Capítulo Cinquenta: O Pavilhão dos Livros

O Rei dos Demônios Noite Demoníaca 2566 palavras 2026-02-07 12:37:04

Nos dias que se seguiram, o grande pátio da família Xiao permaneceu tranquilo. Aquela tempestade que Xiao Lang previra não veio; Xiao Qingyi nada disse, e ele deduziu que certamente era Xiao Busi quem o protegia.

Xiao Lang aproveitava esse raro momento de paz. Todos os dias, ele e Pequena Faca treinavam e liam juntos no Pavilhão Qingyi, fazendo companhia à tia. Embora o pavilhão não fosse grande, o jardim era espaçoso. Xiao Lang pediu ao velho Chan que mandasse trazer algumas rochas enormes e também ergueu estacas de ameixeira. Os dois irmãos, quando desocupados, carregavam as pedras correndo pelo pátio ou saltavam ágeis de uma estaca a outra, aprimorando reflexos e agilidade.

O pequeno Bai, a Fera Ilusória, não entrou na casa dos Xiao naquele dia. Xiao Futu mandou escondê-lo, só sendo trazido em segredo no dia anterior. Xiao Futu não fez perguntas quando Xiao Lang lhe pediu esse favor. Se ele reconheceu ou não que Bai era, na verdade, uma Fera Ilusória, isso só ele sabia.

No jardim dos fundos do Pavilhão Qingyi, Xiao Lang preparou um abrigo para Bai, solicitando ao velho Chan que providenciasse carne fresca todos os dias, acomodando assim o animal. Felizmente, ninguém estranho entrava no pavilhão, pois, do contrário, ver um “burro” devorando carne diariamente seria um verdadeiro susto.

A tia passava os dias reclusa, lendo, tomando chá e aproveitando o sol. Sempre que Xiao Lang perguntava sobre suas pernas, ela sorria e balançava a cabeça, dizendo para ele não se preocupar e focar no treinamento, que ela cuidaria do resto.

Após três dias recluso, Xiao Lang já não conseguia mais ficar quieto.

Dentro dele havia uma misteriosa trepadeira roxa, e enquanto não esclarecesse aquilo, sentia-se inquieto. Apesar de verificar noite após noite, nada encontrava.

— Tia, a família Xiao tem algum tipo de biblioteca? Quero procurar algumas informações!

No terceiro dia, Xiao Lang tocou no assunto. Qingyi não se surpreendeu e apenas assentiu:

— Deixe que o velho Chan o leve. Mas, como ainda não despertou sua Alma Divina, não terá acesso às técnicas avançadas. É uma regra do clã, que nem eu nem seu avô podemos violar.

— Só quero dar uma olhada — disse Xiao Lang, sem explicar mais. Então, lembrou-se de algo e acrescentou: — Tia, na Cidade do Rei dos Remédios, o oitavo senhor tem um subordinado chamado Qianxun. Poderia trazê-lo para trabalhar aqui?

Qingyi respondeu com indiferença:

— É coisa simples. Quer que traga também o próprio Xiao Ba?

— Oitavo senhor? — Xiao Lang hesitou, mas logo balançou a cabeça: — Ele não combina com a casa dos Xiao; nasceu para comandar seu próprio território. Se puder, ajude-o a subir, afinal, ele foi importante para mim.

— Vá lá! — Qingyi sorriu afetuosamente. Só depois que Xiao Lang saiu, ela murmurou, sorrindo: — Meu menino já sabe conquistar corações. Muito bem, está progredindo.

Guiado pelo velho Chan, Xiao Lang chegou a uma torre no Pátio Leste. Normalmente, um simples servo bastaria, mas o velho Chan fazia questão de acompanhar o novo jovem mestre, demonstrando a importância que lhe atribuía.

Um guerreiro de dezessete anos!

Resiliente, de bom caráter, impiedoso quando necessário, além de contar com Xiao Busi! Xiao Lang não sabia, mas, para o velho Chan, ele já era um dos jovens mais importantes do clã.

— Jovem mestre Lang, esta é a biblioteca. Pode entrar sozinho, caso precise de algo, estarei no jardim dos fundos — disse Chan, despedindo-se com cortesia.

Xiao Lang agradeceu e, ao lançar um olhar ao edifício, não pôde deixar de admirar sua imponência. Entrou.

Logo na entrada havia um amplo salão, sem livros ou mobiliário, mas com incontáveis portas e uma escada. No centro, um ancião de sobrancelhas brancas e longas estava sentado em meditação.

Xiao Lang fez uma reverência respeitosa.

— Saúdo o senhor!

