto se divertindo nos prostíbulos de uma cidade vizinha. Ela não acreditou, mas foi atrás com o jovem. Lá, encontrou o rapaz em um bordel. Não disse nada, virou-se e foi embora, sem derramar uma única lágrima.

No rosto de Liu Ya não havia dor, mas sim uma solidão gélida. Seu olhar parecia perdido no tempo:

— Aquela menina era eu. Voltei para casa e adoeci gravemente. Quando melhorei, a família arranjou meu casamento com o herdeiro mais renomado da cidade, Mu Gou, filho único de Mu Ding, do clã Mu. Mu Gou era um de meus pretendentes e, após o casamento, tratou-me muito bem. No entanto, meu coração não havia se recuperado da dor causada pelo filho do cocheiro. Foi uma relação sempre morna. Depois de seis meses, diante dos esforços de Mu Gou, comecei a aceitar meu papel de dama da alta sociedade.

— Mas então... — A expressão de Liu Ya tornou-se repentinamente amarga, sua voz marcada por ódio e dor — Mu Gou, que sempre se mostrou tão devotado, um dia fez-me um pedido inaceitável. Queria que eu entretivesse um convidado, um nobre da capital imperial. Eu me recusei, mas ele ameaçou matar toda a minha família caso eu não cedesse, e ainda fez trazer o filho do cocheiro, matando-o diante de mim! Xiao Lang, você imagina a dor que senti naquele momento?

Xiao Lang continuou em silêncio, fitando aquela mulher infeliz. Sim, ser bela pode ser uma maldição.

Liu Ya enxugou as lágrimas e prosseguiu:

— Depois disso, meu coração gelou por completo. Não importava o quanto Mu Gou tentasse agradar-me, nunca mais sorri. Meio ano depois, Mu Gou, um homem fraco por natureza, envolveu-se numa briga e levou um grupo de pessoas à Montanha do Demônio, dizendo que mataria uma besta mística de quinto nível. Acabou trazido de volta quase morto, metade do corpo dilacerado pela fera. O Rei dos Remédios conseguiu salvar-lhe a vida, mas ele ficou inutilizado como homem. Transformou-se em um inválido, um homem sem utilidade. E foi aí que começou o período mais doloroso da minha vida.

Os olhos de Liu Ya mostravam medo, como se aquele tempo fosse impossível de esquecer. Seu corpo tremia, e ela continuou:

— Ele perdeu o corpo, não podia mais cultivar, nem ser um homem de verdade. Passei a sentir pena dele e cuidei dele com dedicação, mas ele enlouqueceu, afundou-se na bebida, passou a me agredir, obrigava-me a dançar nua, insultava-me, usava objetos para me humilhar... Foram dias terríveis, em que eu não podia viver nem morrer, pois ele ameaçava destruir toda a minha família caso eu ousasse tirar a própria vida...

Essas palavras foram ditas de olhos cerrados, o corpo de Liu Ya tremia sem parar, o rosto tomado pelo pavor. Xiao Lang continuou calado, apenas levantou-se, sentou-se na cama e tomou a pequena e frágil mão de Liu Ya entre as suas, tentando transmitir-lhe algum calor.

Liu Ya não reagiu, continuou tremendo. Só depois de muito tempo soltou um longo suspiro, forçando um sorriso para Xiao Lang antes de prosseguir:

— Mu Gou morreu, bêbado. Mesmo tendo o Rei dos Remédios como pai, não pôde salvar-se. Após sua morte, voltei para a família Liu, recusando-me a ser reconhecida como esposa dos Mu. Meu coração morreu, tornei-me uma mulher sem rumo, a viúva mais famosa da Cidade do Rei dos Remédios! Motivo de desprezo, alvo de escárnio, chamada de devassa sem vergonha...

Xiao Lang permaneceu em silêncio, olhando serenamente para Madame Ya, a mulher considerada a melhor companhia de toda a cidade, sentindo o perfume suave que exalava de sua pele e, estranhamente, uma paz profunda apoderou-se de seu espírito.

— Xiao Lang, você... me despreza? Sente nojo desta devassa? Por isso sempre me tratou com frieza?

Liu Ya virou-se de repente, olhando-o, com um brilho de insegurança e medo nos olhos.

Xiao Lang sorriu levemente e respondeu com seriedade:

— Você sabe que não sou esse tipo de homem.

— Eu sei! — Madame Ya assentiu com veemência. De repente, o rosto corou e, com a cabeça baixa, os cílios tremendo, murmurou:

— Você é diferente dos outros. Os outros homens só querem me possuir, veem em mim apenas uma mulher bonita. Você, não. Você me vê como... uma pessoa.

Naquela noite, quando o jovem Fênix de Fogo veio visitá-la, se fosse a Liu Ya de antes talvez não só não teria se ofendido, como também teria se entregado a ele. Mas, por causa de Xiao Lang, ela não quis, ou ao menos, naquele momento, não quis seguir o mesmo caminho de outrora. Liu Ya preferiu não comentar, mas em seu íntimo sentia-se feliz por ter resistido.

— Pois bem! — Madame Ya ergueu o rosto, sorrindo docemente, respirou fundo e disse:

— Xiao Lang, você venceu! Não consigo competir com você, admito minha derrota, estou rendida, confesso... estou apaixonada! Não importa o que pense de mim, se me ama ou não, acredito que tenho o direito de amar alguém, não é?

Xiao Lang sorriu amargamente, piscou e perguntou:

— Só por eu ter salvado você esta noite?

— Não só por isso! — Liu Ya balançou levemente a cabeça — Xiao Lang, talvez você não saiba, mas há algo em você, uma aura que encanta as mulheres. Ainda assim, homens como você não podem ser presos por mulher alguma. Talvez tenha sido um erro me apaixonar, mas prefiro errar muitas vezes a nunca ter amado!

Diante de uma confissão tão sincera, Xiao Lang permaneceu calmo apesar da ternura em seu coração. Após longa pausa, afagou a pequena mão de Madame Ya e falou suavemente:

— Durma. Talvez, ao acordar, descubra que o mundo ainda é belo.

Liu Ya anuiu docemente, deitou-se junto a Xiao Lang e o abraçou como um gatinho, sem soltá-lo por toda a noite.

E assim, os dois não se despiram, não se entregaram ao desejo. Apenas se mantiveram abraçados, dormindo tranquilos, como um casal unido por muitos anos.