Capítulo Oitenta e Três: O Demônio Xiao
Com um estrondo, caiu ao chão. Após cem voltas, o rosto de Silvestre já adquirira um tom acinzentado, o corpo tremia sem cessar e sua velocidade diminuía gradualmente, enquanto Silvano continuava a correr, suor em rios. Quando alcançaram cento e vinte voltas, Silvestre não resistiu mais; tudo se fez escuro diante dos olhos, e ele desabou, os dois enormes pesos de ferro caindo com força sobre o chão, ecoando um som surdo.
Silvano olhou de volta com indiferença, um leve sorriso nos lábios, e prosseguiu sua corrida. Na verdade, Silvano nunca teve a intenção de competir com Silvestre; foi o outro que, por arrogância, iniciou a disputa. Para Silvano, aquilo era apenas um treino rotineiro. Silvestre, mesmo sendo um guerreiro de nível intermediário, perdeu fragorosamente, e Silvano não sentiu orgulho algum, apenas continuou sua corrida.
De fato, Silvestre tinha uma posição superior e uma constituição física notável, mas esqueceu um detalhe importante. Silvano, além de possuir experiência prática incomparável, cresceu em meio à natureza, submetendo-se diariamente a um rigoroso treinamento que fortaleceu seu corpo a níveis assustadores. Caso contrário, tantas cicatrizes já teriam lhe custado a vida.
Sob o olhar atônito de muitos, Silvano ainda correu mais trinta voltas antes de parar, e além de estar coberto de suor, não demonstrava nenhum sinal de cansaço ou falta de ar.
Silvestre já recuperara a consciência e, ao olhar para Silvano, seus olhos transpareciam uma hostilidade ainda mais evidente. Mas a juventude presente admirava Silvano com fervor, um olhar de pura veneração.
Os fortes sempre inspiram respeito, como se fossem montanhas intransponíveis. Derrotar um comandante como Zéfiro, mesmo sob efeito de possessão espiritual, conquistar o primeiro lugar no Torneio de Caça, superar Silvano e Silvestre: para eles, Silvano era um verdadeiro campeão.
O velho Tigre Azul, alheio à rivalidade entre Silvano e Silvestre, bradou com voz grave: “Descansem por um momento, depois iniciaremos o treino de combate!”
Silvano não se sentou imediatamente; caminhou lentamente pela praça, recuperando energia e só então se acomodou num degrau para descansar.
“Silvano, beba água!”
Dois jovens aparentados de Silvano aproximaram-se, com sorrisos bajuladores; um deles segurava um cantil, entregando-o com olhos ansiosos.
“Obrigado!” Silvano não pretendia dar atenção, mas recordou os conselhos de Silvano Imortal e Silvana Azul, aceitou o cantil e respondeu com um sorriso.
O jovem que lhe ofereceu o cantil parecia ter a mesma idade de Silvano; o outro, ligeiramente mais velho, era até bonito, mas a postura servil lhes tirava o brilho. Ao vê-lo beber, o jovem logo se apresentou: “Silvano, você é muito gentil. Eu me chamo Silvano Águia, este é meu irmão Silvano Cão! Nosso pai é Silvano Verde, nosso avô é Silvano Eterno.”
Silvano estranhou, rindo: “Águia e Cão, por que escolheram esses nomes?”
Silvano Águia, um pouco constrangido, coçou a cabeça: “Quando nasci, meu pai disse que eu não tinha talento, que minha vida seria apenas desfrutar da proteção da família, um filho mimado, então me chamou de Águia; quando meu irmão nasceu, ele o nomeou Cão, para manter a tradição. Peço desculpa pelo nome...”
Silvano lançou um olhar aos irmãos e percebeu que realmente eram medianos em termos de habilidade, sem saber se era falta de talento ou influência paterna. Após pensar um pouco, respondeu com seriedade: “Creio que o tio Verde está equivocado. O talento é importante, mas mais ainda é o esforço dedicado. Ser um filho mimado pode parecer agradável, mas daqui a cinco ou dez anos certamente lamentarão não terem se empenhado. Para conquistar mais, é preciso dar tudo de si.”
“Silvano, você tem razão! Prometemos nos esforçar daqui em diante!”
Os irmãos Águia e Cão assumiram uma postura séria, concordando repetidamente, com expressão de quem foi instruído. Silvano assentiu discretamente, ganhando simpatia pelos dois.
Mas, de repente, Silvano Águia mudou de expressão, aproximou-se furtivamente e sussurrou: “Silvano, tem tempo esta noite? Chegaram mulheres extraordinárias do Céu Exterior, todas de primeira linha, ainda intocadas. Se estiver interessado, posso arranjar tudo para você!”
Silvano olhou para Águia e Cão, ambos com olhos brilhantes de expectativa, suspirou: “Esqueça o que acabei de dizer…”
“Ué? Silvano não gosta das moças do bordel?”
Águia franziu o cenho, refletiu e, aproximando-se novamente com atitude maliciosa, continuou: “Então prefere mulheres de família? Com o destaque que teve no Torneio de Caça, tornou-se famoso na capital, e muitas senhoritas de famílias pequenas já lhe entregaram o coração. Conheço duas, ambas belíssimas, posso arranjar um encontro discreto. Trabalho bem, pode confiar, sem consequências...”
Silvano fitou aquela face tão repulsiva, animada e tagarela, sentiu uma aversão profunda, nem quis responder, virou-se e fez um gesto de despedida: “Vai embora!”
Águia e Cão, com o sorriso congelado no rosto, perceberam que Silvano falava sério, e ficaram embaraçados. Tentaram dizer algo, mas nada saiu, e acabaram saindo de mansinho.
Muitos observavam a situação, e ao verem Silvano tão reservado, nem ousaram se aproximar para tentar criar laços.
Sentado no degrau, Silvano mantinha as mãos sobre os pés e a cabeça baixa, ignorando todos, em silêncio. Notou que entre ele e os chamados filhos de família havia um abismo, uma diferença de pensamento e valores. Talvez por isso Silvana Azul sempre preferiu afastar-se da mansão desde pequeno.
De repente, um murmúrio agitou a praça; senhores e senhoritas levantaram-se, olhando em direção ao portão principal. Silvano ergueu o olhar, os olhos semicerrados.
Um jovem, que Silvano jamais vira, aproximava-se do portão. Aproximadamente vinte anos, trajando um manto azul, rosto austero e escuro como carvão, carregava uma espada negra de mais de um metro nas costas, postura ereta, olhar frio e penetrante. A impressão era de que ele próprio era como aquela espada negra: uma presença gélida e implacável.
“Que jovem extraordinário!”
Silvano admirou em silêncio, percebendo pelo olhar de respeito e temor dos presentes quem era. Filho de Silvano Fúnebre, Silvano Demônio!
Pai como dragão, filho como serpente, prestes a tornar-se dragão!
Confirmou sua suspeita ao ouvir os murmúrios dos jovens ao redor.
Enquanto Silvano Demônio caminhava direto ao pavilhão leste, seu olhar de repente se encontrou com o de Silvano, e ambos ficaram com o semblante sombrio, a aura de cada um crescendo. Como dois reis das feras encontrando-se na floresta, ambos sentindo no outro a mesma força e perigo.