O ancião abriu os olhos confusos, revelando um olhar turvo de idade avançada. Lançando um olhar frio a Xiao Lang, exigiu:

— Mostre o emblema!

Xiao Lang retirou da cintura o emblema amarelo que o velho Chan lhe dera dois dias antes e entregou-o respeitosamente. O ancião examinou-o por alguns instantes e assentiu:

— Pode consultar todos os livros do primeiro andar. Os andares superiores não lhe são permitidos.

A família Xiao só se manteve de pé no Reino dos Guerreiros por quase mil anos por causa de sucessivas gerações de poderosos e também de regras rígidas que nem o patriarca podia violar.

Apesar de sua posição privilegiada, Xiao Lang não havia despertado a Alma Divina e, portanto, só podia portar o emblema amarelo do clã. Cada cor de emblema refletia status e poder dentro da família.

— Muito obrigado, senhor!

Xiao Lang sempre foi de trato afável, retribuindo gentilezas com ainda mais cortesia, como fazia com Qianxun. Mas havia nele uma teimosia inabalável, semelhante à de Qingyi: quando decidia algo, nem dez mulas o faziam mudar de ideia.

Entrou em uma das salas ao acaso, encontrando um ambiente espaçoso e iluminado. Havia quatro enormes estantes, todas repletas de livros, cada qual bem identificada.

— Técnica Marcial dos Ventos, Técnica Marcial do Tigre, Técnica Marcial... — Xiao Lang circulou pelas estantes, percebendo que todas eram técnicas marciais de nível humano, o que o deixou atordoado diante de tanta variedade.

Naquele continente, seja na prática da Alma Divina, do Qi Profundo, técnicas de combate, alquimia, artefatos ou tesouros raros, tudo era dividido em quatro níveis: humano, terrestre, celestial e sagrado. Por exemplo, a Alma Divina do oitavo senhor era de nível terrestre; a de Qingyi, de Xiao Futu e da Fênix de Fogo era de nível celestial. O Elixir da Pluma de Fênix era um sagrado, nível mais alto.

O nível humano era o mais baixo. Técnicas desse tipo não eram preciosas, mas, numa família como os Xiao, ter milhares delas em uma única sala ainda era impressionante.

Xiao Lang, porém, não se interessava por técnicas de combate. Sabia que, entre guerreiros de baixo nível, o que fazia diferença era força, agilidade, velocidade, reflexos e presença. Para alguém no seu estágio, técnicas avançadas eram difíceis de aprender e, mesmo que conseguisse, consumiriam quase toda a sua energia em uma única execução. Por isso, Qingyi nunca lhe ensinara, nem a Pequena Faca, tais habilidades.

Rapidamente, saiu daquela sala e foi explorar outras.

— Armamentos, alquimia, bestiários de feras espirituais e selvagens?

— Mapas do Continente da Alma Divina, registros de cidades, regiões perigosas e mortais?

— Registros de famílias influentes, poderosos e raças do continente?

— Compêndio das Almas Divinas dos guerreiros, celestiais e terrestres?

— Crônicas do Continente da Alma Divina?

Xiao Lang percorreu todas as salas, passando o dia inteiro folheando livros, principalmente aqueles sobre flores estranhas e ervas exóticas, mas nada encontrou que lhe servisse.

— Melhor esperar pelo Festival da Alma Divina que será em poucos meses. Quando eu despertar minha Alma Divina, com um emblema superior poderei subir ao segundo andar. Se não der certo, restará perguntar à tia ou ao avô — decidiu-se Xiao Lang.

Antes, ele ainda duvidava se seria capaz de despertar a Alma Divina. Mas, ao saber que era filho de Xiao Qingdi, passou a acreditar que isso era certo. Restava saber se seria de nível celestial ou terrestre; humano, era praticamente impossível.

Por que os descendentes das famílias nobres são tão poderosos?

Não é apenas pelos recursos, mas também porque se casam entre si, unindo forças. Mesmo que uma geração não supere a anterior, a linhagem nunca será inferior.

Entre os jovens da família Xiao, poucos despertavam almas de nível humano; terrestre era comum e celestial não raro.

Isso explica também por que os filhos dessas famílias costumam ser belos: quem tem aparência mediana dificilmente cruza os portões de um grande clã. Gerações de seleção e aprimoramento fazem com que a beleza seja quase hereditária.

Com os olhos cansados, Xiao Lang deixou o salão e encontrou o velho Chan à sua espera.

— Jovem mestre Lang, o patriarca ordenou que você retorne, tome banho e vista-se bem. Mais tarde, irá acompanhá-lo ao banquete no palácio imperial.